Editorial

O legado da Lua

O certo é investir bilhões em viagens espaciais ou priorizar a canalização de recursos para enfrentar os problemas terrenos?

As comemorações dos 50 anos da chegada do homem à Lua, em 20 de julho de 1969, são também oportunidade para avaliar o legado da missão espacial que realizou esse feito extraordinário para a ciência e a humanidade. Se há um conjunto de merecidas celebrações, de um lado, principalmente reconhecendo o fato histórico como marco de propulsão para os avanços científicos, em contrapartida há controvérsias sobre os custos investidos na operação diante das prioridades da sobrevivência humana na Terra.

A missão da espaçonave Apollo 11 representou avanços científicos inegáveis para a vida na Terra. A tecnologia empregada na viagem à Lua contribuiu, por exemplo, para o desenvolvimento dos satélites de comunicação e de monitoramento do clima, além da medicina e da informática. E contribuiu também para inovações como o sistema de controle digital dos aviões, ranhuras em pistas de aeroportos, pilhas recarregáveis dos aparelhos auditivos, sistemas de amortecimentos de terremotos, roupas de fibras sintéticas para os bombeiros em todo o mundo.

Como habitualmente, as maravilhas criadas pelo homem quase sempre são alvos de questionamentos pelas contradições que podem representar. No caso da viagem à Lua, o custo do empreendimento é um dos problemas. O projeto Apollo 11 conduziu um total de 12 astronautas à Lua de 1969 a 1972. Foi paralisado num momento em que havia mais três viagens programadas.

De acordo com Joan Faus, dirigente do portal de notícias El País, os esforços de mandar o homem à Lua exigiram do governo dos Estados Unidos investimentos da ordem de US$ 23,6 bilhões entre os anos de 1959 a 1973. E desde 1972, os norte-americanos cancelaram as viagens tripuladas à Lua. Só atualmente manifestaram planos de retomar a aventura, desta vez com destino ao planeta Marte.

E justamente o custo foi um dos fatores que levaram à paralisação das viagens tripuladas ao espaço, como avalia a professora da Escola de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas em São Paulo (FGV/SP). Paula Vedoveli. Outros fatores foram o desinteresse do público, falta de benefícios imediatos e mudança de foco na estratégia espacial. E era uma época em que os EUA estavam envolvidos na longa e dispendiosa guerra no Vietnã, nos problemas econômicos com a alta da inflação e na queda da produção de petróleo.

Leia mais  Ligações indesejadas

 

O fato é que os desafios econômicos e de relações internacionais continuam gravíssimos na atual conjuntura global. E agora ainda coincidem com novos projetos espaciais conduzidos por EUA, Rússia, China, Japão. Frente aos problemas na Terra, a controvérsia continua aberta quanto à viabilidade do investimento de bilhões de dólares no espaço ao mesmo tempo em que aqui na Terra os problemas que castigam os povos continuam a exigir recursos gigantescos. E muitos estão longe da solução.

Inegável também é o fato de a Terra oferecer oportunidades e diversificações para o campo do desenvolvimento científico. Basta citar a projeção de Albert Einstein no contexto científico. Basta comparar as condições em que a humanidade vivia há 100 anos e como os avanços do conhecimento melhoraram a vida. O homem descobriu curas para muitas doenças, desenvolveu a indústria automobilística e conseguiu avanços tão extraordinários que culminaram na revolução da internet.
E, contraditoriamente, pessoas ainda morrem de fome e de sarampo, matam e morrem em guerras e na violência urbana e rural, lutam por emprego e dignidade. Diante desse cenário, o que pode

parecer uma escolha de Sofia é um desafio que exige ser conduzido com sabedoria: o certo é investir bilhões em viagens espaciais ou priorizar a canalização de recursos para enfrentar os problemas terrenos?

Valem as perguntas, mesmo que as respostas não estejam prontas justamente porque fazem parte das decisões e dos rumos a serem tomados pelos governos que lideram as corridas espaciais e as influências internacionais.

Comentários