Editorial

Janela para o mundo

Grupo de funcionários da unidade de saúde criou um curso de alfabetização de adultos

Reportagem publicada por este jornal na edição do último domingo mostrou um trabalho voluntário importante que vem sendo realizado na Unidade Básica de Saúde do Parque Vitória Régia, na zona norte da cidade, região que mais cresce na cidade e que concentra um grande número de migrantes entre seus moradores. Inicialmente, agentes comunitários de saúde que trabalham naquela unidade resolveram criar uma biblioteca comunitária com livros doados para atender aquela comunidade. Chegaram a formar uma pequena biblioteca circulante com um acervo composto por 700 livros que passaram a emprestar às pessoas que se dirigiam ao posto. O fato de moradores que se interessavam pelos livros serem analfabetos, levou o mesmo grupo de funcionários a criar um curso de alfabetização de adultos que funciona semanalmente na parte externa da unidade de saúde, também mantido por trabalho voluntário.

O Brasil, apesar de todas as campanhas já realizadas nas últimas décadas, tem um número impressionante de analfabetos. Segundo o último levantamento divulgado pelo IBGE por meio da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad 2017), o País tem pelo menos 11,5 milhões de pessoas com mais de 15 anos analfabetas, ou seja, 7% da população nessa faixa etária. A mesma pesquisa indica que três em cada dez jovens e adultos na faixa dos 15 aos 64 anos — o equivalente a 38 milhões de pessoas — são analfabetos funcionais, ou seja, pessoas que têm muita dificuldade em entender e se expressar por meio de letras e números em situações do dia a dia. Há dez anos a taxa de brasileiros nessa situação está estagnada, como mostram as pesquisas. E essa situação revela que o Brasil, provavelmente, não conseguirá cumprir uma das metas do Plano Nacional de Educação (PNE) que é erradicar o analfabetismo até 2024.

Dentro desse contexto, a criação por voluntários de uma pequena biblioteca e de um curso de alfabetização tem um valor incomensurável, se não pelos resultados, ao menos pelo exemplo. Ensinar as pessoas a dominar o alfabeto, entender o que está escrito em um cartaz e conseguir identificar o ônibus pelos letreiros, muda a vida das pessoas. Incentivá-las a ler, principalmente livros, é um ato de cidadania.

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Sorocaba tem boas experiências com bibliotecas comunitárias. A Biblioteca Comunitária do Parque das Laranjeiras foi fundada há uma década, aproximadamente, e conseguiu reunir perto de 3 mil livros, graças ao trabalho de voluntários e à colaboração de comerciantes do bairro. Há dois anos, quando a biblioteca comemorava sete anos, oferecia, além dos livros, acesso à internet e uma série de atividades culturais gratuitas como cursos de fotografia, pintura e violão. Na época, cerca de 30 pessoas procuravam diariamente a biblioteca para emprestar livros ou pesquisar na internet. O Jardim Maria Eugênia, também na zona norte, foi outra comunidade que criou sua biblioteca comunitária, que chegou a funcionar em sala cedida pelo Centro Esportivo do bairro.

As bibliotecas comunitárias, que em geral surgem nas comunidades devido a ausência de políticas públicas nesse setor, criam espaços mais democráticos de acesso à cultura e ao conhecimento, mas também se transformam em locais de convívio e troca de experiências. Em reportagem publicada pelo Cruzeiro do Sul no mês de abril, o destaque foi a experiência da biblioteca comunitária de Parelheiros, na periferia de São Paulo, que foi tema do 2º Seminário Internacional Arte, Palavra e Leitura, promovido pelo Sesc Pinheiros. A biblioteca de Parelheiros também começou em uma UBS que estava abandonada e mais tarde mudou para um cemitério, uma ação que contou com o apoio do Instituto Brasileiro de Estudo e Apoio Comunitário (Ibeac). Em uma comunidade extremamente vulnerável, a biblioteca propiciou que três jovens concluíssem a faculdade e que outros 14 ingressassem no ensino superior. Além disso, a biblioteca tornou-se um ponto de encontro e local para a discussão de diversas questões. Uma pesquisadora dessa iniciativa, que utilizou as informações em teses de mestrado e doutorado, identificou que numa comunidade onde os jovens não tinham perspectiva de um futuro diferente, não se viam com a possibilidade de concluir os estudos ou fazer uma faculdade, a biblioteca comunitária fez toda a diferença. Que o exemplo dos funcionários da UBS do Parque Vitória Régia frutifique e possamos registrar o surgimento de novas iniciativas como essa.

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