Editorial

Do estresse à solidariedade

Um período difícil em que cada um, ainda que metaforicamente, deve estender os braços para ajudar a quem precisa de mais

A pandemia de coronavírus — basicamente o único tema de conversas entre as pessoas nos últimos dias — tem todos os componentes para deixar a população com os nervos à flor da pele.

A doença é traiçoeira, pois pode ser transmitida mesmo antes de se manifestar em um infectado, o que traz muita insegurança a qualquer pessoa, principalmente se ela pertencer a grupos de risco.

Mesmo assim, ainda é possível ver pessoas tossindo sem tampar a boca em locais públicos ou que espirram sem o menor cuidado. Mas não é apenas a falta de civilidade de algumas pessoas que causam profunda irritação nos cidadãos.

Em momentos de crise, muitos seres humanos revelam o que têm de pior, de mais egoísta, muitas vezes sem se dar conta disso. É o caso daqueles que esvaziam as gôndolas dos supermercados, não dando chance a outros compradores, como se somente a sua sobrevivência e de sua família fossem importantes.

Essa compra desnecessária de produtos está atrapalhando o sistema de reposição dos fornecedores, o que poderá provocar desabastecimento pontual de alguns deles, informa a entidade que reúne donos de supermercados e apela para que as pessoas pratiquem o consumo consciente.

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Muita gente está revoltada com o comportamento de alguns comerciantes que, diante da grande procura por produtos específicos para se defender da Covid-19, estão cobrando preços extorsivos pelas máscaras cirúrgicas, indicadas para pessoas gripadas ou com suspeita da doença, luvas cirúrgicas e o indispensável álcool em gel, uma arma importante para desinfetar mãos e ambientes.

Sorocaba teve até um caso absurdo em tempos de epidemia: a Santa Casa de Misericórdia, um dos hospitais mais importantes da cidade, registrou o furto de pelo menos 30 litros de álcool em gel em dois dias.

O furto acontece justamente quando ocorre desabastecimento desse produto. O material foi furtado nos corredores e quartos do hospital, onde estavam à disposição dos pacientes e funcionários. Esse produto junto com as máscaras descartáveis foram os que mais desapareceram das prateleiras de farmácias e supermercados nos últimos dias.

Uma pesquisa realizada pela reportagem do Cruzeiro do Sul mostrou que mesmo na internet são encontradas grandes diferenças de preços que podem chegar a 400% a mais do que custavam antes da pandemia.

Mas por outro lado, estão surgindo — e a cada dia com mais frequência — gestos de solidariedade e gentileza, principalmente para com as pessoas que pertencem aos grupos de risco.

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Em meio ao aumento abusivo do preço do álcool desinfetante, o proprietário de um minimercado do bairro Rio Acima, em Votorantim, que entre quinta e sexta-feira, doou frascos de álcool gel para aproximadamente 500 pessoas.

O gesto foi desencadeado pelo aumento absurdo cobrado pelo fornecedor do produto. Entre mais que duplicar o preço no varejo, se fosse seguir o preço do fornecedor, ele resolveu distribuir o produto de graça.

Teve grande repercussão também o caso noticiado por este jornal em que uma professora montou uma série de atividades transmitidas pela internet para atender as crianças que ficarão sem aulas. São atividades básicas e divertidas para que as crianças não fiquem paradas nesse período.

Pequenos gestos de solidariedade também têm se espalhado por todo o País. Moradores de prédios de apartamentos têm criado grupos que se encarregam de fazer compras em supermercados e farmácias para as pessoas acima de 60 anos ou adoentadas, que fazem parte do grupo de risco.

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Há ainda um movimento nacional, difundido principalmente pelas redes sociais, que incentiva as pessoas a fazerem compras no comércio de bairro, nas pequenas lojas e nos bares e lanchonetes de pequeno porte, pois esses comerciantes são os mais vulneráveis com a queda das vendas provocadas pelo isolamento social.

Há também um movimento no sentido de pagar prestadores de serviços, mesmo que não estejam trabalhando. É o caso das diaristas, faxineiras, manicures, cabeleireiras, pessoas que normalmente trabalham na informalidade e não têm qualquer amparo social.

Dependem exclusivamente pelo que recebem pelo seu trabalho. Os organizadores desse movimento afirmam que se trata de um pequeno gesto de retribuição pelos serviços prestados.

Dessa maneira, estão surgindo iniciativas, exemplos de gentileza que ajudam os que mais precisam a atravessar este período difícil. Que mais gestos como esses apareçam. Nunca a solidariedade foi tão necessária.

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