Editorial

Descuido perigoso

Doenças que são evitáveis com vacina ou com o uso de preservativos não podem voltar a assustar a população

Num momento em que a ciência e os médicos discutem a telemedicina, a saúde digital e inteligência artificial na prática da medicina, o que parecia tão distante de se atingir há alguns anos, os brasileiros ainda convivem com doenças que já não ouvíamos mais falar em registros de casos. Ou aquelas doenças que tiveram um controle efetivo, reduzindo as perdas de vidas, como a aids. Esse paradoxo tem explicação, mas é difícil de se aceitar. O sarampo voltou no Brasil e atingiu também Sorocaba. Boletim divulgado nesta terça-feira apontou um total de 24 casos no ano, sendo cinco novos apenas em uma semana. Esta é uma doença que pode ser evitada por meio de vacina, mas voltou a ser problema sério de saúde pública. Sem o registro de casos por anos — o último havia sido em 1999, há 20 anos, portanto — isso acabou gerando descuido com a caderneta de vacinação por parte dos pais e a doença retornou com a mesma força de contágio de décadas passadas. Uma pessoa com sarampo pode passar a doença para mais de 10.

Na edição de sexta-feira (30), o Cruzeiro do Sul noticiou que o número de casos de HIV em Votorantim, apenas no período de janeiro a agosto deste ano, passou o total do ano passado inteiro. Foram 38 em oito meses e em 2018, os registros totalizaram 37 num período de 12 meses. HIV é a sigla em inglês para o vírus da imunodeficiência humana, causador da aids — outra sigla em inglês para síndrome na imunodeficiência adquirida. Uma síndrome que provocou muitas mortes entre as décadas de 70 e 80 do século passado. Foram perdidas vidas de talentos ainda jovens da música, cinema, televisão, entre outros. Essa lembrança é importante de ser considerada para que não haja um novo descuido e a aids volte a fazer vítimas, tirando vidas, principalmente de jovens.

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Não são todos os casos de HIV positivo que resultam em aids, que não tem cura, mas tem tratamento eficaz e na rede pública. Os portadores do vírus podem transmiti-los mesmo que não tenham qualquer sintoma. O crescimento dos números em Votorantim mostram exatamente essa presença do vírus entre as pessoas de diferentes faixas etárias. Vale considerar que a forma mais comum de transmissão é a relação sexual desprotegida. Ou seja, os números de Votorantim demonstram que está havendo negligência no uso de preservativos, o meio mais simples de evitar a contaminação por essa que é uma das Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST). Além disso, são os homens os mais infectados e a maioria na faixa etária de 30 a 39 anos.

Já em Sorocaba, até dia 23 de agosto, foram registrados 125 casos de HIV positivo, um pequeno aumento em relação aos 124 casos registrados de janeiro a agosto do ano passado — em 2018 inteiro foram 184. O número de 2019 corresponde a um caso confirmado pelos testes da presença de HIV a cada dois dias, conforme dados da Secretaria da Saúde. E também foram os homens a maioria dos infectados e na faixa etária de 30 a 39 anos.

Tanto a Prefeitura de Votorantim, por meio da Secretaria da Saúde, como a de Sorocaba, informa que promovem campanhas de prevenção, além de ações específicas no Carnaval e em dezembro — o dia 1º daquele mês foi instituído como o Dia Mundial de Combate à Aids. Mas o fato é que os números de Sorocaba e, principalmente de Votorantim, se tornaram preocupantes. Numa época em que as informações são armas para evitar doenças, por alguma razão isso não vem ocorrendo como se espera ou como deveria ser.

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Falta uma ação bem mais efetiva do poder público para transmitir informações da importância da prevenção. Doenças que são evitáveis com vacina ou com o uso de preservativos não podem voltar a assustar as populações de cidades como Sorocaba e Votorantim. As secretarias de Saúde das duas cidades precisam estudar novas formas de agir para que não haja esse relaxamento tão perigoso à população quando se trata de saúde.

No caso do sarampo, moradores das duas cidades não podem ir a uma unidade básica de saúde e não encontrar a vacina para imunização. E no caso das Doenças Sexualmente Transmissíveis, vale a insistência na oferta de informações aos jovens, em especial, e planos traçados para atender com o máximo possível de informações as faixas etárias mais atingidas ou, no caso do HIV, com um descuido maior na proteção. Com saúde não se brinca.

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