Editorial

Corrupção tipo exportação

O ex-presidente do Peru, Alan García, que comandou aquele país por dois mandatos (1985 a 1990 e de 2006 a 2011), disparou contra a própria cabeça na última quarta-feira quando policiais bateram à sua porta para prendê-lo por conta de denúncias de corrupção. Antes do ato extremo, que o levou à morte quando era atendido no setor de emergência de um hospital de Lima, ele havia tentado asilo político no Uruguai, mas não obteve êxito. Ao negar a solicitação, Tabaré Vásquez, presidente uruguaio, disse que não havia provas que respaldassem a alegação de García de que era perseguido politicamente pelo atual governo peruano.

García, entre outras irregularidades, era acusado de ter recebido 100 mil dólares da construtora brasileira Odebrecht, pagos em forma disfarçada, como cachê de uma conferência que teria dado em São Paulo em 2012. Um “modus operandi” de transferir propina conhecido pelos brasileiros e que já foi usado como pretexto para o pagamento de milhões de reais ao ex-presidente Lula por palestras que ninguém assistiu.

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A Odebrecht, que no Brasil foi protagonista do Petrolão – o maior escândalo de corrupção do Brasil descoberto até agora – e vem colaborando com a Operação Lava Jato, envolveu-se em escândalos em toda a América Latina. No Peru, a situação chega a ser curiosa, pois todos os ex-presidentes do país estão presos ou sob investigação por terem recebido propina. Dois ex-presidentes – Paulo Zucynski e Alberto Fujimori – estão presos. Este último condenado por crimes contra a humanidade durante seu governo de 1990 a 2000. Outros dois ex-presidentes, Alexandro Toledo (2001 a 2006) e Ollanta Humala (2011 a 2016), enfrentam investigações judiciais e também podem acabar atrás das grades. Ou seja, todos os ex-chefes de Estado que governaram o Peru após o fim do regime militar em 1980 enfrentam processos na Justiça. Três, além de Garcia, são acusados de receber propinas da Odebrecht. A própria empreiteira admitiu que pagou 29 milhões de dólares em propinas durante três governos peruanos e já assinou um acordo de cooperação com o qual concordou em pagar uma multa ao Estado peruano e fornecer informações que poderão comprometer ainda mais os ex-presidentes e outros políticos daquele país.

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A Odebrecht exportou seus serviços para 27 países. Construiu hidrelétricas no Panamá, linhas do metrô no Peru, rodovias na Argentina. Por trás do seu sucesso em exportar serviços, descobriu-se, estava sua eficiência em distribuir propinas, utilizando métodos testados com muito êxito no Brasil durante certo período. De acordo com o Departamento de Justiça dos Estados Unidos, a empreiteira pagou propinas milionárias para políticos, partidos e funcionários públicos de pelo menos 27 países. A empresa teria desembolsado, para garantir sucesso nas concorrências, uma quantia que pode chegar a 800 milhões de dólares.

Ao mesmo tempo em que expandia seus negócios para outros países, a Odebrecht seguia comprometendo biografias de políticos. Na Argentina, há suspeita de que propinas teriam sido entregues ao governo da ex-presidente Cristina Kirchner; na Venezuela teria dado 3 milhões de dólares para a campanha eleitoral de Hugo Chaves/Nicolás Maduro. O mesmo ocorreu no Panamá, Equador, Colômbia, República Dominicana, México e Guatemala. Os escândalos internacionais que começaram a ser descobertos a partir da Operação Lava Jato, no Brasil, principalmente após a prisão de Marcelo Odebrecht, presidente da empresa, já condenado pela Justiça brasileira. Em todos os países, a operação era semelhante, com a empreiteira utilizando esquema de offshores e empresas de fachada para fazer pagamentos das propinas. A empreiteira já admitiu seus crimes e aceitou pagar uma multa de 3,5 bilhões de dólares, a maior penalidade já paga até hoje em acordos de leniência envolvendo corrupção.

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Depois de espalhar corrupção, os escândalos da Odebrecht começam a espalhar mortes pelo continente, no momento em que a Justiça de vários países corre atrás dos envolvidos. Além do ex-presidente Alan Garcia, duas testemunhas das falcatruas, um auditor e um ex-secretário nacional da Colômbia, morreram em situações suspeitas e o filho de um deles morreu envenenado. Os processos avançam em muitos países e é grande o número de políticos latino-americanos que ainda podem ser presos. Se optarem por dar fim à vida para evitar a cadeia, teremos suicídios em série.

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