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Editorial

Consumo precoce

Com uma frequência cada vez maior recebemos notícias sobre jovens e adolescentes que morrem ou precisam de cuidados médicos urgentes após ingestão de drogas ou bebidas alcoólicas. No início do feriado prolongado de 9 de Julho, este jornal publicou a notícia de que uma adolescente de 15 anos, moradora do ABC paulista, supostamente morreu após passar mal por conta da ingestão de bebidas alcoólicas. A jovem fazia parte de um grupo de 11 pessoas que participava de uma confraternização em uma chácara de Araçoiaba da Serra, uma reunião típica de amigos durante um feriado prolongado. É evidente que é prematuro dizer que ela morreu por excesso de álcool ou outras substâncias, mesmo porque o caso ainda deverá ser investigado pela autoridade policial. O que se sabe é que pessoas que participavam da confraternização encontraram a moça desmaiada e a levaram até um Pronto-Socorro, mas ela chegou sem vida ao hospital, o que foi constatado por uma equipe da Polícia Militar que foi acionada para atender a ocorrência.

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Pessoas do grupo disseram na delegacia de Araçoiaba da Serra, onde o caso foi registrado, que a jovem havia se queixado de dores durante a noite que antecedeu sua morte. Outra testemunha, que se identificou como amiga da vítima, informou que a jovem tinha problemas de saúde e há alguns dias estava sem medicamentos. Disse que ela era diabética e necessitava de insulina. Mesmo assim, teria ingerido bebidas alcoólicas, o que teria provocado sua morte. O Conselho Tutelar, que foi acionado para acompanhar a ocorrência, localizou outra adolescente de 16 anos no grupo que por estar desacompanhada dos pais ou responsáveis, foi levada a um abrigo provisório.

Situações como essa, em que adolescentes se juntam a grupos de jovens com pouco mais de idade para se divertir em chácaras ou casas de praia, é comum a ingestão de muita bebida alcoólica. Muitas vezes os pais são levados a autorizar tais viagens, pois são levados a acreditar que adultos e responsáveis fazem parte do grupo e controlarão os jovens e adolescentes. Geralmente não é o que acontece. Em tais encontros de confraternização, além de eventual presença de drogas, há sempre bebidas alcoólicas. O álcool, em qualquer quantidade, é uma substância tóxica e que o metabolismo de pessoas mais jovens podem potencializar os seus efeitos. E as bebidas alcoólicas têm, infelizmente, um salvo-conduto em muitos lares, onde são consumidos como se fossem produtos inofensivos e são acessíveis a jovens e adolescentes. Muitos pais ficariam chocadíssimos se soubessem que seus filhos usaram maconha ou ecstasy, mas não teriam maior reação ao descobrir que seus filhos estão usando álcool regularmente. Embora possa ser usado socialmente como um produto recreativo, oferece o mesmo perigo que drogas cujo consumo é proibido por lei. E aí está o grande perigo.

Autoridades da área da saúde já manifestaram preocupação com a mudança do padrão de consumo de bebidas alcoólicas entre adolescentes. Em recente entrevista, o médico psiquiatra Ronaldo Ramos Laranjeira, especialista em dependência química, diz que estudos considerando a população adulta mostram que 30% dos homens e 50% das mulheres não bebem nada. Entre os adolescentes, essa diferença desapareceu em uma geração. Independente do sexo, 25% dos adolescentes bebem em quantidades perigosas do ponto de vista biológico.

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Os exemplos, bons ou maus, como se diz, vêm de cima. A instituição da Lei Seca no Brasil, para evitar que motoristas alcoolizados dirijam, completou recentemente dez anos. As multas foram ficando mais severas e mais caras, há risco real de perda da CNH e até de prisão, mas mesmo assim muitos insistem em dirigir depois de beber. Na noite da última sexta-feira, véspera do feriado prolongado em que a adolescente morreu, a polícia realizou uma blitz nas avenidas Washington Luiz e Dom Aguirre, em Sorocaba, e fiscalizou exatos 197 veículos. Nada menos que 30 motoristas foram autuados. Ou seja, se nem a legislação rigorosa inibe adultos de arriscar suas vidas ao volante depois beber, o que dizer de adolescentes que, em grupos, buscam experiências novas e tentam mostrar que já são adultos?

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