Editorial

Cicatrizes da industrialização



Na última terça-feira, o jornal Cruzeiro do Sul noticiou que irá a leilão a fábrica desativada no bairro Alto da Boa Vista e que já foi conhecida pela população, dependendo da época, como Saira, fábrica da Drury’s e, mais recentemente, fábrica do Campari. A indústria, que décadas passadas produziu bebidas consumidas em todo o país — como várias marcas de uísque, conhaques e vermutes — deixou de funcionar no mês de julho do ano passado, quando foram demitidos ou transferidos seus últimos 120 funcionários. O fim da produção industrial e agora o leilão do prédio marcam o fim de uma era em que a cidade produzia e vendia para o restante do país bebidas bastante conhecidas e arrecadava um bom volume de impostos nesse segmento da economia. A empresa transferiu sua produção para o Estado de Pernambuco, instalou-se em região portuária, o que facilita o comércio exterior. Possivelmente foi atraída por incentivos fiscais e mão de obra mais barata.

A área industrial que vai a leilão tem mais de 200 mil metros quadrados, com 50 mil metros de área construída em região nobre, junto a vários condomínios e próxima ao novo centro administrativo de Sorocaba e à saída da cidade. Essas qualidades devem facilitar sua venda para aproveitamento comercial e dificilmente se transformará em outro galpão industrial abandonado, igual a tantos existentes no município.

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A industrialização precoce de Sorocaba, que passou a se dedicar à fabricação de tecidos ainda no século 19, deixou marcas na cidade, instalações gigantescas que já deram emprego a milhares de trabalhadores. A maioria das grandes indústrias do setor têxtil, por exemplo, foi extinta. Algumas das fábricas tiveram suas instalações restauradas e reaproveitadas. É o caso da Fábrica Santa Rosália que hoje abriga um hipermercado e as pioneiras tecelagens Nossa Senhora do Carmo e Santo Antônio, na região central, que foram transformadas em um shopping center. O antigo Packing House, que serviu de entreposto para exportação de laranjas da região de Sorocaba na década de 30 do século passado, é outro exemplo digno de nota. Depois de ficar um longo tempo abandonado, o local foi recuperado pelo governo estadual e se transformou em escritório de repartições públicas e de empresas ligadas à Secretaria do Meio Ambiente.

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Outros prédios industriais não tiveram a mesma sorte, como é o caso da antiga Fábrica de Tecidos Santa Maria, na Vila Hortência, que foi demolida de uma hora para outra, apesar de seu interesse histórico. Assim como desapareceram da cena urbana inúmeras instalações de pequeno e médio porte e que fizeram parte da história dos primeiros anos da industrialização do município. Mas se prédios que abrigaram pequenas e médias indústrias desapareceram, restaram à cidade ainda grandes instalações industriais que esperam uma melhor destinação. É o caso, por exemplo, das antigas oficinas da Estrada de Ferro Sorocabana que ocupam milhares de metros quadrados em região central. O complexo de oficinas da ferrovia, que se transformou em um dos maiores polos ferroviários da América Latina no início dos anos 1930, pertence à União e hoje está totalmente abandonado. A área e as construções foram tombadas pelo ex-prefeito Antonio Carlos Pannunzio (PSDB) em 2016 pelo seu valor histórico e arquitetônico. Uma parte dos prédios foi passada pelo governo federal para o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo (IFSP) para que instale o seu câmpus, mas o alto custo da restauração dos imóveis ainda não permitiu que a entidade ocupasse os imóveis. Outra área industrial de grandes dimensões é a antiga Fábrica São Paulo, da Companhia Nacional de Estamparia. O prédio e a área em seu entorno também estão abandonados esperando um melhor aproveitamento. O mesmo acontece com a metalúrgica Villares, antiga Siderúrgica Nossa Senhora Aparecida, que já foi uma das maiores empresas do município e que encerrou as atividades. O prefeito José Crespo (DEM) já divulgou em mais de uma

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ocasião que pretende transformar parte da área em uma estação intermodal do transporte coletivo, aproveitando sua proximidade com a ferrovia.
Essas são apenas algumas áreas de grande porte e localização privilegiada existentes no município. Algumas têm interesse histórico ou arquitetônico, caso das antigas oficinas da Fepasa. Outras, há muito descaracterizadas, são apenas áreas ociosas e bem localizadas que precisam ter melhor aproveitamento em benefício da coletividade.

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