Editorial

Aulas na telinha

Uma tecnologia importantíssima, muito útil como estamos vendo agora e vai inclusive derrubar alguns preconceitos

Os estudantes brasileiros tiveram sua rotina de aprendizado seriamente comprometida com a chegada da epidemia de coronavírus.

Para manter o distanciamento social e evitar o contágio em massa de crianças, jovens e adolescentes, em todo o mundo as aulas foram suspensas.

Os alunos da rede pública, num primeiro momento, tiveram férias antecipadas e depois um período de recesso escolar.

Ocorre que se nada for feito, o prejuízo no aprendizado será enorme, uma vez que as aulas presenciais, segundo divulgou o governo estadual, deverão começar de forma gradual a partir do mês de julho.

Para contornar essa situação, a rede estadual de ensino, a que reúne o maior número de estudantes, adotou desde ontem o ensino a distância para seus milhares de alunos.

A situação é inusitada e crítica, o que levou o Conselho Nacional de Educação (CNE) a se programar para esta terça-feira, em plenário virtual, uma reunião para criar as diretrizes que irão orientar as escolas de todo o País sobre a maneira de como conduzir o ensino diante da pandemia do novo coronavírus.

O documento a ser elaborado dará orientações e sugestões para o ensino superior e para o ensino básico, desde a educação infantil até o ensino médio.

Nas escolas particulares, geralmente mais equipadas tecnologicamente e com uma clientela com maiores recursos, as aulas e orientações pedagógicas pela internet acontecem há bastante tempo.

Em muitas instituições, o uso desse tipo de tecnologia já foi incorporado aos hábitos de professores e alunos. Não é o que acontece com a rede pública de ensino que é gigantesca e atende milhares de estudantes de todas as camadas sociais.

Há uma semana professores da rede passaram por treinamento para se familiarizar com as novas plataformas. Com isso, somente em Sorocaba mais de 54 mil alunos terão acesso a aulas ao vivo, videoaulas e outros conteúdos pedagógicos durante o período de quarentena.

Um sistema de login, para identificação dos alunos, irá monitorar a presença dos estudantes. As aulas estarão disponíveis em aplicativos que podem ser baixados nos smartphones.

De acordo com a Secretaria de Educação, duas plataformas estão disponíveis para os alunos, o Centro de Mídias da Educação de SP, com conteúdo de várias disciplinas e o CMSP Educação Infantil e Anos Iniciais, com material exclusivo para essas etapas de ensino.

Mesmo com esse trabalho da Secretaria da Educação, é possível prever alguns problemas para que as aulas pela internet cheguem a todos os estudantes.

Como se sabe, colocar à disposição material que pode ser baixado pelos sistemas Android e IOS não atinge todos os estudantes pelo simples fato de que nem todos têm acesso a smartphones. Foi criada então a opção de acesso ao conteúdo pela televisão.

A TV Cultura, que pertence ao governo estadual, se responsabilizou pela transmissão de aulas por meio de dois canais digitais (TV Educação e TV Univesp) para atingir esses alunos.

Resta saber se os estudantes mais carentes, que terão acesso somente ao material pela TV, receberão orientações precisas para saber horários e programas indicados para a sua série. Monitorar a presença desses estudantes também será outro problema que precisará ser resolvido.

Para compensar eventuais falhas no ensino eletrônico, as escolas da rede estadual começam também a distribuir kits com material impresso com apostilas de matemática e língua portuguesa, além de gibis, livros paradidáticos e até um manual de orientação às famílias.

Esse material será distribuído aos alunos de forma escalonada para evitar aglomerações. Parece que pelo ineditismo do uso de tecnologia na rede pública, o manual de orientação aos pais é muito importante, pois caberá a eles acompanhar o trabalho dos filhos, incentivar a criação de uma nova rotina de estudos e estreitar as relações com a escola, mesmo que a distância.

A pandemia, entre tantas mudanças de comportamento, vai mudar a forma como vemos a educação e o uso da internet no ensino será incorporado aos novos padrões educacionais daqui para a gente, mesmo após o fim da pandemia.

Aulas pela internet, antes privilégio de alguns cursos a distância, inclusive universitários, deverão ser incorporados às redes estaduais e municipais de ensino.

Uma tecnologia importantíssima, muito útil como estamos vendo agora e vai inclusive derrubar alguns preconceitos. Mas a maior barreira para a universalização dessas práticas de ensino continuará sendo a enorme desigualdade social do País, que impede que todos os estudantes tenham acesso a computadores e telefones inteligentes, essenciais para essa nova modalidade de ensino.

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