Editorial

Atenção para a faixa

Para que a população seja realmente beneficiada pela nova sinalização horizontal é preciso investir em educação de trânsito

Nos últimos meses, com o objetivo de diminuir os atropelamentos na cidade, a Urbes – Trânsito e Transportes vem aumentando o número de faixas de pedestres na cidade em suas diversas modalidades. Avenidas importantes como a General Carneiro e Itavuvu, assim como ruas do Centro, como a Cesário Mota, ganharam novas faixas de travessia de pedestres. Com isso, segundo a empresa pública, a cidade passou a contar com 60 travessias do tipo Faixa Viva, aquelas pintadas em vermelho e branco; 214 faixas elevadas (também em vermelho e branco, mas elevadas) além das faixas comuns de pedestres (somente em branco).

A medida da empresa responsável pelo trânsito e transporte coletivo da cidade está sendo tomada em um momento em que se registra grande número de atropelamentos. Houve inclusive aumento de 8,33% nas mortes por atropelamento em Sorocaba em 2018 em comparação com 2017, conforme dados da própria Urbes. Este ano, já foram registrados, nos primeiros dois meses do ano, 26 atropelamentos, felizmente sem mortes.

A Urbes esclarece que as Faixas Vivas e as faixas elevadas, também conhecidas como lombofaixas ou lombotravessias, são instaladas para mostrar ao pedestre que, naquele espaço, ele tem prioridade para atravessar a via. As Faixas Vivas começaram a ser instaladas a partir de setembro de 2015. Elas estão amparadas em lei municipal de 2013 que tem como objetivo conscientizar os motoristas da preferência do pedestre também nessas faixas onde não há semáforos, conforme determina o Código de Trânsito Brasileiro.

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Essas iniciativas são elogiáveis e têm claro objetivo de proteger os pedestres ao cruzar ruas e avenidas. Mas há um detalhe que impede sua funcionalidade no curto prazo: faltou “combinar com os russos”, como diz o ditado popular. Se a empresa pública fizer uma pesquisa séria, com um número aceitável de entrevistas, vai descobrir que poucos motoristas sabem identificar a diferença entre uma Faixa Viva, uma lombotravessia e uma faixa de pedestres comum. Boa parte dos motoristas foi aprovada no exame teórico e prático para conseguir sua Carteira Nacional de Habilitação em uma época que esses recursos de sinalização mais modernos não existiam. Como mostrou a reportagem do Cruzeiro do Sul do último dia 18, nem todos param para dar passagem a pedestres que tentam atravessar a rua. Ocorrem casos extremamente perigosos em que o veículo de uma pista para, mas o da faixa ao lado avança, o que pode causar acidentes. A grande maioria dos pedestres também não tem educação de trânsito suficiente. Basta ver o número de pessoas que cruza vias movimentadas fora da faixa. É comum em avenidas onde existem até grades nos canteiros centrais, ver pessoas pulando a grade e arriscando a vida para cortar caminho. Criou-se até uma multa para pedestres, mas por conta de sua difícil execução nenhum pedestre foi multado até hoje.

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A sinalização às vezes também atrapalha. Na rua 7 de Setembro esquina com rua Coronel Benedito Pires existe uma lombofaixa junto a um semáforo, inclusive para pedestres. Os motoristas, evidentemente, prestam atenção no semáforo, enquanto alguns pedestres tentam atravessar mesmo com o sinal aberto por conta do tipo de faixa.

Para que a população — aí incluídos motoristas, motociclistas, pedestres e até os que se usam bicicletas para sua locomoção — seja realmente beneficiada pela nova sinalização horizontal é preciso investir em educação de trânsito. É preciso que a Urbes encabece um trabalho que envolva noções de trânsito e de sinalização a partir das pré-escolas, seguindo nos ciclos posteriores. Trabalho semelhante foi feito anos atrás sobre a necessidade do uso do cinto de segurança e hoje ele é quase uma unanimidade. Também é preciso reforçar esses conceitos nas autoescolas, para que o motorista recém-habilitado saiba exatamente quais são os direitos dos pedestres e os deveres dos motoristas. Campanhas de esclarecimento também são um bom caminho para popularizar a utilidade das faixas. E há ainda a necessidade de fiscalização rigorosa por parte dos agentes de trânsito. Parar para o pedestre passar por uma Faixa Viva não é um ato de bondade do motorista. É um direito do cidadão que está tentando atravessar uma via no local correto, reservado para ele pela legislação de trânsito. Aqueles que conduzem motocicletas ou bicicletas têm de saber que as leis de trânsito e as sinalizações, incluindo os semáforos, também foram feitas para eles. Com motoristas e pedestres mais esclarecidos sobre a importância dos diversos tipos de faixas de pedestres, será mais fácil diminuir os atropelamentos e tornar o trânsito mais civilizado.

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