Editorial

Aprendizado comprometido

O Brasil vai ter que encontrar num futuro próximo uma maneira de reparar os prejuízos causados pela pandemia na educação de jovens e crianças. Desde o início da quarentena, em meados de março, os estudantes das escolas de todos os níveis estão sem aulas presenciais. Escolas particulares, que têm tecnologia para isso e alunos acostumados ao acesso a material didático pela internet, rapidamente se adaptaram à nova situação e conseguem manter as aulas em um nível bastante razoável. O mesmo não se pode dizer das redes públicas de ensino.

Em Sorocaba, a rede municipal não adotou o sistema de aulas pela internet. Foram desenvolvidos vídeos educativos que são transmitidos pela TV Legislativa três dias por semana em dois horários. Nada que substitua as aulas presenciais para milhares de alunos. Já a Secretaria de Estado da Educação se propôs e está tentando aperfeiçoar um programa de aulas pela internet para seus 3,5 milhões de alunos. Está previsto ainda dentro desse projeto a distribuição de material impresso que pode ser retirado nas escolas. A intenção é a melhor possível, mas os resultados estão longe de ser os ideais e ao final deste ano, a maioria dos estudantes certamente terá falhas no aprendizado.

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São inúmeros os fatores que prejudicam o aprendizado on-line. O principal deles é de ordem prática: apesar de todos os avanços dos últimos anos, um em cada quatro brasileiros não tem acesso à internet segundo pesquisa divulgada ontem (26) pela TIC Domicílios, estudo que mede os hábitos e comportamento de usuários da internet no Brasil. Outra pesquisa, esta do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação, mostra ainda que 58% dos internautas brasileiros se conectam exclusivamente pelo celular. Em 2014, 80% dos usuários se conectavam por computadores, mas esse índice caiu para 42%. Os usuários das classes D e E se conectam quase que exclusivamente pelos telefones. Esse dado é importante, pois nem sempre os aparelhos permitem a realização de atividades mais sofisticadas. Os dados revelam ainda que somente 33% dos internautas realizam atividades profissionais pela rede, sempre com predominância das classes mais abastadas. A pesquisa mostra ainda que 60% da classe A usa a internet para estudos e somente 27% das classes D e E conseguem esse objetivo.

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Fica evidente, dessa maneira, que apesar de toda boa intenção, o ensino emergencial a distância não está conseguindo seus plenos objetivos. Inúmeras reportagens têm sido realizadas em diversos veículos de comunicação que mostram a situação complicada de muitas famílias. É importante lembrar que o governo paulista, para evitar maiores danos ao aprendizado, firmou contratos com as operadoras de telefonia que garantem acesso gratuito à internet. No Estado do Rio de Janeiro, quem não tem acesso à internet terá que se contentar com material impresso que deverá ser entregue em casa. Muitas vezes existe apenas um celular na residência e é utilizado para trabalho da mãe ou do chefe de família. Ou então existe apenas um computador e as aulas das várias crianças ocorrem no mesmo horário.

Além da exclusão digital que ocorre por conta do baixo poder aquisitivo de grande parte da população, há também a questão do preparo dos professores. Muitos deles nunca receberam qualquer tipo de orientação ou teve formação para ministrar aulas on-line. Uma pesquisa divulgada pelo jornal O Estado de São Paulo mostra que dois meses após a paralisação das aulas presenciais, 83% dos professores afirmam que ainda não estão preparados para ensinar on-line. A grande maioria dos docentes informa na pesquisa que nunca teve qualquer experiência com ensino a distância e pouco mais da metade diz que não recebeu, até agora, suporte ou treinamento para atuar de maneira não presencial. Sem orientação técnica, os profissionais têm criado suas próprias atividades pedagógicas, na base do improviso e da boa vontade. Muitos dizem usar aplicativos de mensagem para se comunicar com os alunos, e outros sequer conseguiram usar a plataforma criada pelo governo estadual para o ensino remoto durante a pandemia.

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Se não houver um programa que recupere o tempo perdido durante a quarentena, alunos da rede pública serão prejudicados, o que aumentará ainda mais a barreira entre escolas públicas e privadas e certamente contribuirá para a evasão escolar, principalmente entre alunos dos últimos anos do ensino fundamental e do ensino médio.

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