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A poluição que mata

14 de Setembro de 2019 às 00:01

Na mesma semana em que uma queimada se aproximou perigosamente de uma escola do Jardim Bonsucesso e levou vários alunos a receber atendimento médico por conta de inalação de fumaça, moradores do bairro do Éden e Iporanga 1 e 2 pedem providências urgentes às autoridades para uma situação perigosa que está acontecendo naquela região da cidade.

Os moradores e pessoas que trabalham naquela área reclamam -- e com razão -- de uma nova modalidade de procura de peças de chumbo pelos “garimpeiros” que, ignorando a proibição de cavar no terreno onde antes funcionou a empresa Saturnia, estão queimando baterias desenterradas para conseguir mais facilmente localizar peças desse metal, que tem bom preço no mercado de sucatas.

Além do mau cheiro exalado na queima, a fumaça tóxica é perigosa e estaria provocando crises de asma, irritação nos olhos e dores de cabeça em muitas pessoas. Reclamações já foram encaminhadas para a Prefeitura e vereadores, mas nada foi resolvido. Cansados de reclamar e não serem atendidos, os moradores estão organizando um abaixo-assinado que poderá ser protocolado tanto na Prefeitura como no Ministério Público.

O terreno onde funcionou a indústria de baterias Saturnia vem sendo escavado há bastante tempo por pessoas em busca de algumas peças de metal que possam ser vendidas. A Cetesb, tempos atrás, informou que todo o solo da empresa está contaminado e foi determinado pela Justiça que toda a área precisa passar por um processo de descontaminação, o que até agora não ocorreu.

Em artigo publicado no jornal Cruzeiro do Sul, o professor Sandro Donnini Mancini, da Unesp Sorocaba, que esteve no terreno para examinar a situação, constatou que a empresa quando ainda funcionava, criminosamente enterrou uma grande quantidade de material para livrar-se de resíduos incômodos, mas não houve qualquer preparo no solo. A empresa faliu em 2011 e desde então a água da chuva vem penetrando no solo e carregando para um lençol freático resíduos de chumbo e outras substâncias. Essa situação pode comprometer a qualidade da água subterrânea.

As pessoas que revolvem o solo em busca de metais não usam qualquer forma de proteção, muito menos aquelas que agora colocam fogo nas velhas baterias desenterradas. A queima dessas baterias liberam gases altamente tóxicos. Segundo declarações da professora Camila Augusta de Oliveira Martins Arakaki a este jornal, as baterias contêm chumbo, óxido de chumbo, sulfato de chumbo e plásticos, além de componentes ácidos.

Ela explica que a queima dessas baterias provoca muito mau cheiro e gera partículas que vão para o ar e que são prejudiciais à saúde, podendo causar problemas respiratórios. Também podem provocar chuva ácida. Quando inalado, o chumbo é absorvido pelos pulmões e atinge a corrente sanguínea e se aloja em diversos órgãos do corpo humano e pode levar, em casos extremos, a danos cerebrais e renais.

Além desse cemitério de baterias, os moradores dos bairros próximos à zona industrial e do Éden sofrem também com o problema das pás eólicas abandonadas em terrenos da região. Alguns desses depósitos irregulares já foram atingidos por queimadas, provocando grande poluição e pondo em risco a qualidade da água de córregos que alimentam a represa do Saae que abastece aquela parte da cidade.

Nos dois casos, houve autuação dos órgãos fiscalizadores. A Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Sema) multou a empresa que deposita pás eólicas e diz acompanhar de perto a questão da Saturnia. A Câmara de Vereadores criou uma Comissão Especial de Investigação para apurar denúncias de crime ambiental.

A Cetesb informa que voltou a vistoriar o local, constatou que a cerca que deveria isolar a área não funciona e agendou reunião para discutir com empresa contratada pela Câmara de Sorocaba para a descontaminação da área. A empresa estadual aplicou multa de R$ 530.500 na massa falida da empresa e exigirá do administrador providências para retirar resíduos de chumbo que ainda estão no terreno.

É evidente que essas medidas são somente protocolares, pois a empresa, falida desde 2011, não vai pagar um centavo de multa e nem vai descontaminar o terreno. Nos dois casos -- das baterias e das pás eólicas -- em que a saúde da população corre risco, cabem medidas mais duras que terminem com a limpeza total das áreas que oferecem risco e que os responsáveis dos dois casos sejam denunciados pelo Ministério Público. Multas e advertências não estão funcionando.