Editorial

A humanização é também do Executivo

O paciente não é um estranho. Não é um número ou um “caso”, é um ser humano que sofre. E só isso bastaria para repensar o tratamento

No velho Hospital Regional de Sorocaba, famoso pelo descaso com os pacientes, depois de dois meses de ter marcado sua consulta, a paciente Cristiane chega na hora para sua consulta com o reumatologista, passa pelo tal processo de acolhimento e naquele caos que nada acolhe descobre que perdera a consulta porque passou da hora marcada. A resposta burocrática dos burocratas de plantão, longe do fato e longe do caos da nova administração, diz que nada aconteceu de anormal e que no dia seguinte Cristiane será atendida (veja texto na página A7). Pouco importa de onde ela tenha vindo, quantos compromissos e cuidados tenha deixado, pouco importa sua dor. A responsabilidade pelo atraso que não foi dela acaba recaindo sobre ela.

No PA Laranjeiras, também em Sorocaba, num caso tumultuado e cheio de versões que poderá levar a vítima a ser a única culpada, a cidadã Célia passa por uma área que não tem vigilância e contrariada com o atraso no atendimento médico, segundo ela, abre a porta de um consultório e filma o local vazio, sem médico. Recebe um choque de um revólver de “taser”, uma arma de eletrochoque não-letal capaz de emitir uma descarga elétrica de alta tensão — acima de 3.000 volts — e baixa amperagem com o objetivo de provocar muita dor, tremedeira e imobilização e afastar o agressor. Esse aparelho que é usado também em prisões e em segurança industrial, lança duas pequenas pontas que furam a pele e musculatura da pessoa, dando um choque muito alto que joga a pessoa ao chão que, em alguns casos, pode bater gravemente a cabeça, convulsionar. Neste caso, o zeloso agente municipal da lei continuou em seu erro e errou, desta vez, a pontaria o que levou que a cidadã Célia, que procurou um Posto de Atendimento de Saúde Municipal para alguma questão de saúde, a levar meio choque e ter uma parte de seu corpo perfurada por apenas um objeto, que penetrante como um anzol, conforme descrito no vídeo do atendimento, fisgou suas carnes. Caída no chão, algumas pessoas não a atenderam prontamente. O guarda autor da façanha, que não estava em sua função de evitar a transposição do limite de entrada de pessoas, não foi solidário. Seu chefe na GCM não foi solidário à vítima. A secretária da Saúde não foi ver a vítima. O Poder Executivo de Sorocaba foi burocrata e fez uma reunião show no domingo com seus secretários. As conclusões da Corregedoria-Geral são genéricas. A senhora que levou um choque que poderia tê-la matado, dado por um despreparado para sua função, pode ela até ter passado do limite que se espera de um cidadão bem-comportado. Poderia até estar a serviço de causas outras — e se assim foi, foi bem-sucedida — contrária aos serviços públicos de saúde. Dos médicos que não aparecem, pouco se sabe, continuam sumidos.

Sabe-se sim, em ambos os casos, no viés estadual e local, que falta humanização. Falta tratar o ser humano como um ser similar, igual, como o Próximo, aquele da Bílbia. Parece um absurdo, mas há muito se fala em humanização da Medicina. Justo da Medicina a qual se recorre quando se está fraco, doente, sem esperanças.

O que se espera da Medicina? Esta deve ser a pergunta principal. Esperamos que os médicos nos livrem das dores, nos garantam viver mais. Esperamos receber nos hospitais o mesmo cuidado que temos em casa e não um distanciamento de burocratas e vigilantes com capacidade de ferir. Não um ambiente de tratamento de doenças, mas de cuidado de pessoas. Esperamos não ser transformados em números estatísticos de atrasos, de “leitos ocupados” ou equipamentos modernos. Desejamos a humanização da Medicina. E para tal médico, enfermagem e áreas afins precisam também estar felizes com a prática médica. Quase 80% dos médicos sofrem hoje da síndrome de “burnout”, queima, doença que em alguns casos pode até levar ao suicídio. Que política é essa que leva a esse “non-sense”?

O paciente não é um estranho. Não é um número ou um “caso”, é um ser humano que sofre. E só isso bastaria para repensar o tratamento. Quem pede ajuda já está se humilhando, não precisa de um sistema desumano para reforçar isso. Não precisa da insensibilidade dos governos para ensinar isso aos doentes. Estar doente hoje no Brasil, no SUS é se entregar à esperança do acaso. Do se: “se der sorte de” ter o medicamento, o especialista, o equipamento… se… se… A Saúde, diz a Constituição, que completa 30 anos hoje, é um direito.

E o Poder Executivo em todas as suas escalas, antes que uma tragédia maior aconteça, precisa cuidar do cidadão, cuidar do ser humano. Do ser humano.

Porque gado a gente marca, tange, ferra, engorda e mata. Mas com gente é diferente.

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