Editorial

A educação em debate

Reinventar, readequar, reajustar, reorganizar, remodelar… Em milênios de história, jamais a humanidade havia necessitado tanto — em tão curto espaço de tempo e em tal escala de abrangência — lançar mão de competências focadas exclusivamente em sobrevivência, adaptação e resiliência como neste sui generis 2020. Em menos de 300 dias, o combate à pandemia do novo coronavírus impôs suas próprias regras em todos os aspectos da vida, qualquer que seja o quadrante do planeta, colocando em xeque até mesmo estruturas e conceitos supostamente alicerçados. E esta pode ser, justamente, a perspectiva positiva pela qual o atual cenário pode ser vislumbrado. Em resumo: do caos global nasce a oportunidade de corrigir erros recorrentes — pontuais ou genéricos — e recomeçar a partir das experiências adquiridas.

Embora todos os setores da sociedade estejam sendo rediscutidos, visando amoldagens ao chamado novo normal, é no âmbito educacional que residem as maiores expectativas e estão concentradas as melhores esperanças de um mundo mais equânime em futuro não muito distante. O isolamento compulsório, destinado a refrear a disseminação da Covid-19, levou à adoção de sistemas alternativos de ensino/aprendizado, fundamentados, sobretudo, nas atividades realizadas à distância e compartilhadas virtualmente, via internet, entre educadores e alunos. De um momento para o outro, mais de 1,5 bilhão de alunos e 60,3 milhões de professores de 165 nações foram afetados pelo fechamento das escolas e obrigados a reaprender a estudar e a ensinar.

Alguns países compatibilizaram-se às alternativas sem muitos traumas. Outros, ao contrário, ainda têm um longo caminho para chegar lá. Enquanto cerca de 240 milhões de crianças e jovens chineses mostraram que é possível aprender fora das salas de aula, o Brasil continua contabilizando mais percalços do que vitórias nesta área. Utilizada pela primeira vez de forma extensiva em nosso País, a metodologia dita ensino a distância — o não tão jovem, mas ainda controverso EAD — teve o mérito de conseguir comprovar na prática os principais dilemas pedagógicos enfrentados no sistema presencial. Poucos meses foram suficientes para escancarar, por exemplo, o abismo gigantesco — há muito pressentido, mas sempre dissimulado — existente entre os sistemas públicos e privados da educação básica. Enquanto alunos de escolas particulares aprendem por meio de diversos recursos e estratégias combinadas, como vídeo ao vivo ou gravado, envio de tarefas, mentoria e sessões em grupos menores para tirar dúvidas, muitos estudantes das escolas públicas sequer têm acesso à internet.

O contraste real, lamentavelmente, segue muito além de questões conceituais, abrangendo, inclusive, requisitos básicos para a efetivação satisfatória do aprendizado. A imprensa constatou, entre outras coisas, que inúmeros municípios não possuem estrutura de tecnologia para oferta de ensino remoto e que nem todos os professores têm a formação adequada para dar aulas virtuais. Outro complicador à adesão de alunos às aulas on-line são os softwares utilizados para esse fim, que, em sua grande maioria, são desenvolvidos para funcionar em computadores — ambiente acessado atualmente por apenas 57% da população brasileira, segundo o IBGE. Muitos integrantes da chamada geração Z — nascidos entre 1995 e 2010 — nunca ligaram um computador e 97% dos brasileiros acessam a internet pelo celular.

A boa notícia é que os problemas da educação brasileira — sejam eles vivenciados no dia a dia das salas de aula ou exclusivos do ambiente virtual –, estão sendo, finalmente, retirados dos seus esconderijos, identificados e reconhecidos. O próximo passo, o amplo debate de causas, efeitos e soluções pela sociedade, também já está em andamento, pelo menos em Sorocaba. Um bom exemplo disso é o encontro Debates em Educação, iniciado na última quarta-feira (14) e com prosseguimento no próximo dia 21 de outubro. Idealizado pelo Conselho Municipal de Educação de Sorocaba (Cmeso), em parceria com a Fundação Ubaldino do Amaral (FUA), por meio do Centro de Educação Continuada e Aperfeiçoamento (Cecap), o evento tem a proposta de democratizar a discussão, estendendo-a a toda a população, por meio das redes sociais. Aos educadores, alunos, pais, políticos, empresários e formadores de opinião, cabe aproveitar a oportunidade, seja expondo as suas dúvidas, apontando demandas ou apresentando sugestões. Juntos, podemos, realmente, aproveitar o momento e mudar o futuro por meio da educação.

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