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Editorial

Vagas desperdiçadas

02 de Novembro de 2026 às 20:09
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A saúde pública enfrenta desafios que não dependem exclusivamente da quantidade de médicos, da disponibilidade de equipamentos ou da capacidade de atendimento das unidades. Em muitos casos, uma parcela do problema está relacionada ao comportamento dos próprios usuários. As faltas injustificadas a consultas e exames agendados representam um desperdício de recursos, comprometem a organização dos serviços e, sobretudo, retiram de outras pessoas a possibilidade de receber atendimento no momento em que precisam.

O assunto merece atenção em Sorocaba. O elevado número de ausências registrado na rede pública municipal, conforme noticiado recentemente pelo jornal Cruzeiro do Sul, revela uma situação que não pode ser tratada como simples inconveniente administrativo. São horários reservados, profissionais mobilizados e estruturas preparadas para receber pacientes que, por diferentes razões, não comparecem. Enquanto isso, há pessoas aguardando na fila por uma consulta, um exame ou uma avaliação que pode ser importante para esclarecer um diagnóstico e orientar um tratamento.

É necessário reconhecer que nem toda ausência acontece por descaso. Imprevistos familiares, dificuldades de locomoção, problemas de saúde, compromissos inadiáveis e até falhas de comunicação podem impedir o comparecimento. Há também situações em que o paciente sequer consegue avisar antecipadamente que não poderá estar presente. Uma análise responsável precisa considerar essas circunstâncias, sem transformar todos os faltosos em exemplos de negligência.

Entretanto, compreender as dificuldades não significa ignorar as consequências. Quando alguém sabe que não poderá comparecer e deixa de comunicar à unidade de saúde, contribui para que uma vaga permaneça ociosa. Aquilo que poderia ser oferecido a outro cidadão acaba perdido. Em um sistema que trabalha com demanda elevada e recursos limitados, esse desperdício tem um custo coletivo.

A consulta que não acontece não representa apenas um horário vazio na agenda de um profissional. Pode significar mais tempo de espera para quem necessita de acompanhamento, atraso na investigação de uma doença e dificuldade adicional para quem depende exclusivamente do atendimento público. Em determinadas situações, a demora pode agravar problemas que, identificados precocemente, teriam maiores possibilidades de tratamento.

Os números ajudam a dimensionar o problema. No último quadrimestre, foram agendadas 237.313 consultas médicas na rede municipal, mas 82.924 pacientes não compareceram. O índice de absenteísmo chegou a 35%, o equivalente a mais de 20 mil ausências por mês. A pediatria apresentou o percentual mais elevado, com 45% de faltas, seguida pela clínica geral (39%), ginecologia (33%) e odontologia (24%). Não se trata, portanto, de episódios isolados, mas de um volume que exige atenção permanente.

A responsabilidade, porém, não pode ser colocada somente sobre o cidadão. Cabe ao poder público aprimorar os mecanismos de confirmação dos agendamentos, ampliar os canais de comunicação e tornar simples o cancelamento ou a remarcação. Lembretes por telefone ou mensagem, informações claras sobre como liberar uma vaga e a atualização dos cadastros podem ajudar a reduzir ausências. Também é importante organizar listas de espera e procedimentos que permitam convocar outro paciente quando houver tempo hábil, respeitando critérios clínicos e prioridades.

A própria população precisa incorporar uma regra básica de convivência com o serviço público: consulta marcada é compromisso. Se surgir um impedimento, avisar a unidade com antecedência é uma atitude simples, mas capaz de beneficiar alguém que espera por atendimento. Basta comunicar a impossibilidade pelos canais disponíveis e permitir que a vaga seja reaproveitada.

A saúde pública não se sustenta apenas com orçamento, prédios e profissionais. Depende também de planejamento, eficiência e participação social. Em um sistema no qual a procura supera a capacidade de atendimento em diversas especialidades, cada horário tem valor. Reduzir faltas não resolverá, por si só, as filas nem eliminará as dificuldades históricas do SUS, mas é uma providência concreta para aproveitar melhor a estrutura existente.

Os mais de 82 mil não comparecimentos registrados em Sorocaba devem servir de alerta, não de motivo para apontar dedos. O desafio é transformar o dado em mudança de comportamento e em melhoria da gestão. Uma vaga liberada a tempo pode representar uma consulta antecipada, um diagnóstico menos tardio e um cuidado que chega a quem precisa. Quando o assunto é saúde, desperdiçar uma oportunidade de atendimento significa desperdiçar algo que não pode ser reposto: tempo.