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Editorial

Manutenção urgente

Fissuras, rachaduras e irregularidades voltaram a chamar a atenção para os viadutos dos Ferroviários e Jânio Quadros, em Sorocaba

27 de Outubro de 2026 às 20:54
Da Redação [email protected]
Desnível prejudica o trânsito. Prefeitura informou que prepara licitação de empresa para avaliar o estado de viadutos e fazer melhorias
Desnível prejudica o trânsito; prefeitura informou que prepara licitação de empresa para avaliar o estado de viadutos e fazer melhorias (Crédito: Fábio Rogério)

A infraestrutura urbana não costuma dar sinais de desgaste de um dia para o outro. Antes que um problema alcance proporções maiores, surgem indícios que, observados com atenção e tratados a tempo, permitem evitar riscos, reduzir custos e preservar o patrimônio público. As fissuras, rachaduras e irregularidades que voltaram a chamar a atenção para os viadutos dos Ferroviários e Jânio Quadros, em Sorocaba, precisam ser encaradas sob essa perspectiva. Mais do que imperfeições no pavimento, os problemas representam um alerta para a necessidade de manutenção criteriosa em estruturas fundamentais à mobilidade urbana.

As duas passagens sobre a avenida Afonso Vergueiro desempenham papel estratégico na ligação entre a região central, a zona nwworte e os bairros do Além Linha. Diariamente, recebem veículos particulares, motocicletas, ônibus e pedestres que dependem desses acessos para trabalhar, estudar, realizar compras ou chegar a serviços essenciais. Qualquer restrição de circulação nesses pontos tem potencial para provocar congestionamentos, aumentar o tempo dos deslocamentos e transferir o tráfego para vias que nem sempre comportam o volume adicional. A conservação desses equipamentos, portanto, não interessa apenas a quem os utiliza diretamente. É uma questão de funcionamento da cidade.

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A idade das estruturas ajuda a dimensionar a responsabilidade envolvida. O viaduto Jânio Quadros foi construído na década de 1950, quando Sorocaba começava a ampliar sua infraestrutura para acompanhar a expansão urbana e o crescimento da circulação de automóveis. O viaduto dos Ferroviários, inaugurado em 1996, é mais recente, mas também já acumula três décadas de utilização. São obras concebidas em contextos distintos, submetidas desde então a solicitações contínuas, variações de temperatura, vibrações e exposição às intempéries. A longevidade, por si só, não significa insegurança; demonstra, porém, por que inspeções e intervenções preventivas precisam acompanhar toda a vida útil de uma estrutura.

Na engenharia civil, as juntas de dilatação têm função essencial. Esses dispositivos permitem acomodar movimentos decorrentes, principalmente, das variações térmicas e de outras deformações previstas no projeto, sem que a movimentação natural dos materiais produza esforços indesejados. Quando apresentam desgaste, falhas de vedação ou perda de funcionalidade, podem favorecer a infiltração de água, a deterioração do pavimento e o aparecimento de desníveis. A água que alcança partes internas da estrutura também pode contribuir, em determinadas condições, para a corrosão das armaduras de aço do concreto, comprometendo sua durabilidade. Isso não significa que toda fissura indique dano estrutural, mas que sua origem precisa ser identificada por avaliação técnica, e não simplesmente encoberta.

É justamente aí que reside uma das principais preocupações. Recapear o asfalto, preencher uma abertura ou corrigir superficialmente um desnível pode melhorar a circulação por algum tempo, mas não resolve necessariamente a causa do problema. Quando as falhas reaparecem depois de reparos, torna-se indispensável investigar se há deficiência nas juntas, problemas de drenagem, movimentações excessivas ou outras condições que exijam uma solução específica. A intervenção correta depende de diagnóstico, análise das condições dos materiais e definição de procedimentos compatíveis com as características de cada obra. Sem esse cuidado, o poder público corre o risco de gastar repetidamente para remediar sintomas, em vez de eliminar suas causas.

A situação noticiada pelo Cruzeiro do Sul em 17 de outubro reforça a necessidade de uma resposta objetiva. A prefeitura informou que foram realizadas avaliações preliminares e que prepara a documentação para contratar empresa especializada, responsável pelo diagnóstico e pelos reparos. A informação de que não foi constatado risco imediato de colapso é relevante e deve ser considerada com responsabilidade, sem alimentar alarmismo. Entretanto, ausência de risco iminente não equivale à inexistência de problemas, tampouco constitui justificativa para adiar providências. A administração precisa transformar as avaliações iniciais em um cronograma verificável, com etapas definidas, critérios técnicos e transparência sobre os serviços previstos.

As inspeções devem abranger não apenas o pavimento visível aos motoristas, mas também os elementos estruturais, os apoios, as juntas, os sistemas de drenagem, as condições do concreto e eventuais sinais de corrosão. A frequência e a profundidade dessas avaliações precisam seguir as características de cada estrutura e as normas técnicas aplicáveis. Conforme os resultados, poderão ser necessários monitoramento, reparos localizados, recuperação de componentes ou intervenções mais abrangentes. Também é fundamental organizar a execução das obras para reduzir os transtornos, com sinalização adequada, divulgação prévia de interdições e alternativas de circulação para motoristas e pedestres.

O episódio deve servir, ainda, para uma reflexão que ultrapassa os dois viadutos. Sorocaba precisa tratar a conservação de pontes, passagens elevadas, pontilhões e demais equipamentos públicos como política permanente, com inventário atualizado, inspeções programadas e recursos previstos no orçamento. A manutenção preventiva costuma ser menos onerosa do que a recuperação de estruturas cujo desgaste avançou sem a devida atenção. Além do aspecto financeiro, antecipar problemas significa proteger vidas e evitar que falhas localizadas se transformem em obstáculos à mobilidade de milhares de pessoas.

Obras viárias não se tornam menos importantes depois da inauguração. Pelo contrário: é quando começam a cumprir sua função diariamente que passam a exigir acompanhamento contínuo e responsabilidade pública. Os viadutos dos Ferroviários e Jânio Quadros ajudaram a integrar diferentes partes de Sorocaba e continuam indispensáveis à dinâmica urbana. Preservá-los exige mais do que intervenções ocasionais diante de reclamações ou sinais evidentes de deterioração. Exige planejamento, conhecimento técnico e compromisso com a prevenção. Diante dos problemas identificados, a cidade não precisa de promessas genéricas nem de reparos destinados apenas a produzir alívio temporário. Precisa de soluções duradouras, executadas com urgência e acompanhadas de fiscalização. Em infraestrutura, esperar que o problema se agrave nunca é uma estratégia de economia: é aceitar que a conta futura poderá ser maior e que o preço mais alto, eventualmente, não será medido em dinheiro.