Editorial
Representação menor
Sorocaba sai das eleições de 2026 com uma pergunta que não deveria ser ignorada: por que uma cidade com mais de 760 mil habitantes - segundo projeção atualizada pelo IBGE - e posição econômica estratégica no Estado de São Paulo terá menos força política a partir de 2027? A resposta não está apenas nos nomes que perderam a eleição. Está, sobretudo, na dificuldade de transformar o tamanho da cidade em representação institucional.
Os números são eloquentes. Em 2022, Sorocaba elegeu três deputados federais e quatro deputados estaduais. A nova legislatura terá dois representantes na Câmara dos Deputados com base política na cidade e apenas um na Assembleia Legislativa. A redução é particularmente expressiva no âmbito estadual, justamente onde são discutidas questões que afetam diretamente municípios como Sorocaba: saúde, educação, segurança, transporte, infraestrutura, habitação e distribuição de recursos.
Não se trata de dizer que os parlamentares de outras cidades sejam incapazes de olhar para Sorocaba. Nem seria razoável imaginar que um deputado estadual ou federal precise necessariamente nascer ou morar aqui para defender demandas do município. A política, afinal, não funciona por cercas municipais. Recursos e decisões públicas dependem de articulações regionais e estaduais.
Mas representação também é presença. É ter alguém que conheça de perto os problemas da cidade, que acompanhe suas obras, seus hospitais, suas escolas, suas necessidades de mobilidade, seus gargalos de infraestrutura e as demandas de sua população. É possuir canais políticos permanentes para abrir portas nos governos estadual e federal.
É justamente nesse ponto que a perda sorocabana merece atenção.
A derrota de Vitor Lippi encerra um ciclo de três mandatos consecutivos na Câmara dos Deputados. Maria Lúcia Amary, depois de seis mandatos na Assembleia, também deixa o Legislativo paulista. Vitão do Cachorrão, que buscava a primeira reeleição, igualmente não conseguiu permanecer. Os três tiveram menos votos em 2026 do que na eleição anterior. No início do mandato atual, Sorocaba ainda tinha a atuação de Carlos Cezar, na Alesp. Ele deixou o parlamento paulista para ocupar vaga de conselheiro no Tribunal de Contas do Estado de São Paulo.
O sistema proporcional, evidentemente, tem suas regras. Não basta ao candidato ser bem votado em sua cidade. A distribuição das cadeiras depende do desempenho dos partidos e federações em todo o Estado. Foi justamente esse mecanismo que permitiu, por exemplo, que Sirlange Maganhato fosse eleita para a Câmara mesmo obtendo votação individual ligeiramente inferior à de Lippi.
Portanto, seria simplista atribuir toda a responsabilidade ao eleitor sorocabano. Há também uma questão partidária. Há estratégias eleitorais, composição de chapas, desempenho das legendas, quociente eleitoral e capacidade de organização política. Uma eleição proporcional não é uma disputa exclusivamente individual.
Ainda assim, existe uma questão que a cidade precisa enfrentar: Sorocaba está produzindo menos lideranças capazes de ultrapassar a votação local e construir uma representação estadual e nacional consistente?
O problema é maior do que a derrota de três nomes conhecidos. Uma cidade que pretende ocupar papel de protagonismo regional precisa construir continuamente novas lideranças, formar quadros, fortalecer partidos e estimular uma cultura política que não apareça apenas às vésperas das eleições.
Há, é verdade, um contraponto importante. Sorocaba não saiu completamente diminuída do mapa político. Guilherme Derrite foi eleito senador por São Paulo, garantindo projeção à cidade em Brasília. Jefferson Campos foi reeleito deputado federal e Sirlange Maganhato conquistou uma cadeira na Câmara. Danilo Balas também renovou seu mandato na Assembleia.
Mas senador é uma representação estadual, assim como deputados federais e estaduais são eleitos pelo conjunto do eleitorado paulista. O fato de Derrite ser sorocabano é relevante, mas sua cadeira não pode ser confundida com uma vaga destinada à cidade. Da mesma forma, Lucas Pavanato, embora nascido em Sorocaba e eleito deputado federal com uma votação extraordinária, construiu sua trajetória eleitoral principalmente fora do município.
A diferença não é meramente semântica. Ela ajuda a compreender o tamanho do desafio.
Sorocaba precisa deixar de enxergar representação política apenas como uma lista de nomes eleitos. Precisa pensar em projeto de cidade e de região. Uma população desse tamanho, inserida em uma Região Metropolitana que reúne 27 municípios e concentra importantes atividades industriais, comerciais e de serviços, não pode depender exclusivamente da boa vontade de parlamentares de passagem.
A eleição terminou. A disputa agora é outra: a disputa por espaço, recursos e influência.
E, para isso, não basta reclamar quando Brasília ou o Palácio dos Bandeirantes não atendem às necessidades locais. É preciso construir representação antes da eleição seguinte, com partidos organizados, lideranças preparadas, participação da sociedade e, principalmente, uma visão menos imediatista da política.
Sorocaba continuará crescendo. A pergunta é se sua representação política crescerá junto, porque uma cidade pode ter muitos eleitores e ainda assim ter pouca força política. A eleição de 2026 mostrou que tamanho econômico e populacional, por si só, não garante presença institucional.