Editorial
O poder da informação
Brasília parece não se importar com o Brasil nem com os brasileiros. A cada manhã surge uma revelação, uma mensagem, um documento, uma relação que precisa ser explicada, uma resposta que não convence ou uma nova pergunta que imediatamente substitui a anterior. A 10 dias do primeiro turno, a capital federal vive uma sucessão de acontecimentos que envolve o Banco Master, Daniel Vorcaro, ministros do Supremo Tribunal Federal, parlamentares, empresários e personagens que orbitam os centros de poder. No meio desse turbilhão aparecem também as investigações e revelações relacionadas a Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e à empresária Roberta Luchsinger.
O problema é que Brasília parece falar para Brasília. A imprensa noticia. As redes sociais repercutem. Os comentaristas analisam. Os políticos reagem. As bancadas se dividem. Os ministros se manifestam. E, enquanto isso, milhões de brasileiros seguem trabalhando, pagando contas, levando filhos à escola, enfrentando o supermercado e tentando entender o que, afinal, está acontecendo no país que se prepara para escolher seu próximo presidente, governadores, senadores e deputados.
É preciso reconhecer uma diferença fundamental: ser informado não significa necessariamente concordar com uma versão dos fatos. Significa conhecer os fatos, saber o que está comprovado, o que está sob investigação, o que é acusação, o que é defesa e o que ainda não passou pelo devido processo de apuração. Essa distinção é especialmente importante em uma eleição.
O caso Master é um exemplo eloquente da dificuldade. Para quem acompanha diariamente o noticiário político, nomes como Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes tornaram-se recorrentes. Para outra parcela da população, entretanto, podem simplesmente não significar nada. O mesmo vale para Lulinha, Roberta Luchsinger e tantos outros personagens que passaram a ocupar espaço no noticiário nacional.
Essa distância entre o que domina o debate político e o que efetivamente é conhecido pelo eleitor merece atenção. Não porque o cidadão tenha obrigação de acompanhar cada episódio de Brasília. Ninguém tem. A vida real não permite que milhões de brasileiros passem o dia acompanhando sessões do Supremo, relatórios da Polícia Federal, investigações bancárias, decisões judiciais e declarações de candidatos. Mas existe uma responsabilidade coletiva para que a democracia não seja reduzida àquilo que consegue chegar ao eleitor por meio de um vídeo de poucos segundos, uma mensagem encaminhada em grupo de família ou uma publicação produzida para provocar indignação.
A eleição não deveria ser uma competição de versões mais barulhentas. Deveria ser um momento de comparação. E as pesquisas acrescentam outro elemento à equação. Os levantamentos mais recentes mostram uma disputa presidencial apertada, embora os números variem conforme instituto, metodologia e período de coleta. Na Quaest divulgada em 21 de setembro, Lula apareceu com 37% e Flávio Bolsonaro com 33% no cenário estimulado, enquanto 8% declararam-se indecisos. No Datafolha divulgado em 17 de setembro, os dois também apareciam tecnicamente empatados dentro da margem de erro, com 39% e 36%, respectivamente, e 3% de indecisos. Mais importante do que transformar esses números em torcida é compreender o que eles revelam: existe um eleitorado ainda em movimento e uma parcela que não pode ser tratada como propriedade eleitoral de ninguém.
Pesquisa não é resultado de urna. Indecisão não significa necessariamente desconhecimento. E voto declarado em setembro pode mudar até outubro. Mas, quando uma eleição se aproxima e o debate público é tomado por escândalos, acusações, confrontos institucionais e informações de difícil compreensão, aumenta a responsabilidade de quem informa e de quem vota. É justamente aí que mora o perigo.
Um eleitor pode conhecer perfeitamente um candidato e desconhecer seus adversários. Pode receber dezenas de conteúdos sobre determinado escândalo e absolutamente nada sobre propostas para saúde, educação, segurança, contas públicas ou geração de empregos. Pode confundir investigação com condenação, suspeita com prova, declaração com fato e propaganda com informação.
Também pode acontecer o contrário: alguém rejeitar um candidato por causa de uma acusação ainda não comprovada ou defendê-lo simplesmente porque acredita que todo questionamento contra ele faz parte de uma conspiração política. Nos dois casos, a democracia perde qualidade.
A 10 dias da urna, portanto, talvez a pergunta mais importante não seja quem está na frente nas pesquisas, quem ganhou o debate ou qual escândalo dominará as próximas 24 horas. A pergunta é outra: quanto o eleitor realmente sabe sobre aqueles que pretende escolher?
É uma pergunta incômoda porque transfere parte da responsabilidade para o cidadão. Votar é um direito, mas também é um ato de responsabilidade. Não exige conhecimento absoluto, muito menos alinhamento ideológico. Exige disposição para conferir, comparar e desconfiar de certezas fáceis.
Brasília continuará fervendo. Novos documentos podem aparecer. Novas acusações podem surgir. Novas explicações serão dadas. O Supremo continuará no centro das atenções, assim como o Congresso, o governo, os partidos e as campanhas. Até o dia da votação, provavelmente haverá mais fatos do que tempo para assimilá-los. Por isso mesmo, a informação precisa valer mais do que o ruído.
Uma eleição não se torna mais democrática porque o eleitor recebe mais mensagens. Torna-se mais democrática quando ele consegue separar fato de narrativa, investigação de condenação, promessa de realização e propaganda de realidade. No fim, a urna não pergunta quanto o eleitor sabe sobre o que acontece em Brasília. Pergunta apenas qual é a sua escolha. E essa escolha será tanto mais livre quanto mais informação verdadeira houver entre o fato e o voto.