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Editorial

Fatura eleitoral

22 de Setembro de 2026 às 21:52
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Ano eleitoral transforma indicadores econômicos em assunto de campanha. Uma queda de juros vira notícia boa, uma alta da inflação vira ameaça e o crescimento do PIB aparece como argumento político. Para quem está do outro lado, esses números chegam na parcela do financiamento, no supermercado, no aluguel e no cartão.

A redução da Selic de 14% para 13,75% ao ano, anunciada na semana passada, merece atenção, mas não euforia. É o quinto corte consecutivo de 0,25 ponto e representa redução acumulada de 1,25 ponto desde o início do ciclo. A ata divulgada nesta terça-feira pelo Copom ajuda a entender por que o Banco Central não trata a medida como autorização para acelerar.

A economia já mostra os efeitos dos juros elevados. O PIB cresceu 0,5% no segundo trimestre, depois de avançar 1,1% no primeiro, enquanto o consumo perdeu velocidade. É o efeito procurado por uma política monetária restritiva: reduzir a demanda para aliviar a pressão sobre os preços. A mesma freada, porém, atinge crédito, consumo e investimentos.

Juros altos encarecem o dinheiro, mas também são utilizados para impedir que a inflação volte a corroer o poder de compra. Reduzi-los depressa demais pode trazer alívio imediato, mas elevar riscos inflacionários. Mantê-los elevados por tempo demais pode prolongar a perda de dinamismo. O desafio é administrar esse equilíbrio.

Os números de inflação explicam a cautela. O IPCA acumulado em 12 meses chegou a 4,22% em agosto, dentro do intervalo de tolerância, mas ainda acima da meta central de 3%. O Copom elevou suas projeções de inflação para 5,2% em 2026 e 3,9% em 2027. A queda da inflação corrente, portanto, não significa que o problema esteja resolvido.

Mais reveladora é a preocupação fiscal. A ata insiste que incertezas sobre a dívida, perda de disciplina fiscal e expansão do crédito direcionado podem elevar a taxa de juros neutra. Em linguagem simples: se o mercado exige mais prêmio para financiar o governo, o dinheiro tende a permanecer caro por mais tempo. A conta pode chegar ao financiamento da casa, do carro e à expansão de uma pequena empresa.

É nesse ponto que o ano eleitoral exige cuidado. Medidas que estimulam o consumo podem produzir efeitos rápidos, enquanto eventuais custos fiscais e inflacionários aparecem adiante. O próprio Copom alertou que novos estímulos, especialmente sobre o consumo, podem dificultar a desinflação. A questão não é rejeitar políticas de crédito ou proteção social, mas perguntar de onde virão os recursos, quanto custarão e qual será seu impacto nas contas públicas.

Essa discussão ocorre em ambiente institucional ruidoso. As investigações relacionadas ao Banco Master e a Daniel Vorcaro alcançaram personagens dos três Poderes e provocaram disputas públicas dentro do próprio Supremo. Documentos tornados públicos mostram contatos e relações sob exame e versões divergentes sobre procedimentos ligados ao caso. Há desdobramentos que alcançam PF, PGR e parlamentares. É essencial separar contato, menção em documento, suspeita e prova de irregularidade. Investigação não é condenação.

A proximidade das eleições torna tudo mais sensível. Em campanha, a economia costuma ser reduzida a frases curtas. Nenhum indicador, isoladamente, conta a história inteira. Uma Selic de 13,75% ainda não significa dinheiro barato. Uma inflação de 4,22% significa que os preços continuam subindo.

O eleitor precisa olhar além da celebração e do pessimismo automáticos. Importa saber se a queda dos juros será sustentável, se a inflação convergirá para a meta, se a dívida seguirá trajetória administrável e se políticas de estímulo terão financiamento compatível com a realidade fiscal.

O próximo encontro do Copom ocorrerá em novembro, já depois da eleição presidencial. Até lá, novos dados poderão mudar o cenário. A economia, porém, não obedece ao calendário das urnas. O cidadão continuará pagando juros, impostos e preços depois que os palanques forem desmontados.

No fim, toda a discussão cabe numa pergunta: quanto sobra no fim do mês? A política econômica pode ser apresentada em percentuais e projeções. Para a população, ela termina no bolso. É a essa realidade que qualquer governo deveria responder com números consistentes, contas transparentes e menos promessas de curto prazo. Eleição dura alguns meses. A conta, não.