Editorial
A cultura do improviso
Improvisar é, muitas vezes, não é tão ruim assim. Diante de uma situação inesperada, encontrar rapidamente uma solução pode fazer a diferença entre o problema administrado e o desastre. O que não pode ser considerado normal é transformar o improviso em método de gestão. E é justamente isso que o Brasil parece fazer com frequência: espera o problema aparecer para então procurar uma resposta, embora boa parte das crises possa ser prevista com bastante antecedência.
A cultura do improviso não está necessariamente relacionada à falta de inteligência, de profissionais qualificados ou mesmo de dinheiro. Muitas vezes, nasce da incapacidade de planejar, da dificuldade de estabelecer prioridades e da preferência por medidas que produzam efeitos imediatos. O futuro, nesse ambiente, é sempre uma preocupação para depois. O presente, com sua urgência, ocupa todo o espaço.
As cidades oferecem exemplos cotidianos. Chuvas fortes provocam alagamentos, ruas ficam intransitáveis, famílias perdem bens e, somente depois da emergência, surgem discussões sobre drenagem, limpeza de córregos, ocupação do solo e obras de prevenção. Quando a água baixa, o assunto perde espaço. Até que a próxima chuva devolva o problema à agenda. É um ciclo perverso: primeiro acontece a tragédia; depois se procura a explicação; em seguida anunciam-se providências; passado algum tempo, a memória diminui e a prevenção volta a ser adiada.
Na saúde, a lógica também aparece. Faltam profissionais, equipamentos ou vagas, aumenta a pressão sobre os serviços e então surgem medidas emergenciais. Na mobilidade, a expansão urbana é conhecida, mas muitas vezes o transporte coletivo e o sistema viário crescem atrás da demanda. Na infraestrutura, equipamentos envelhecem sem manutenção adequada até que uma falha obrigue a uma intervenção de maior custo. Em todos esses casos, não se trata propriamente de acontecimentos imprevisíveis. São problemas que dão sinais antes de se tornarem crises.
O mesmo raciocínio vale para questões nacionais que exigem décadas de preparação. O envelhecimento da população não é uma surpresa. A mudança demográfica pode ser medida, projetada e incorporada às políticas públicas. Ainda assim, o Brasil continua diante do desafio de adaptar previdência, saúde, mercado de trabalho e estrutura de cuidados a uma sociedade que será cada vez mais velha. Quanto mais tempo se demora para enfrentar uma transformação conhecida, mais cara tende a ser a adaptação.
Há, portanto, uma diferença importante entre administrar o inesperado e negligenciar o previsível. O primeiro faz parte da realidade de qualquer governo, empresa ou família. O segundo revela deficiência de planejamento. E o improviso custa caro. Uma obra preventiva pode parecer dispendiosa quando comparada à ausência de intervenção. Mas o cálculo muda completamente quando entram na conta os prejuízos de uma enchente, a reconstrução de uma ponte, a interrupção de uma estrada, o atendimento emergencial de uma população desassistida ou a recuperação de uma estrutura que poderia ter sido preservada com manutenção. O barato do presente pode ser a conta elevada do futuro.
Existe ainda um componente político e cultural nesse comportamento. Medidas preventivas raramente produzem imagens tão visíveis quanto obras inauguradas depois de uma crise. Planejamento exige paciência, continuidade e disposição para investir em resultados que, muitas vezes, serão colhidos por administrações futuras. O improviso, ao contrário, oferece uma resposta imediata e facilmente anunciada. É tentador resolver o que está diante dos olhos, mesmo que isso signifique deixar intacta a causa do problema.
A sociedade também tem sua parcela de responsabilidade. Há uma cobrança legítima por respostas rápidas, mas nem toda resposta rápida é uma boa resposta. Muitas vezes, a solução mais responsável é justamente aquela que exige tempo, estudo, planejamento e continuidade. Exigir velocidade permanentemente pode estimular governantes e instituições a tratar sintomas em vez de enfrentar causas.
O Brasil não precisa abandonar a capacidade de improvisar. Precisa deixar de depender dela. A criatividade para encontrar saídas diante do imprevisto é uma virtude; a incapacidade de se antecipar ao que já se sabe que acontecerá é outra coisa.
Planejar significa reconhecer que determinadas crises não são acidentes, mas consequências. Significa olhar para os dados, identificar tendências, calcular riscos e agir antes que a emergência obrigue a agir. Significa também aceitar que nem toda decisão importante rende resultado imediato e que algumas das melhores políticas públicas são justamente aquelas cuja eficácia se percebe porque o problema deixou de acontecer.
Um país que conhece seus riscos, acompanha suas transformações e dispõe de informações para projetar o futuro não pode continuar sendo surpreendido pelo previsível. Quando cada enchente exige uma nova promessa, cada deficiência de serviço provoca uma operação emergencial e cada mudança demográfica chega como novidade, não falta apenas dinheiro. Falta antecipação. Improvisar pode ser uma virtude diante do inesperado. Transformá-lo em método, porém, é admitir que não se aprendeu suficientemente com o passado, e que o futuro continuará chegando antes que o país esteja preparado para recebê-lo.