Editorial
O poder do voto
Quando o brasileiro entrar na cabine de votação para escolher o próximo presidente da República, estará decidindo quem ocupará o Palácio do Planalto a partir de 2027. Mas seria um erro imaginar que sua escolha estará restrita ao comando da máquina administrativa federal. O voto presidencial carrega consigo uma parcela extraordinariamente ampla de poder institucional — e talvez essa seja uma das questões que mais deveriam ocupar a atenção do eleitor neste momento.
A Constituição entrega ao presidente responsabilidades que vão muito além da formulação de políticas públicas. Cabe ao chefe do Executivo nomear ministros de Estado e exercer a direção superior da administração federal. Cabe também a ele indicar, depois da aprovação do Senado, os ministros do Supremo Tribunal Federal e o procurador-geral da República.
Há ainda o comando político de áreas essenciais do Estado, inclusive a escolha do diretor-geral da Polícia Federal, cargo que a legislação reserva a delegado da própria instituição e cuja nomeação compete ao presidente.
Isso significa que o eleitor não estará apenas escolhendo quem cuidará da economia, da saúde, da educação, da infraestrutura ou da segurança pública. Estará escolhendo também quem terá condições de influenciar, dentro dos limites constitucionais, a formação e o funcionamento de estruturas que precisam ser especialmente protegidas de interesses partidários e circunstanciais.
É justamente aí que os acontecimentos recentes em Brasília deveriam produzir uma reflexão que ultrapassasse a disputa entre esquerda e direita, lulistas e bolsonaristas, governo e oposição.
O problema maior de uma República não é apenas saber quem ocupa determinado cargo. É saber como esse poder é utilizado.
Instituições de Estado precisam ter independência. Polícia não pode investigar de acordo com a conveniência do governante. Ministério Público não pode escolher seus alvos segundo simpatias políticas. Justiça não pode ser confundida com militância. Órgãos de fiscalização não podem transformar-se em instrumentos de vingança. E decisões que afetam milhões de brasileiros precisam nascer da Constituição, das leis e das garantias democráticas — não de relações pessoais, conveniências políticas ou interesses circunstanciais.
É por isso que as revelações, controvérsias e conflitos institucionais que vêm se acumulando no País não deveriam ser tratados pelo eleitor apenas como mais um capítulo da interminável guerra política brasileira. O que está em discussão é algo muito maior: qual modelo de República o cidadão pretende entregar às próximas gerações?
O Supremo Tribunal Federal, o Ministério Público Federal e a Polícia Federal não pertencem a um governo. Pertencem ao Estado brasileiro. Sua autoridade decorre da Constituição, e sua legitimidade depende justamente da percepção de que suas decisões e ações não estão subordinadas aos interesses de grupos, partidos ou indivíduos.
O mesmo vale para o presidente da República.
Quem vencer a eleição terá enorme poder, mas não terá um cheque em branco. O voto não transforma o eleito em proprietário do Estado. Não lhe concede autorização para confundir governo com partido, autoridade com vontade pessoal ou lealdade política com interesse público.
Essa talvez seja a primeira grande lição que a eleição de 2026 deveria deixar.
O eleitor precisa olhar para além das promessas de campanha. Precisa perguntar quem são os candidatos, quais são seus compromissos, quem os cerca, que instituições respeitam, como enxergam os limites do poder e, sobretudo, que tipo de República pretendem entregar ao País.
Porque escolher um presidente é também escolher, indiretamente, parte importante do ambiente institucional dos quatro anos seguintes.
E isso ganha uma dimensão ainda maior quando se observa que o próximo presidente poderá participar da renovação de até quatro cadeiras do Supremo ao longo do mandato, além de fazer a indicação do procurador-geral da República e exercer outras prerrogativas de grande alcance. A indicação de ministros do STF e do PGR, é importante lembrar, não é absoluta: depende da aprovação do Senado, justamente como mecanismo constitucional de freios e contrapesos.
É essa compreensão que parece faltar ao debate eleitoral.
Discute-se muito quem vencerá. Discute-se quem terá mais votos, quem crescerá nas pesquisas, quem perderá espaço, quem será capaz de derrotar o adversário. Discute-se a eleição como se fosse uma final de campeonato. Mas eleição é muito mais.
O presidente não é soberano. O Congresso não é subordinado ao Planalto. O Judiciário não é extensão do Executivo. A Polícia Federal não é polícia de governo. O Ministério Público não é instrumento de partidos. Ou não deveriam ser. Uma democracia saudável existe justamente porque nenhum desses poderes deveria ser absoluto. E talvez seja exatamente por isso que o eleitor precise levar esta eleição mais a sério do que nunca.
O Brasil terá diante de si a oportunidade de escolher entre diferentes projetos de poder. Poderá optar pela continuidade de um determinado modelo político ou pela mudança. Poderá aprovar ou rejeitar governos. Poderá premiar ou punir aqueles que estiveram no comando.
Mas deverá compreender que, ao apertar a tecla da urna eletrônica, estará fazendo uma escolha que produzirá efeitos muito além dos quatro anos de governo.
Estará ajudando a definir quem indicará autoridades, quem comandará estruturas federais, quem conduzirá políticas públicas e quem terá influência na formação de instituições que, em uma democracia, precisam ser maiores do que seus ocupantes. É justamente por isso que não basta perguntar ao candidato o que ele pretende fazer. É preciso perguntar como pretende fazer. Com quais limites? Com quais princípios? Com quais pessoas? Com qual respeito às instituições? Com qual compromisso com a impessoalidade? Com qual disposição para aceitar que ninguém está acima da lei?
O Brasil já pagou caro, em diferentes momentos de sua história, pelo personalismo, pelo aparelhamento e pela concentração de poder. Não deveria precisar pagar novamente para compreender a lição. O voto é secreto, mas suas consequências são públicas. E talvez essa seja a pergunta que cada eleitor deveria levar consigo para a urna: que tamanho de poder estou entregando a quem vou escolher?
A resposta exige mais do que paixão política. Exige consciência. Porque, em 2026, o brasileiro não estará simplesmente escolhendo um presidente. Estará escolhendo quem receberá a chave de uma parte considerável do poder da República. E uma chave dessas não pode ser entregue por torcida.