Editorial
Escândalos
Faltam praticamente 30 dias para que o eleitor brasileiro volte às urnas para escolher o presidente da República. É um momento em que democracia, instituições, candidatos e partidos deveriam estar submetidos ao mais rigoroso escrutínio público. O que o País está oferecendo, porém, é um espetáculo muito mais preocupante: uma sucessão de escândalos, investigações, suspeitas de tráfico de influência, relações pouco transparentes entre poder público e interesses privados e uma economia que começa a perder velocidade.
O mais novo capítulo dessa história volta a envolver o banqueiro Daniel Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. Nesta terça-feira, o ministro André Mendonça retirou o sigilo de parte da investigação da Polícia Federal que reúne mensagens e outros elementos extraídos do celular de Vorcaro. O material passou a expor, de forma pública, uma relação que já vinha sendo objeto de questionamentos e que agora terá de ser esclarecida à luz dos documentos reunidos pela investigação.
A partir daí, já cabe uma pergunta que uma República saudável jamais deveria ter medo de fazer: até onde podem chegar as relações entre um banqueiro investigado e um ministro da mais alta Corte do País sem que a sociedade tenha o direito de exigir explicações?
As informações divulgadas pela investigação são graves. Segundo o material da PF tornado público, Vorcaro teria utilizado sua relação com Moraes para buscar ajuda diante de investigações que atingiam seus interesses, inclusive com referências à Polícia Federal e à Procuradoria-Geral da República. O ministro, por sua vez, nega ser o destinatário de determinadas mensagens. São fatos que precisam ser apurados, confrontados e explicados e não abafados pelo barulho da disputa política.
E aqui está um dos maiores perigos deste momento: um escândalo não pode servir para esconder o outro. Enquanto o País discute Vorcaro e Moraes, continuam no radar das autoridades as investigações envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, a lobista Roberta Luchsinger e outros personagens que circulam nas proximidades do poder. A Polícia Federal apontou a existência de uma possível "comunhão de interesses econômicos" entre Lulinha e a lobista e investiga mensagens que sugerem relações empresariais e intermediação de interesses privados junto ao governo. As defesas dos envolvidos negam irregularidades e contestam as conclusões apresentadas nas investigações.
É justamente por isso que a sociedade não pode aceitar a lógica seletiva segundo a qual um escândalo só é escândalo quando atinge o adversário político.
Se há suspeita contra um ministro do STF, que se investigue. Se há suspeita envolvendo pessoas próximas ao Palácio do Planalto, que se investigue. Se há indícios contra banqueiros, empresários, lobistas, parlamentares ou qualquer outro personagem que transite pelas estruturas de poder, que se investigue igualmente. A República não pode ter dois pesos, duas medidas e muito menos duas verdades.
O problema é que tudo isso acontece quando o Brasil deveria estar discutindo o futuro, propostas. Em vez de concentrar o debate eleitoral nos desafios que determinarão a vida dos brasileiros nos próximos quatro anos, o País se vê novamente mergulhado na discussão sobre relações pessoais, influência, negócios, investigações e limites éticos de quem ocupa posições de poder.
E, enquanto Brasília produz crises políticas em série, a economia começa a pedir atenção.
O PIB brasileiro cresceu 0,5% no segundo trimestre de 2026 na comparação com os três primeiros meses do ano. O número, isoladamente, não é negativo. Mas sua composição merece muito mais atenção do que a manchete de crescimento. A agropecuária avançou 2,8% no período e foi o principal destaque pelo lado da produção, enquanto indústria e serviços apresentaram expansão muito mais modesta. Na comparação anual, o agro cresceu 6,8%. Em outras palavras: o campo continua entregando uma parcela importante daquilo que a economia brasileira precisa para não perder ainda mais velocidade.
Isso deveria ser motivo de comemoração, mas também de reflexão. Um País continental, com enorme potencial agrícola, precisa do agronegócio forte. O que não pode é depender cada vez mais de poucos motores enquanto outros segmentos perdem fôlego. A economia, afinal, não vive de discurso. Não cresce por narrativa política. Não se recupera por propaganda. Cresce quando há investimento, produtividade, segurança jurídica, confiança, crédito, consumo sustentável e perspectivas claras para quem produz.
E confiança é justamente o que está em disputa. Confiança nas instituições. Confiança na Justiça. Confiança no governo. Confiança na política. Confiança na economia.
É impossível separar essas coisas. Uma democracia pode se recuperar dos efeitos de governos ruins, das crises econômicas e até dos escândalos. O que ela não pode perder é a capacidade de investigar, esclarecer e responsabilizar, dentro da lei, quem eventualmente tenha ultrapassado os limites.
É por isso que o levantamento do sigilo determinado por André Mendonça não deveria ser tratado apenas como mais um episódio da interminável guerra política brasileira. A publicidade dos fatos é, antes de tudo, uma oportunidade para que as instituições mostrem que são maiores do que os personagens que temporariamente as ocupam.
Da mesma forma, as investigações que envolvem pessoas próximas ao Palácio do Planalto precisam avançar sem proteção partidária, assim como qualquer investigação que alcance adversários do governo precisa obedecer aos mesmos critérios.
Não existe República forte quando a investigação depende de quem está sendo investigado. O eleitor que será chamado às urnas em outubro merece mais do que uma campanha transformada em tribunal permanente de acusações. Merece candidatos capazes de explicar como pretendem enfrentar o baixo crescimento, o custo do dinheiro, o desequilíbrio fiscal, a perda de competitividade, a insegurança jurídica e tantos outros problemas que não desaparecem porque Brasília descobriu um novo escândalo.
Faltam cerca de 30 dias para a eleição. E talvez este seja o momento de perguntar não apenas em quem o brasileiro pretende votar, mas em que tipo de República ele pretende continuar vivendo.
Uma República em que relações pessoais substituem instituições? Uma República em que o poder abre portas que deveriam permanecer fechadas? Uma República em que escândalos são utilizados para encobrir outros escândalos? Ou uma República em que ninguém esteja acima da lei, ninguém esteja protegido pela proximidade com o poder e todos — ministros, banqueiros, empresários, lobistas, filhos de presidentes, parlamentares e governantes — estejam submetidos ao mesmo princípio?
A resposta não será dada pelos discursos de campanha. Será dada pela capacidade das instituições de investigar sem medo, pela disposição dos envolvidos de explicar sem subterfúgios e, sobretudo, pela maturidade do eleitor para não aceitar que um escândalo seja utilizado como cortina de fumaça para outro. O que está em jogo é a confiança na própria República.