Editorial
Luz amarela emuita prudência
Durante algum tempo, o mercado de trabalho brasileiro funcionou como uma espécie de contraponto às más notícias da economia. Enquanto juros elevados, endividamento, dificuldades fiscais e baixo crescimento alimentavam dúvidas sobre os rumos do País, o emprego formal continuava avançando. Era uma das poucas estatísticas capazes de oferecer algum alívio no meio de um cenário marcado por incertezas.
Esse ciclo, porém, começa a perder força.
Os números mais recentes do Novo Caged ainda não permitem falar em crise do emprego — e seria irresponsável transformar uma desaceleração em catástrofe. Mas também seria um erro tratar os dados como algo meramente circunstancial. Em julho, o Brasil todo criou 58.568 postos com carteira assinada, resultado 56% inferior ao registrado no mesmo mês do ano passado e o pior desempenho para julho desde 2020, quando a economia ainda estava sob os efeitos devastadores da pandemia.
O detalhe mais revelador talvez esteja menos no número geral do que na composição desse resultado. O comércio fechou julho com saldo negativo de 2.056 vagas e já acumula, em 2026, perda de quase 7,9 mil postos formais. O varejo, particularmente, vem sofrendo uma redução expressiva de empregos. É justamente nesse setor, espalhado por milhares de pequenas, médias e grandes empresas, que os efeitos de uma economia mais cara costumam aparecer primeiro.
O fenômeno não acontece por acaso.
A taxa básica de juros permanece em nível muito elevado, 14% ao ano. A projeção do mercado é de Selic ainda em 13,75% no fim do ano. O problema não está apenas no número anunciado pelo Banco Central, mas no tempo necessário para que uma política monetária restritiva atravesse o sistema financeiro e chegue ao balcão da loja, ao caixa da indústria, ao orçamento da família e à decisão do empresário de contratar ou não contratar.
Juro alto encarece o financiamento, desestimula investimentos, reduz o consumo parcelado e aumenta o custo de carregar estoques e dívidas. Para uma empresa fortemente endividada, a diferença entre contratar mais um funcionário e esperar alguns meses pode deixar de ser uma questão de crescimento e passar a ser uma questão de sobrevivência.
É nesse ponto que o aumento das recuperações judiciais e extrajudiciais e dos pedidos de falência deixa de ser uma estatística distante dos tribunais e passa a ter relação direta com o emprego.
A Serasa Experian registrou 268 pedidos de recuperação judicial até abril, envolvendo 602 CNPJs no acumulado do ano. Em 2025, o País já havia alcançado o maior número de empresas em recuperação judicial de toda a série histórica da instituição. Não se trata, portanto, de um fenômeno isolado de 2026.
E o varejo oferece exemplos que não podem ser ignorados. A crise das Casas Bahia, que ingressou com pedido de recuperação judicial em agosto, com dívida de R$ 17,3 bilhões, é simbólica. A empresa possui mais de 700 lojas e milhares de trabalhadores. Quando uma companhia desse porte precisa recorrer à Justiça para reorganizar suas finanças, os efeitos não ficam restritos aos acionistas e credores. Atingem fornecedores, transportadores, prestadores de serviços, consumidores e, evidentemente, trabalhadores.
Também não se pode ignorar a transformação estrutural do comércio. O crescimento das vendas pela internet, a mudança no comportamento do consumidor e a necessidade de reduzir custos estão alterando o modelo tradicional das lojas físicas. O comércio não está simplesmente vendendo menos em todos os lugares; está vendendo de maneira diferente, com estruturas diferentes e, muitas vezes, utilizando menos mão de obra.
Mas seria simplista colocar toda a responsabilidade sobre os juros ou sobre a transformação tecnológica.
O que se vê é a combinação de fatores. De um lado, uma política monetária apertada tentando conter pressões inflacionárias. De outro, famílias altamente endividadas e empresas que carregam passivos caros. Soma-se a isso uma economia que começa a perder velocidade. O resultado inevitável é uma mudança de comportamento: antes de ampliar a folha de pagamento, o empresário passa a observar o caixa, o custo do crédito, o comportamento das vendas e as perspectivas para os meses seguintes.
É importante destacar que o mercado de trabalho ainda demonstra resistência. A taxa de desemprego permanece baixa, em torno de 5,3%, e o número de trabalhadores com carteira assinada no setor privado atingiu recorde. Serviços, construção e agropecuária continuam criando postos. O Brasil ainda gera empregos.
O que mudou foi o ritmo. E essa talvez seja a parte mais importante da história.
O emprego costuma ser um indicador que reage depois que a economia começa a esfriar. A empresa pode reduzir investimentos hoje, interromper uma expansão amanhã e somente depois deixar de contratar ou começar a demitir. Por isso, a desaceleração do Caged merece atenção antes que ela apareça com maior intensidade na taxa de desemprego.
Há uma diferença enorme entre enxergar os números e compreender o que eles estão dizendo.
Os números dizem que o mercado de trabalho continua positivo. Mas também dizem que está ficando mais difícil criar empregos. E quando essa dificuldade aparece simultaneamente à perda de vagas no comércio, ao aumento das recuperações judiciais, ao crédito caro, ao endividamento e à redução das expectativas de crescimento, acende-se uma luz amarela.
O Brasil não precisa apenas de políticas capazes de preservar o emprego existente. Precisa criar condições para que as empresas voltem a contratar, investir e crescer. Isso exige inflação sob controle, responsabilidade fiscal, crédito acessível e um ambiente de negócios que ofereça previsibilidade.
Porque emprego não nasce de discurso, decreto ou estatística comemorativa. Emprego nasce quando alguém decide abrir uma loja, ampliar uma fábrica, comprar uma máquina, aumentar a produção ou apostar que amanhã venderá mais do que hoje.
Quando essa confiança desaparece, a primeira coisa que costuma ser adiada é a contratação. E o Caged de julho pode estar mostrando justamente o começo desse adiamento.