Um recorte do Brasil real
Em uma eleição, a disputa pelo poder é também um show de retórica. Cada candidato escolhe os números que lhe convêm, amplia os sinais favoráveis, relativiza os adversos e tenta apresentar ao eleitor um país que, muitas vezes, existe apenas parcialmente. O governo exibe aquilo que chama de avanços. A oposição coloca o dedo nas feridas. Um mostra a fotografia mais bonita. O outro, a mais sombria. Mas o Brasil real não cabe inteiro na propaganda de campanha.
E esta deveria ser a pergunta central da eleição de 2026: qual é, afinal, o Brasil real? É o Brasil apresentado pelo candidato à reeleição, onde a economia resiste, o emprego cresce, a renda avança e as contas públicas caminham para a normalidade? Ou é o Brasil descrito pela oposição, marcado por famílias endividadas, empresas sufocadas, juros elevados, dívida pública crescente e um Estado cada vez mais pressionado por despesas que não consegue conter?
Os fatos, porém, são reais. Dados divulgados pelo Banco Central mostram que a inadimplência atingiu patamares recordes no crédito livre. Em julho, chegou ao maior nível da série iniciada em 2011 entre as pessoas físicas. O endividamento das famílias permanece elevado e o comprometimento da renda com dívidas continua crescendo. São números que desmontam qualquer tentativa de vender a ideia de uma prosperidade generalizada. Uma economia não pode ser considerada plenamente saudável quando uma parcela tão expressiva de sua população precisa correr atrás de crédito para sobreviver ao custo da vida.
No mercado de trabalho, o Brasil criou 58.568 vagas formais. Foi o pior resultado para o mês desde o início da atual série do Novo Caged e ficou muito abaixo do desempenho de julho do ano passado e das expectativas do mercado. Emprego não é apenas uma questão de saldo positivo ou negativo. É preciso observar a qualidade, a velocidade e a sustentabilidade da criação de postos. Quando o ritmo perde força, o sinal merece atenção.
Também não pode ser ignorado o número crescente de empresas que buscam proteção judicial ou acordos para reorganizar dívidas. Recuperações extrajudiciais, que eram exceção, passaram a alcançar grupos de diferentes setores. A pressão dos juros elevados, o crédito caro e a deterioração das margens ajudam a explicar um ambiente em que até grandes corporações procuram renegociar obrigações bilionárias. O problema não é apenas de gestão empresarial. Quando os pedidos se espalham por segmentos distintos, o diagnóstico precisa ser mais profundo.
Há ainda a conta do Estado. Enquanto a arrecadação cresce, a dívida pública continua sendo um dos principais fantasmas da economia brasileira. Em julho, a dívida bruta chegou a 81,9% do Produto Interno Bruto, e o próprio Tesouro elevou a previsão da parcela da dívida vinculada a juros flutuantes. Em outras palavras: um país que já carrega uma dívida pesada permanece vulnerável ao custo do dinheiro que precisa pagar para financiá-la. Arrecadar mais não resolve automaticamente o problema quando as despesas crescem, os juros consomem recursos e a máquina pública exige cada vez mais. E ísso é sim preocupante!
O desafio se torna ainda mais grave diante da Previdência. O Brasil envelhece rapidamente. Menos trabalhadores ativos terão de sustentar, proporcionalmente, um contingente maior de aposentados e pensionistas. Não há ideologia capaz de revogar a demografia. A longevidade é uma conquista, mas exige financiamento. E discutir Previdência sem discutir formalização do trabalho, produtividade e crescimento econômico é apenas adiar uma conta que chegará com juros.
O orçamento de 2027 já demonstra a estreiteza desse caminho. Mesmo com a previsão oficial de melhora fiscal, o espaço para despesas discricionárias e investimentos continua submetido a uma disputa feroz com as obrigações permanentes do Estado. O problema brasileiro não é somente arrecadar. É decidir o que fazer com o que se arrecada e reconhecer que recursos públicos não são infinitos.
É justamente por isso que o eleitor deve desconfiar do governo quando transforma um indicador favorável em prova de que todos os problemas foram resolvidos. O Brasil real está entre o triunfalismo oficial e o catastrofismo eleitoral. É um país que produz riqueza, mas convive com endividamento recorde. Que ainda cria empregos, mas em ritmo menor. Que arrecada muito, mas deve cada vez mais. Que envelhece antes de resolver seus problemas de produtividade. Que mantém juros elevados porque ainda não conseguiu oferecer segurança suficiente contra a inflação e o descontrole fiscal. Que cobra impostos de país rico, mas frequentemente entrega serviços de país em desenvolvimento.
A eleição deveria servir para confrontar projetos, e não versões convenientes da realidade. O eleitor não precisa de candidatos que lhe mostrem apenas o Brasil que desejam administrar. Precisa de candidatos capazes de olhar para o Brasil que existe. Porque, depois que os palanques são desmontados, os jingles silenciam e as urnas são guardadas, a propaganda desaparece. Mas as dívidas ficam. Os juros ficam. A inflação fica. O desemprego, quando chega, fica. E a conta pública, como sempre, acaba chegando. O Brasil real não é o da propaganda. É o da conta que sobra para o cidadão pagar.