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Editorial

A diferença entre o que e o como

26 de Agosto de 2026 às 20:45
Cruzeiro do Sul [email protected]
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Nem sempre é o que. Mas quase sempre é o como. A frase parece simples, mas talvez explique boa parte do Brasil contemporâneo. Na política, na economia e na administração pública, o debate nacional tornou-se viciado na discussão permanente sobre o que fazer, enquanto uma pergunta igualmente — ou até mais — importante costuma ficar em segundo plano: como fazer?

É preciso aumentar a arrecadação? Talvez. O Estado precisa combater a pobreza? Evidentemente. É necessário investir em infraestrutura? Sem dúvida. O País precisa estimular a indústria, proteger os mais vulneráveis, melhorar os serviços públicos, equilibrar as contas e gerar empregos? Tudo isso parece razoável. O problema brasileiro, muitas vezes, não está necessariamente no objetivo anunciado. Está no caminho escolhido para chegar até ele.

É o como que transforma uma boa intenção em política pública eficiente ou em fracasso retumbante. É o como que converte um investimento em desenvolvimento ou em desperdício. É o como que faz de uma política social um instrumento de emancipação ou de dependência permanente. É o como que pode transformar um ajuste fiscal necessário em medida responsável ou em mera transferência de sacrifícios para quem já suporta o peso maior da máquina pública.

Na economia brasileira, esse dilema está diante de todos. O governo pode afirmar que precisa arrecadar mais. Mas como? Criando novas cobranças enquanto mantém despesas crescentes? Aumentando impostos sem atacar privilégios, desperdícios e ineficiências? Procurando novas fontes de receita antes de demonstrar capacidade para administrar melhor os recursos que já recebe? O objetivo — melhorar a situação fiscal — pode ser legítimo. O método é que precisa ser questionado.

O mesmo vale para o crescimento econômico. Não há controvérsia sobre a necessidade de o Brasil crescer. A pergunta é como crescer?. Com expansão permanente dos gastos públicos? Com crédito artificialmente estimulado? Com benefícios setoriais distribuídos ao sabor das conveniências políticas? Ou com reformas que aumentem produtividade, segurança jurídica, investimento e competitividade?

O Brasil parece ter desenvolvido uma curiosa tolerância aos fins e uma perigosa negligência em relação aos meios. Aceita-se a promessa porque o objetivo soa nobre. Questionar o método passa a ser interpretado, muitas vezes, como oposição ao próprio objetivo. Se alguém critica a forma de combater a pobreza, é acusado de ser contra os pobres. Se questiona a eficiência do gasto público, é rotulado como inimigo do Estado. Se cobra responsabilidade fiscal, dizem que não se preocupa com os mais vulneráveis. Esse raciocínio é intelectualmente pobre e politicamente conveniente.

É perfeitamente possível defender a redução da desigualdade e exigir responsabilidade na execução das políticas públicas. É possível apoiar investimentos estatais e cobrar transparência, metas e resultados. É possível defender programas sociais e, ao mesmo tempo, perguntar se eles estão efetivamente criando caminhos para a autonomia das famílias. Afinal, boas causas não santificam maus métodos.

Na política, o problema é semelhante. Todos defendem a democracia — até o momento em que as regras produzem resultados desfavoráveis. Todos afirmam defender instituições — desde que as instituições concordem com suas posições. Todos falam em diálogo — desde que não seja preciso dialogar com quem pensa diferente. Todos condenam a desinformação — mas muitos não hesitam em distorcer fatos quando isso interessa eleitoralmente. Novamente, não é apenas o que se defende. É como se defende.

O ambiente político brasileiro tornou-se especialista em justificar os meios pela suposta grandeza dos fins. É em nome da democracia que se exagera. Em nome da justiça social que se tolera a irresponsabilidade. Em nome da governabilidade que se distribuem cargos e privilégios. Em nome da estabilidade que se adiam decisões inevitáveis. Em nome do povo que se fazem políticas cujo principal efeito é ampliar o poder de quem governa.

A história deveria ter ensinado que intenções declaradas não são certificados de competência. O cidadão não deveria se contentar em ouvir que determinado governo vai construir, investir, proteger, transformar ou incluir. A pergunta seguinte precisa ser inevitável: como? Com qual dinheiro? Segundo quais prioridades? Com quais metas? Quem será responsável? Qual será o custo? Como se medirão os resultados?

Essa cultura de cobrança ainda é insuficiente no Brasil. O debate político privilegia anúncios, números grandiosos e slogans de efeito. Discute-se o tamanho da promessa, mas pouco a engenharia necessária para cumpri-la. E, quando a conta chega, a responsabilidade costuma ser transferida para o governo anterior, para o cenário internacional, para o Banco Central, para o Congresso, para empresários ou para qualquer outro personagem disponível.

O como é menos sedutor do que o anúncio. Não rende sempre manchetes grandiosas. Exige planejamento, competência, disciplina e, sobretudo, disposição para enfrentar interesses. Mas é exatamente ali que se distingue a política séria da propaganda. O Brasil não precisa apenas de mais promessas sobre o que será feito. Precisa de respostas convincentes sobre como será feito.

Porque, no fim, os objetivos podem ser os mais nobres, as palavras podem ser as mais bonitas e as intenções podem parecer irrepreensíveis. Mas governos não são avaliados apenas pelo que anunciam desejar. São avaliados pelos resultados que produzem. E entre a promessa e o resultado existe uma palavra decisiva. "Como".