Editorial
Barbárie e estupidez
Há crimes que, pela brutalidade, chocam. Outros, pela estupidez que os antecede, deveriam nos obrigar a olhar com ainda mais atenção para a sociedade que estamos construindo. A morte de Cláudio Rafael Landeiro, no Rio de Janeiro, pertence às duas categorias.
Acusado de ter roubado uma bicicleta que, na verdade, pertencia à sua irmã, ele foi cercado e espancado por um grupo de pessoas em Copacabana. Socos, chutes, pauladas. Quatro envolvidos foram identificados na investigação, mas fala-se que o número pode chegar a oito. A violência foi tamanha que Cláudio não resistiu aos ferimentos. Bastou uma suspeita. Bastou alguém acreditar que sabia quem era o culpado. Bastou que a palavra "ladrão" substituísse qualquer necessidade de prova. O resto foi a velha e vergonhosa cerimônia da barbárie: primeiro acusa-se, depois agride-se e, somente quando o sangue já foi derramado, descobre-se que a vítima era inocente.
O Brasil conhece bem esse roteiro. E talvez seja justamente essa familiaridade que torne tudo ainda mais preocupante.
Em maio de 2014, em Guarujá, Fabiane Maria de Jesus, dona de casa de 33 anos, casada e mãe de duas crianças, foi espancada e morta por moradores do próprio bairro onde vivia. Seu crime? Nenhum. Ela foi confundida com uma suposta sequestradora de crianças depois que um retrato falado e boatos passaram a circular nas redes sociais. A história que inflamou a população era falsa. Não havia a criminosa imaginada pela multidão, não havia os sequestros que alimentavam o pânico. Mas, quando a verdade conseguiu alcançar o bairro, já era tarde demais para Fabiane.
Doze anos se passaram. As redes sociais mudaram, multiplicaram-se as plataformas, aceleraram-se os algoritmos e aperfeiçoaram-se os mecanismos de circulação de informações. O ser humano, porém, parece não ter acompanhado a tecnologia com a mesma velocidade. Pelo contrário. Hoje, uma suspeita pode atravessar o país em segundos. Uma imagem fora de contexto pode destruir uma reputação antes que alguém faça uma pergunta. Um vídeo editado pode transformar inocentes em vilões. E uma mentira, quando encontra uma sociedade predisposta à indignação, pode produzir consequências que nenhuma retratação é capaz de reparar.
É preciso dizer com absoluta clareza: não existe justificativa para a justiça com as próprias mãos. Não existe "mas". Não existe circunstância que transforme uma multidão enfurecida em tribunal legítimo. Não existe suspeita que autorize a execução de uma sentença na calçada.
Quem agride um suposto criminoso não está fazendo justiça. Está cometendo um crime. Quem participa de um linchamento não está defendendo a sociedade. Está ajudando a destruí-la. E quem aplaude, filma, compartilha ou incentiva precisa compreender que também alimenta um ambiente em que a razão cede lugar ao instinto, e o direito à defesa passa a ser tratado como privilégio dispensável.
É evidente que a revolta contra a criminalidade tem razões reais. O brasileiro convive com violência, roubos, medo e, muitas vezes, com a frustrante sensação de impunidade. A lentidão do Estado, a precariedade da segurança pública e a desconfiança nas instituições criam um terreno fértil para o discurso fácil do "bandido bom é bandido morto" e do "se a polícia não resolve, a população resolve".
Mas é precisamente nesse ponto que mora o perigo. Uma sociedade não pode abandonar as regras porque o Estado falha em cumpri-las adequadamente. Se cada cidadão se atribuir o direito de investigar, julgar e punir, ninguém estará seguro. Hoje, a vítima é o suposto ladrão. Amanhã, pode ser o vizinho confundido com um assaltante, a mulher parecida com alguém procurado, o jovem que estava no lugar errado, o inocente cuja fotografia circulou acompanhada de uma mentira.
A justiça não existe para proteger apenas os inocentes. Ela existe, sobretudo, para impedir que alguém seja condenado antes de provar-se culpado. Esse princípio é a fronteira que separa a civilização da desordem.
As redes sociais agravaram perigosamente essa realidade. Elas oferecem palco permanente para a indignação, recompensa para o escândalo e velocidade para a mentira. Em muitos ambientes digitais, não se debate para compreender, mas para vencer. Não se pergunta, acusa-se. Não se verifica, compartilha-se. Não se pondera, cancela-se. A raiva tornou-se combustível de audiência, e o ódio, muitas vezes, uma forma de pertencimento.
Nesse ambiente, cada pessoa corre o risco de se tornar simultaneamente repórter, investigador, promotor, juiz e carrasco — tudo sem conhecimento dos fatos e sem qualquer responsabilidade proporcional ao dano que pode provocar.
O caso de Cláudio Rafael Landeiro deveria, portanto, provocar mais do que indignação passageira. Deveria provocar reflexão. O mesmo vale para a memória de Fabiane Maria de Jesus. Ambos representam, em circunstâncias diferentes, uma advertência brutal: quando a sociedade decide que suspeitar é suficiente para condenar, a inocência deixa de ser proteção.
Não podemos normalizar os justiceiros. Não podemos romantizar o linchamento como reação espontânea de uma população cansada. Não podemos aceitar que a barbárie seja apresentada como resposta à barbárie.
O Brasil precisa de mais justiça, não de mais vingança. Precisa de instituições eficientes, não de tribunais improvisados. Precisa de cidadãos vigilantes, sim, mas vigilantes contra o crime — e também contra a mentira, a manipulação e a própria tentação de transformar ódio em sentença.
Porque, quando uma multidão ergue um porrete convencida de que pode substituir a lei, o primeiro golpe pode atingir qualquer um. Inclusive um inocente. Como Cláudio. Como Fabiane. E, então, já não haverá justiça alguma a ser comemorada. Apenas mais uma tragédia para lamentar.