Editorial
E o eleitor?
Neste domingo à noite, a televisão brasileira repete um ritual que, ao longo de quase quatro décadas, passou a simbolizar a largada da corrida presidencial: a Band promove o primeiro debate entre os candidatos ao Palácio do Planalto. O encontro está marcado para as 20h e deveria representar uma oportunidade para que o eleitor começasse a comparar ideias, conhecer propostas e observar, frente a frente, aqueles que pretendem comandar o Brasil, um país de dimensões continentais e problemas igualmente gigantescos. Mas, antes mesmo de os primeiros púlpitos serem ocupados, o debate já chega esvaziado. E isso deveria incomodar, sobretudo, quem tem o voto nas mãos.
Luiz Inácio Lula da Silva decidiu não participar. Flávio Bolsonaro, por sua vez, perdeu o interesse em comparecer justamente porque Lula não estará no estúdio. Pablo Marçal também ficou fora, em razão das restrições impostas pela Justiça Eleitoral enquanto sua situação permanece sob análise. A Band manterá o encontro, como anunciou, com os demais convidados e com os púlpitos vazios daqueles que optaram por não comparecer.
Mas os púlpitos vazios são mais do que um detalhe de cenário. Eles representam uma pergunta que a campanha eleitoral deveria responder: afinal, para quem é a eleição? Não é difícil compreender a lógica dos estrategistas. Candidatos calculam riscos, medem pesquisas, avaliam adversários, tentam evitar ataques coordenados e procuram administrar a própria imagem. A política moderna, especialmente na era das redes sociais, transformou qualquer frase mal colocada em vídeo viral, qualquer tropeço em munição e qualquer confronto em oportunidade para campanhas adversárias. Tudo isso faz parte do jogo. Estratégia eleitoral existe e continuará existindo.
O problema começa quando a estratégia passa a valer mais do que o eleitor. Quem deseja ser presidente da República não está concorrendo a um concurso de popularidade nem disputando apenas o controle de uma máquina partidária. Está se apresentando para administrar um país que precisa enfrentar desafios econômicos, sociais, fiscais, ambientais e institucionais. Está pedindo ao cidadão o direito de tomar decisões que afetarão milhões de brasileiros. E, se pretende receber essa procuração, precisa aceitar o confronto de ideias.
Debate não é favor prestado à emissora. Não é prêmio para quem comparece. Muito menos deveria ser tratado como um risco dispensável quando os cálculos de campanha apontam que há pouco a ganhar. O debate é, antes de tudo, uma prestação de contas antecipada. É o momento em que o candidato precisa defender suas posições sem a proteção de um vídeo previamente editado, sem a seleção conveniente de perguntas e sem o conforto de uma plateia formada apenas por simpatizantes.
É verdade que os debates brasileiros muitas vezes descambaram para o espetáculo, para a provocação pessoal e para o famoso corte destinado às redes sociais. O próprio Lula criticou o baixo nível de parte desses encontros e afirmou não querer participar apenas para "ouvir bobagem". Mas a deterioração de alguns debates não pode servir de justificativa para abandonar o instrumento. Se o nível caiu, talvez seja justamente responsabilidade dos principais candidatos ajudar a elevá-lo.
É fácil reclamar da qualidade da política brasileira. Mais difícil é contribuir para que ela melhore. Quando os candidatos com maior peso eleitoral se afastam do confronto público, a mensagem transmitida é preocupante: participamos quando as condições são favoráveis; debatemos quando o adversário que nos interessa está presente; aceitamos perguntas quando o risco parece calculado.
Só que o eleitor não deveria aceitar essa lógica com naturalidade. O Brasil entra em uma eleição decisiva. O resultado das urnas definirá quem conduzirá o País nos quatro próximos anos, em meio a uma economia pressionada, dificuldades nas contas públicas, demandas crescentes por saúde, segurança e educação e um ambiente internacional cada vez mais instável. Não é pouca coisa. E é justamente por isso que o eleitor precisa exigir mais dos candidatos.
Não basta aparecer em palanques. Não basta produzir peças sofisticadas de propaganda. Não basta publicar vídeos bem ensaiados. Não basta reunir multidões ou liderar pesquisas. Quem quer governar precisa estar disposto a explicar o que pretende fazer, ouvir críticas e responder a perguntas que talvez não tenha escolhido.
O eleitor brasileiro, muitas vezes lembrado apenas como alvo de pesquisas, deveria ser recolocado no centro da campanha. Afinal, não são os marqueteiros que votam. Não são os coordenadores de campanha que entregam o mandato. Não são os estrategistas que concedem, pelo período de quatro anos, a responsabilidade de governar o País. É o cidadão.
Por isso, talvez o debate deste domingo não esteja apenas nos estúdios da Band. Ele precisa acontecer também dentro de cada eleitor. Que tipo de postura devemos esperar de quem pede nosso voto? Estamos escolhendo candidatos ou consumidores de pesquisas? Líderes dispostos a defender suas convicções ou personagens que só entram em cena quando o roteiro lhes parece seguro?
O futuro do Brasil está colocado à mesa. E ele é importante demais para ser tratado como peça de estratégia individual. Antes de perguntar quem ganha com a ausência de um ou de outro, convém fazer uma pergunta mais essencial: quem perde quando os candidatos deixam de falar diretamente ao eleitor? Talvez a resposta esteja justamente nos púlpitos vazios. Ou quem sabe até à noite alguém mude de ideia.