Editorial
Futuros convergentes
Há notícias que, vistas isoladamente, parecem pertencer a mundos diferentes. Uma fala de tecnologia, indústria, biocombustíveis e inovação. A outra, de ferrovia, transporte coletivo, obras públicas e mais um adiamento. Colocadas lado a lado, porém, elas revelam uma questão comum e que deveria estar no centro das prioridades de Sorocaba: como a cidade e região vão se movimentar - física, econômica e tecnologicamente - nas próximas décadas.
Nesta semana, a confirmação de que a Toyota construirá em Sorocaba um Centro de Desenvolvimento de Tecnologias para Biocombustíveis, com financiamento de R$ 123,6 milhões do BNDES, trouxe uma notícia especialmente relevante. O empreendimento terá laboratório, equipamentos e uma nova pista de testes e ampliará as atividades brasileiras de pesquisa, desenvolvimento, calibração e validação de tecnologias para veículos híbridos flex.
É mais do que uma expansão industrial. É a afirmação de que Sorocaba pode participar não apenas da produção, mas da criação do conhecimento que definirá parte da mobilidade do futuro. A combinação entre eletrificação e etanol, explorada pela Toyota, procura responder a uma característica brasileira: um país que precisa reduzir emissões sem simplesmente importar modelos tecnológicos concebidos para realidades energéticas e econômicas diferentes da nossa.
Mas, na mesma semana em que essa perspectiva de futuro ganhou força, veio também uma notícia que remete a um problema antigo: o Trem Intercidades entre Sorocaba e São Paulo terá de esperar mais. O edital de concessão, antes previsto para este ano, foi transferido para o primeiro semestre de 2027. A previsão oficial de operação continua em 2031, mas cada mudança de cronograma alimenta uma pergunta inevitável: quanto tempo ainda a população terá de esperar por uma alternativa ferroviária capaz de transformar sua relação com a capital.
É importante reconhecer que projetos dessa dimensão exigem estudos, modelagens, consultas e segurança jurídica. O governo paulista afirma que o adiamento decorre do aprimoramento técnico e da análise das contribuições recebidas durante o processo de consulta pública. Não se trata, portanto, de defender pressa irresponsável. O que precisa ser cobrado é previsibilidade, transparência e compromisso com prazos que não se transformem, sucessivamente, em novas promessas.
O contraste entre as duas notícias é justamente o que deveria provocar reflexão. De um lado, R$ 123,6 milhões são mobilizados para produzir inovação em uma área estratégica da mobilidade. De outro, um projeto de infraestrutura estimado em R$ 12 bilhões, ao longo de 30 anos de concessão, ainda enfrenta ajustes para chegar à etapa decisiva da contratação.
Não são projetos concorrentes. Ao contrário: deveriam ser compreendidos como partes de uma mesma agenda.
Mobilidade não é apenas escolher entre gasolina, etanol, eletricidade ou hidrogênio. Tampouco significa somente construir estradas, viadutos, corredores de ônibus ou ferrovias. Mobilidade é permitir que pessoas, mercadorias, conhecimento e oportunidades circulem com eficiência. É uma questão econômica, ambiental, urbana e social.
Nesse sentido, Sorocaba vive uma oportunidade que não deveria desperdiçar. A cidade já abriga um importante polo industrial e tecnológico e está inserida em uma região metropolitana que cresce e mantém fortes relações econômicas com São Paulo. O próprio projeto do TIC Oeste reconhece a existência de uma mobilidade saturada e de uma demanda reprimida: o trajeto rodoviário pode consumir cerca de duas horas, enquanto o trem pretende fazer a ligação em aproximadamente 60 minutos. A estimativa é atender mais de 50 mil passageiros por dia útil.
Um centro de pesquisa capaz de desenvolver tecnologias para a mobilidade individual e um sistema ferroviário capaz de ampliar a mobilidade coletiva podem, portanto, representar duas faces de uma mesma transformação. Um aposta no conhecimento e na inovação; o outro, na infraestrutura e na integração territorial.
A pergunta que Sorocaba deveria fazer é se saberá conectar essas duas pontas.
Não basta receber investimentos. É preciso construir um ambiente capaz de transformar investimento em desenvolvimento. Isso significa aproximar indústria, universidades, centros de pesquisa, poder público, fornecedores e sociedade. Significa formar profissionais para as novas tecnologias e, simultaneamente, planejar uma cidade na qual o automóvel não seja a única resposta possível para quem precisa se deslocar.
Também significa compreender que o Trem Intercidades não deve ser tratado como uma obra isolada. Ele precisa estar articulado ao transporte urbano, às conexões regionais, ao futuro VLT e ao planejamento do crescimento de Sorocaba.
Há, portanto, uma ironia nas duas notícias. Enquanto a tecnologia avança em velocidade acelerada, a infraestrutura pública ainda caminha em ritmo mais lento. O desafio está justamente em fazer com que essas velocidades se encontrem.
Sorocaba não precisa escolher entre ser uma cidade da indústria automobilística ou uma cidade dos trilhos. Precisa ser uma cidade que pense a mobilidade de forma ampla, moderna e integrada. Pode produzir veículos mais eficientes, pesquisar combustíveis de menor impacto e, ao mesmo tempo, oferecer ao cidadão a possibilidade de deixar o carro em casa para viajar de trem.
O futuro da mobilidade não será construído por uma única tecnologia. Será resultado da combinação inteligente de várias soluções. E talvez seja esse o principal recado que essas duas notícias deixam para Sorocaba: inovação não pode significar apenas aquilo que acontece dentro dos laboratórios, assim como infraestrutura não pode se resumir ao concreto, ao aço e aos trilhos.
A verdadeira inovação acontece quando uma cidade consegue transformar conhecimento em qualidade de vida.
Por isso, mais do que comemorar um novo centro tecnológico ou lamentar mais um adiamento ferroviário, Sorocaba deveria aproveitar o momento para discutir seu projeto de futuro. Que cidade quer ser? Como pretende crescer? Como seus moradores vão trabalhar, estudar e circular? E, sobretudo, quanto está disposta a investir hoje para não descobrir amanhã que cresceu sem planejar como se mover?
Entre o laboratório da Toyota e os trilhos que ainda aguardam seu caminho até São Paulo existe uma mesma questão. Sorocaba já está sendo chamada a pensar a mobilidade do futuro. O que falta é garantir que o futuro, desta vez, não chegue sempre atrasado.