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Editorial

Recado aos presidenciáveis

20 de Agosto de 2026 às 20:48
Cruzeiro do Sul [email protected]
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Enquanto os candidatos à Presidência da República cruzam o País a bordo de jatinhos em busca de votos, amparados em estrutura milionária, multiplicando promessas e disputando a atenção do eleitor, uma transformação profunda avança silenciosamente sobre o Brasil. Trata-se de uma mudança que terá consequências sobre a economia, a Previdência, a saúde pública, o mercado de trabalho e a própria organização das famílias: o País envelhece rapidamente. Viver mais é, evidentemente, uma conquista da humanidade. O aumento da expectativa de vida representa o resultado de avanços na medicina, nas condições sanitárias, no acesso a tratamentos e na melhoria, ainda que desigual, das condições de vida. O problema não está em uma população que vive mais. O problema está em um País que envelhece sem demonstrar estar suficientemente preparado para as consequências dessa mudança.

Ao mesmo tempo em que aumenta o número de idosos, diminui o ritmo de crescimento da população jovem. As famílias têm menos filhos, a taxa de fecundidade caiu de forma expressiva nas últimas décadas e a estrutura demográfica brasileira se transforma. Durante muito tempo, o Brasil foi conhecido como um País jovem. Essa realidade começa a ficar para trás.

Essa questão deveria ocupar espaço de destaque no debate presidencial. Afinal, quem governará o Brasil nos próximos anos terá de lidar com uma equação cada vez mais complexa: uma população idosa crescente exigirá mais serviços de saúde, mais cuidados especializados e maior proteção social, enquanto a proporção de jovens e adultos em idade de trabalhar tende a diminuir. Isso significa que será necessário discutir, com seriedade, como financiar o futuro. A Previdência já enfrenta desafios conhecidos. O Sistema Único de Saúde será cada vez mais demandado por tratamentos relacionados às doenças crônicas e ao envelhecimento. As famílias terão de cuidar por mais tempo de pais e avós, muitas vezes sem estrutura financeira ou serviços públicos adequados para essa tarefa.

Mas há outro lado dessa discussão que não pode ser ignorado: o Brasil também precisa olhar urgentemente para seus jovens. Não basta preocupar-se com quem envelhece se o País continua incapaz de criar perspectivas para quem está começando a vida. Milhões de jovens enfrentam dificuldades para concluir uma formação de qualidade, ingressar no mercado de trabalho, conquistar estabilidade financeira e construir autonomia. Outros encontram empregos precários, salários insuficientes e poucas oportunidades de crescimento profissional. É justamente aí que está uma das grandes contradições brasileiras. O País precisa de uma juventude mais preparada, produtiva e economicamente ativa para enfrentar os desafios das próximas décadas, mas ainda oferece a muitos jovens um caminho marcado pela insegurança, pela informalidade e pela falta de perspectivas.

Não se trata apenas de criar empregos a qualquer custo. É preciso discutir educação de qualidade, formação profissional, inovação, produtividade, empreendedorismo, ciência e tecnologia. É necessário criar condições para que os jovens possam trabalhar, crescer, formar patrimônio e construir seus próprios projetos de vida.

A ausência dessas perspectivas também tem reflexos demográficos. Jovens que não conseguem estabilidade financeira naturalmente adiam decisões importantes, como sair da casa dos pais, casar ou ter filhos. A queda da natalidade não pode ser analisada apenas como uma escolha individual. Ela também está relacionada às condições econômicas e sociais oferecidas a uma geração que, em muitos casos, demora cada vez mais para alcançar independência.

Os candidatos à Presidência deveriam, portanto, ser questionados sobre as duas pontas dessa mesma equação. Qual é o plano para cuidar adequadamente de uma população que envelhece? E, ao mesmo tempo, qual é o projeto para garantir oportunidades à geração que precisará sustentar a economia e financiar grande parte dessa estrutura social no futuro?

Não bastam promessas genéricas de criação de empregos ou anúncios de novos programas sociais. Tampouco será suficiente repetir fórmulas já conhecidas e adiar decisões difíceis. O envelhecimento da população exige planejamento de longo prazo, algo raro em uma política frequentemente dominada pelo calendário eleitoral e pela necessidade de apresentar resultados imediatos.

O Brasil precisa abandonar a ilusão de que todos os problemas podem ser resolvidos durante um mandato. Algumas questões ultrapassam governos e exigem políticas permanentes, capazes de sobreviver às disputas partidárias. O futuro demográfico do País é uma delas. A discussão deveria começar agora, em plena campanha eleitoral. Os brasileiros precisam saber como os candidatos pretendem preparar o País para uma realidade que já está em curso. Quem pretende governar o Brasil não pode olhar apenas para os problemas de hoje. Tem a obrigação de explicar como pretende enfrentar os desafios que se aproximam.

Um País que envelhece sem planejamento corre o risco de ampliar suas dificuldades sociais e econômicas. Mas um País que, além de envelhecer, abandona seus jovens à falta de oportunidades prepara uma crise ainda maior. O Brasil precisa começar a pensar nas próximas décadas. Precisa cuidar melhor de quem já construiu sua história, mas também oferecer esperança concreta a quem ainda está começando a escrevê-la. Afinal, não haverá sistema previdenciário sustentável, economia dinâmica ou proteção social eficiente se o País não conseguir preparar e estimular aqueles que serão responsáveis pelo Brasil de amanhã.

Esta deveria ser uma preocupação central dos candidatos à Presidência. Porque a eleição passará, os discursos terminarão e os palanques serão desmontados. O envelhecimento do Brasil, porém, continuará. E a conta das decisões que não forem tomadas agora será inevitavelmente apresentada às próximas gerações.