Editorial
O Brasil real
O Brasil acaba de receber um daqueles diagnósticos que deveriam provocar muito mais do que discursos políticos, comemorações estatísticas ou disputas ideológicas. O novo Relatório do Observatório Brasileiro das Desigualdades mostra que o País avançou em diversos indicadores sociais, mas que continua incapaz de enfrentar uma de suas mais antigas e vergonhosas características: a concentração de renda e de oportunidades. É preciso reconhecer os avanços. Seria intelectualmente desonesto ignorá-los. O relatório aponta melhora em 71% dos indicadores analisados, com redução do desemprego, aumento do rendimento médio, diminuição da pobreza e avanço na segurança alimentar. A insegurança alimentar moderada ou grave caiu de 9,5% para 7,7% entre 2023 e 2024. O rendimento médio real chegou a R$ 3.376 em 2025, crescimento de 5,3% em relação ao ano anterior.
Mas é justamente quando se olha para além da média que aparece o Brasil real. Enquanto os números gerais permitem comemoração, a distribuição da riqueza continua contando uma história muito diferente. O rendimento médio do 1% mais rico da população tornou-se 31,5 vezes maior que o rendimento dos 50% mais pobres. E o dado mais incômodo é que essa distância aumentou em relação a 2024. O crescimento da renda, portanto, não significou necessariamente uma distribuição mais equilibrada dos frutos desse crescimento.
E aqui está uma pergunta que o País precisa ter coragem de fazer: como é possível ampliar programas sociais, transferir bilhões de reais às famílias vulneráveis, reduzir a fome e, ainda assim, observar a concentração de renda permanecer tão resistente? Não há uma resposta simples. E talvez seja justamente essa a maior lição do relatório.
O governo federal destinou cerca de R$ 158,6 bilhões ao Bolsa Família no Orçamento de 2026. Em julho, quase 19,3 milhões de famílias recebiam o benefício, com repasse mensal superior a R$ 13 bilhões. O Cadastro Único, por sua vez, reunia mais de 97 milhões de pessoas, das quais 46,5 milhões pertenciam a famílias classificadas em situação de pobreza. São números gigantescos e revelam a dimensão do Estado social brasileiro e a dimensão da própria pobreza.
O Bolsa Família é necessário, assim como a transferência de renda. Combater a fome é obrigação de qualquer governo que pretenda se apresentar como civilizado. O erro estaria em transformar essas políticas em uma espécie de prova definitiva de que a desigualdade está sendo vencida. Porque não está!
Transferir renda é uma coisa. Construir autonomia econômica é outra. Uma família que recebe dinheiro para comprar comida está em situação melhor do que aquela que não tem sequer o suficiente para se alimentar. Mas isso não significa que tenha deixado de ser vulnerável. Se seus filhos continuam frequentando escolas de baixa qualidade, se não há acesso adequado à saúde, se faltam creches, saneamento, transporte, qualificação profissional e empregos capazes de garantir ascensão social, a transferência de renda funciona como proteção contra a miséria, mas não necessariamente como caminho para a emancipação.
É preciso distinguir combate à pobreza de combate à desigualdade. A pobreza pode diminuir sem que a distância entre ricos e pobres seja significativamente reduzida. É exatamente isso que os números mais recentes ajudam a enxergar.
O Brasil consegue colocar mais dinheiro no bolso de quem está na base da pirâmide, mas continua tendo enormes dificuldades para impedir que uma parcela da sociedade concentre uma fatia desproporcionalmente grande da riqueza. O resultado é uma sociedade em que milhões conseguem sobreviver um pouco melhor, enquanto os extremos continuam separados por uma distância gigantesca.
Não se trata, portanto, de defender o fim dos programas sociais. Trata-se de exigir que eles cumpram uma finalidade maior. O Estado brasileiro não pode se contentar em administrar a pobreza. Precisa criar condições para que ela deixe de ser reproduzida de geração em geração. Essa diferença é fundamental.
Quando um governo anuncia bilhões destinados à proteção social, é preciso perguntar não apenas quantas pessoas receberam o benefício, mas quantas conseguiram deixar de depender dele porque encontraram emprego, aumentaram sua renda, melhoraram sua qualificação ou tiveram acesso a uma educação capaz de mudar suas perspectivas. Esse deveria ser um dos principais indicadores de sucesso de uma política social.
O próprio relatório mostra que a desigualdade brasileira não é apenas econômica. Ela atravessa gênero, raça e território. Mulheres continuam recebendo menos que homens, enquanto a situação das mulheres negras é ainda mais grave. O rendimento médio delas, de R$ 2.184, representa 57,8% do rendimento dos homens não negros, que alcança R$ 5.172. A geografia também pesa. O Norte apresenta índices de insegurança alimentar muito superiores aos do Sul. No Norte, 14,9% da população vive em domicílios com insegurança alimentar moderada ou grave; no Sul, o índice é de 3,7%. O Brasil, portanto, não possui uma única desigualdade. Possui várias, sobrepostas e alimentando umas às outras. É nesse ponto que o debate político precisa amadurecer.
A esquerda costuma enxergar a solução principalmente na ampliação das políticas distributivas. A direita frequentemente responde que o caminho está no crescimento econômico, no emprego e na liberdade para empreender. O relatório mostra que nenhuma dessas respostas, isoladamente, é suficiente. É preciso crescer. É preciso distribuir. É preciso educar. É preciso gerar empregos melhores. É preciso melhorar os serviços públicos. É preciso reduzir privilégios e corrigir distorções tributárias. E é preciso fazer tudo isso simultaneamente. Porque não existe justiça social sustentável quando o Estado passa décadas transferindo renda para milhões de pessoas sem conseguir oferecer a elas as condições necessárias para que um dia possam caminhar com as próprias pernas. E também não existe desenvolvimento verdadeiramente inclusivo quando o crescimento econômico aumenta a renda média, mas deixa praticamente intacta a concentração da riqueza.
O dado mais preocupante do relatório não está apenas na existência da desigualdade. O que deveria provocar indignação é sua capacidade de sobrevivência em um país que arrecada trilhões, mantém uma gigantesca estrutura estatal e destina centenas de bilhões de reais a políticas sociais. A pergunta que fica é incômoda, mas inevitável: quanto dinheiro será necessário gastar para finalmente começar a mudar as causas, e não apenas as consequências, da desigualdade brasileira? Se a resposta continuar sendo simplesmente ampliar benefícios, o País poderá até reduzir a fome e a pobreza extrema — conquistas importantes e indispensáveis —, mas continuará administrando uma sociedade profundamente desigual.
Dinheiro público pode aliviar a dor da pobreza. Pode colocar comida na mesa. Pode impedir que uma família caia na miséria. Mas dinheiro, sozinho, não constrói igualdade, pois ela exige educação que funcione, trabalho que remunere dignamente, serviços públicos eficientes, ambiente econômico que permita prosperidade, sistema tributário mais justo e oportunidades que não sejam determinadas pelo CEP, pela cor da pele ou pela condição financeira da família em que uma criança nasceu.
O relatório de 2026 deveria servir para revelar que melhorar a vida dos mais pobres não é a mesma coisa que transformar a estrutura desigual do País. O Brasil já aprendeu a gastar dinheiro para impedir que milhões passem fome. Agora precisa aprender a gastar, investir e governar de maneira que milhões não precisem permanecer pobres. Essa é a diferença entre administrar a desigualdade e vencê-la.