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Conta pesada

11 de Agosto de 2026 às 20:55
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O próximo presidente da República assumirá o governo, em 1º de janeiro de 2027, com uma conta que não poderá ser ignorada, adiada ou maquiada. A dívida pública brasileira atingiu R$ 10,6 trilhões em maio deste ano, o equivalente a 81,1% do Produto Interno Bruto (PIB). E mais preocupante do que o tamanho do número é a direção que ele vem tomando.

A dívida bruta do Governo Geral aumentou 2,4 pontos percentuais do PIB apenas nos cinco primeiros meses de 2026. Segundo o Banco Central, somente em maio, os juros nominais foram responsáveis por uma elevação de 0,9 ponto percentual na relação dívida/PIB, enquanto as emissões líquidas acrescentaram outros 0,4 ponto. O crescimento nominal da economia, por outro lado, ajudou a reduzir a relação em 0,5 ponto.

Não se trata, portanto, de uma questão meramente contábil. A dívida pública está começando a determinar o tamanho do espaço que o próximo governo terá para governar.

É importante, porém, fazer justiça aos números e evitar comparações políticas simplistas. O governo de Jair Bolsonaro terminou 2022 com a dívida bruta em aproximadamente 72% do PIB. O governo Lula recebeu o indicador nesse patamar e, desde então, a trajetória voltou a ser ascendente. O Banco Central registra que a dívida havia atingido cerca de 87% do PIB em 2020, no auge da pandemia, recuando posteriormente até 72% em 2022.

A pandemia, portanto, não foi boa para a dívida. Foi exatamente o contrário. O governo precisou abrir mão temporariamente das regras fiscais para financiar medidas emergenciais de saúde, proteção de renda, preservação de empregos e sobrevivência de empresas. Era uma situação excepcional e exigia uma resposta igualmente excepcional.

O que pode causar confusão é o comportamento posterior da dívida. Depois de explodir em 2020, ela caiu até 2022. Isso não significa que a pandemia tenha produzido um benefício fiscal posteriormente. A redução da relação dívida/PIB ocorreu porque a economia se recuperou, o PIB nominal cresceu fortemente, as despesas extraordinárias foram encerradas e as receitas públicas melhoraram. A dívida caiu como proporção da riqueza produzida pelo País, embora seu valor nominal continuasse elevado.

A comparação com o atual governo precisa partir dessa realidade.

Lula não recebeu uma dívida baixa em termos absolutos. Recebeu, porém, uma relação dívida/PIB que havia recuado depois do choque provocado pela pandemia. Desde então, o problema voltou a se agravar. E, desta vez, não existe uma emergência sanitária de proporções históricas que explique a deterioração. O Brasil enfrenta um problema estrutural: despesas que crescem, dificuldade para produzir resultados fiscais suficientes e uma conta de juros extraordinariamente elevada.

Em 2025, os juros nominais do setor público consolidado alcançaram impressionantes R$ 1,008 trilhão, equivalentes a 7,91% do PIB, segundo o Banco Central.

Esse número deveria provocar uma reflexão muito maior do que provoca.

Quando o governo precisa gastar mais para financiar sua dívida, passa a depender de mais dívida para financiar suas necessidades. Quanto maior o estoque, maior tende a ser a conta de juros. E quanto maior a conta de juros, mais difícil se torna produzir o resultado fiscal necessário para estabilizar o endividamento.

É uma engrenagem perigosa.

E aqui está o ponto central que deveria estar no centro da campanha eleitoral: qual Brasil o próximo presidente receberá e quanto dele estará efetivamente disponível para ser governado?

Um governo não administra apenas aquilo que arrecada. Administra também aquilo que já está comprometido.

O orçamento federal possui despesas obrigatórias, previdência, folha de pagamento, transferências constitucionais e programas sociais. Há ainda o custo de refinanciar e remunerar uma dívida gigantesca. Quanto maior o espaço ocupado por essas despesas, menor a margem para aquilo que pode transformar estruturalmente o País: infraestrutura, saneamento, mobilidade, educação, ciência, tecnologia, segurança e investimentos capazes de aumentar a produtividade da economia.

Não significa que cada real gasto com juros poderia simplesmente ser convertido em uma obra ou serviço público. A realidade orçamentária é mais complexa. Mas significa, sim, que o crescimento persistente da dívida reduz a liberdade de escolha do Estado.

E um governo sem liberdade orçamentária é um governo com capacidade limitada de transformar promessas em realidade.

Essa talvez seja a principal herança econômica que estará sobre a mesa de quem vencer a eleição de outubro.

Não importa se o próximo presidente será de esquerda, centro ou direita. Não importa se defenderá um Estado maior ou menor. Não importa se chegará ao Planalto prometendo mais investimentos, redução de impostos ou ampliação de programas sociais. A matemática chegará antes dele.

E ela não negocia.

O problema brasileiro também não pode ser reduzido à afirmação de que "a dívida está alta". Países desenvolvidos convivem com níveis de endividamento superiores aos brasileiros. A questão é a capacidade de sustentar essa dívida, o custo para financiá-la, a confiança dos investidores e, principalmente, a capacidade de a economia crescer sem que o endividamento cresça ainda mais rapidamente.

O Brasil ainda tem condições de administrar sua dívida. Possui uma economia grande, mercado financeiro desenvolvido, reservas internacionais e capacidade de emitir dívida predominantemente em moeda nacional. Não estamos diante de um país insolvente. Mas estar longe da insolvência não significa estar confortável.

O próprio Banco Central projeta uma trajetória preocupante para os próximos anos. O cenário fiscal considerado pela autoridade monetária aponta para continuidade da elevação da dívida, chegando a patamares próximos de 88% do PIB ao final da década.

É por isso que a discussão sobre a dívida pública não pode esperar o resultado das urnas. O eleitor precisa saber que escolhas feitas hoje produzirão consequências amanhã. Mais gasto sem contrapartida de receita, por exemplo, pode significar mais dívida. Mais dívida pode significar mais juros. Mais juros podem significar menos investimento. Menos investimento pode significar menor crescimento. E menor crescimento, por sua vez, torna ainda mais difícil pagar a própria conta. É o círculo vicioso que o Brasil precisa romper.

A comparação entre Bolsonaro e Lula deve servir justamente para mostrar isso. O governo anterior terminou com uma relação dívida/PIB menor do que aquela observada no auge da pandemia e menor do que a registrada atualmente. Mas isso não autoriza ignorar que a explosão de 2020 foi provocada por uma crise sanitária sem precedentes e que a redução posterior foi favorecida por circunstâncias econômicas excepcionais.

Da mesma forma, o crescimento da dívida no governo Lula não pode ser explicado por uma única causa. Há juros elevados, déficit fiscal, crescimento das despesas e dificuldades para produzir uma trajetória consistente de estabilização do endividamento.

O problema, portanto, é maior do que Lula ou Bolsonaro. É o problema de um Estado que encontra dificuldades para equilibrar aquilo que promete, aquilo que gasta e aquilo que consegue arrecadar. Mas o fato de ser estrutural não diminui a responsabilidade de quem governa. Ao contrário. Torna ainda mais urgente que cada governo deixe de empurrar a conta para o sucessor.

O próximo presidente poderá até receber as chaves do Palácio do Planalto. O que ainda não está garantido é que receberá também espaço suficiente no orçamento para cumprir tudo aquilo que terá prometido durante a campanha. Essa é a verdadeira dimensão da dívida pública.

Não é apenas uma montanha de dinheiro que o Brasil deve. É uma parte crescente do futuro brasileiro que já foi comprometida.