O mundo mudou
Durante muito tempo, o brasileiro aprendeu a enxergar terremotos, furacões, tornados e grandes inundações como acontecimentos de um mundo distante. Eram imagens que chegavam pela televisão vindas de países onde a natureza parecia ter uma relação muito mais turbulenta com a vida cotidiana. O Brasil, protegido por sua posição geográfica e por características geológicas que reduzem a ocorrência de grandes terremotos, parecia estar do lado seguro do planeta.
Essa sensação de segurança, entretanto, começa a perder força.
Em junho, dois fortes terremotos atingiram a Venezuela, com magnitudes de 7,2 e 7,5. Os tremores foram sentidos em diferentes cidades brasileiras, sobretudo na Região Norte, segundo o Serviço Geológico do Brasil. A tragédia venezuelana foi muito além do susto provocado pelos abalos: houve mortes, destruição de edificações e uma enorme tarefa de reconstrução pela frente. O Banco Mundial calcula que os terremotos provocaram US$ 19,6 bilhões em danos físicos diretos, com quase metade concentrada em prédios residenciais.
Mal o continente começava a dimensionar as consequências daquela tragédia, outro terremoto de grande magnitude atingiu a Colômbia nesta segunda-feira. O abalo, de magnitude 7,4, provocou mortes, deixou feridos, derrubou edificações e afetou a infraestrutura de diversas cidades. O número de vítimas ainda estava sendo atualizado ao longo do dia, enquanto equipes de emergência procuravam sobreviventes e avaliavam a extensão dos estragos. E, mais uma vez, os efeitos ultrapassaram fronteiras e também foram sentidos no Brasil.
É impossível olhar para essa sucessão de acontecimentos sem sentir algum desconforto. Não porque seja correto afirmar que os terremotos da Venezuela e da Colômbia tenham relação direta entre si — não há base científica para estabelecer essa conexão —, mas porque eles funcionam como um lembrete poderoso de que o planeta não respeita as fronteiras desenhadas pelos homens.
E o Brasil também vem recebendo seus próprios sinais.
Nos últimos anos, o País passou a conviver com uma frequência e uma intensidade de eventos extremos que desafiam antigas certezas. Chuvas torrenciais, enchentes, secas prolongadas, ondas de calor, tempestades severas, vendavais e tornados deixaram de ser acontecimentos excepcionais vistos apenas em reportagens internacionais. Tornaram-se episódios capazes de interromper cidades, destruir estradas, comprometer sistemas de abastecimento, provocar prejuízos bilionários e, principalmente, ameaçar vidas.
Os dados oficiais ajudam a dimensionar essa mudança. O Instituto Nacional de Meteorologia registrou que 2025 foi o sétimo ano mais quente do Brasil desde o início da série histórica, em 1961. A temperatura média nacional ficou 0,33 grau Celsius acima da média histórica. O ano anterior, 2024, continua sendo o mais quente da série, com média 0,79 grau acima do padrão histórico.
Um décimo de grau pode parecer insignificante quando observado isoladamente. Não é.
O problema está justamente na acumulação de sinais. Uma atmosfera mais quente altera padrões de circulação, interfere no regime de chuvas e pode contribuir para condições mais favoráveis à ocorrência de determinados eventos extremos. Isso não significa que todo temporal, toda enchente ou todo vendaval possa ser atribuído diretamente às mudanças climáticas. A ciência exige cautela. Mas também seria irresponsável ignorar que o clima está mudando e que os riscos associados a essa transformação precisam ser considerados no planejamento das cidades.
O relatório do Cemaden sobre o estado do clima brasileiro chama atenção justamente para essa realidade ao reunir informações sobre chuvas extremas, secas, estiagens, ondas de calor e de frio, alertas, desastres e impactos registrados no País.
O problema, portanto, não é apenas a natureza.
É a nossa preparação para enfrentá-la.
Uma chuva extraordinária pode ser inevitável. Uma cidade incapaz de escoá-la não é. Uma tempestade severa pode não ser evitável. A precariedade de uma ponte, de uma encosta ou de uma rede de drenagem pode ser enfrentada antes que a tempestade chegue. O calor extremo pode não ser controlado por uma prefeitura. Mas os efeitos de uma onda de calor sobre idosos, crianças, hospitais e serviços públicos podem ser reduzidos com planejamento.
É nesse ponto que a discussão sobre mudanças climáticas deixa de ser um assunto distante, reservado a especialistas, conferências internacionais ou discursos políticos. Ela passa a ser uma questão concreta de administração pública.
O Brasil precisa abandonar a cultura de reconstruir depois da tragédia e avançar para uma política permanente de prevenção.
Isso significa mapear áreas de risco, ampliar sistemas de alerta, modernizar redes de drenagem, proteger mananciais, recuperar áreas verdes, fiscalizar ocupações irregulares, melhorar a infraestrutura urbana e preparar os serviços públicos para situações excepcionais. Significa também investir em ciência, monitoramento e informação.
A natureza não pode ser responsabilizada pela falta de planejamento humano.
Há ainda uma dimensão mais profunda nessa discussão. Os terremotos na Venezuela e na Colômbia mostram que nenhum país possui controle absoluto sobre aquilo que acontece sob seus pés. O Brasil, por suas características geológicas, não está entre as regiões do planeta mais sujeitas a grandes terremotos. Mas isso não significa que esteja imune a abalos, como demonstram os registros acompanhados pela Rede Sismográfica Brasileira.
E, se não podemos controlar os movimentos da Terra, tampouco podemos continuar acreditando que temos controle sobre um clima que já apresenta sinais de transformação.
Talvez a principal mudança necessária seja justamente essa: abandonar a ideia de que desastres são acontecimentos imprevisíveis que simplesmente "acontecem". Muitos fenômenos naturais são, de fato, impossíveis de impedir. Seus efeitos, porém, podem ser profundamente diferentes dependendo do grau de preparação de uma sociedade.
A diferença entre uma tempestade e uma tragédia muitas vezes está no que foi feito antes dela.
As imagens que hoje chegam da Venezuela e da Colômbia deveriam provocar solidariedade às populações atingidas. Mas deveriam provocar também reflexão. O sofrimento de nossos vizinhos não pode ser apenas mais uma sequência de imagens que assistimos pela televisão, comentamos durante alguns minutos e depois esquecemos.
Porque, cada vez mais, aquilo que parece distante está se aproximando.
E talvez o maior perigo não esteja apenas na força dos fenômenos naturais, mas na nossa insistência em acreditar que eles continuarão acontecendo sempre longe de nós.
O planeta está dando sinais. Alguns chegam na forma de um tremor. Outros vêm com a água que sobe, o calor que se prolonga, o vento que derruba árvores e estruturas ou a seca que esvazia reservatórios.
Não cabe ao homem impedir que a Terra se mova. Cabe a ele, porém, aprender a viver em um mundo que mudou — e, sobretudo, parar de esperar a próxima tragédia para começar a se preparar.