Buscar no Cruzeiro

Buscar

Editorial

A conta que vem depois do voto

25 de Julho de 2026 às 20:03
Cruzeiro do Sul [email protected]
placeholder
placeholder

As eleições são indispensáveis à democracia. É por meio delas que a sociedade escolhe seus representantes, renova mandatos, premia ou pune governos e define os rumos políticos do País. O problema não está, portanto, no custo de realizar eleições. A democracia tem preço e deve ser financiada. A questão que precisa ser debatida é outra: quanto o contribuinte brasileiro realmente paga por um processo eleitoral e, principalmente, quanto continuará pagando depois que as urnas forem fechadas?

Em 2026, apenas o Fundo Especial de Financiamento de Campanha, popularmente conhecido como Fundo Eleitoral, consumirá R$ 4,9 bilhões de recursos públicos. O dinheiro já foi repassado pela União ao Tribunal Superior Eleitoral e será distribuído entre os partidos políticos de acordo com critérios estabelecidos pela legislação, relacionados principalmente à representação das legendas no Congresso Nacional. Trata-se de uma soma expressiva, equivalente a quase R$ 5 bilhões destinados exclusivamente ao financiamento das campanhas.

O número, entretanto, revela apenas a parcela mais visível da conta. A estrutura eleitoral brasileira também envolve o funcionamento da Justiça Eleitoral, a preparação e a realização do pleito, a mobilização de servidores, a logística de distribuição das urnas, a segurança, a fiscalização, a apuração e a prestação de contas. Há ainda o Fundo Partidário, que financia permanentemente as atividades das legendas e é formado, entre outras fontes, por dotações orçamentárias da União.

A sociedade, portanto, não financia apenas candidatos e campanhas. Financia a existência e o funcionamento de todo um sistema político-partidário. Isso não significa que tais despesas sejam, por definição, ilegítimas. Partidos são instrumentos essenciais da democracia representativa, e eleições confiáveis exigem uma estrutura pública robusta. O que não pode ser aceito é a ausência de um debate transparente sobre o tamanho da conta e sobre a eficiência com que os recursos são empregados.

Mas o custo das eleições de 2026 pode ser muito maior do que os valores inscritos diretamente no Orçamento. Há uma diferença fundamental entre o custo da eleição e o custo do ano eleitoral. O primeiro pode ser calculado pela soma dos fundos públicos, das despesas da Justiça Eleitoral e dos demais gastos diretamente associados ao pleito. O segundo é mais amplo, menos visível e potencialmente muito mais pesado para o contribuinte.

Enquanto ainda não estão plenamente em vigor as restrições de conduta próprias do período eleitoral, o governo federal anunciou uma série de medidas capazes de ampliar sua popularidade e produzir efeitos imediatos sobre a renda, o consumo e o acesso ao crédito. Entre elas estão mudanças na tributação da renda, a redução da jornada 6x1, a eliminação da chamada "taxa das blusinhas", o pagamento de precatórios, a antecipação do décimo terceiro salário de aposentados e pensionistas, subsídios para famílias de baixa renda e programas voltados à ampliação do crédito.

A lista também inclui iniciativas destinadas a motoristas de aplicativos, taxistas, trabalhadores do setor privado, empresas, caminhoneiros, produtores rurais, famílias interessadas em reformar a casa e beneficiários de programas habitacionais. Consideradas em conjunto, as medidas podem ultrapassar a marca de R$ 200 bilhões, segundo as estimativas apresentadas. Nem todo esse montante representa gasto direto do Tesouro, pois parte das iniciativas utiliza crédito, subsídios, fundos públicos e mecanismos parafiscais. Ainda assim, todas possuem impacto econômico e, em maior ou menor grau, transferem custos e riscos para o Estado.

É preciso reconhecer que programas sociais, políticas de crédito e investimentos públicos podem ser necessários e produzir benefícios concretos. O erro seria considerar automaticamente eleitoreira qualquer medida anunciada em ano de votação. Governar não pode ser interrompido porque haverá eleições. O problema surge quando a concentração de benefícios, subsídios e estímulos ocorre justamente no período anterior à disputa, sem a mesma preocupação com a sustentabilidade fiscal e com os efeitos que permanecerão depois do calendário eleitoral.

A expansão da demanda pode elevar o crescimento econômico no curto prazo. Contudo, quando a capacidade produtiva não acompanha o aumento do consumo, surgem pressões sobre os preços. A inflação reduz o poder de compra, atinge com mais intensidade as famílias de menor renda e obriga o Banco Central a manter juros elevados por mais tempo. Juros altos encarecem o crédito, dificultam investimentos, pressionam empresas endividadas e aumentam o custo de financiamento da própria dívida pública.

Forma-se, assim, uma cadeia de consequências. O benefício anunciado hoje pode gerar dividendos políticos imediatos, mas parte da conta pode aparecer amanhã na forma de inflação, juros maiores, crescimento mais fraco e aumento da dívida. O eleitor recebe a medida, mas o contribuinte permanece responsável pelo custo. E, depois da eleição, a urgência de equilibrar as contas públicas costuma retornar ao centro do debate.

O contraste é evidente. Enquanto quase R$ 5 bilhões são destinados diretamente às campanhas, o conjunto de medidas econômicas e fiscais anunciadas em ano eleitoral pode movimentar dezenas ou até centenas de bilhões de reais. Não se trata de somar mecanicamente todos esses valores, como se cada real representasse uma despesa eleitoral. Isso seria tecnicamente incorreto. Trata-se, sim, de reconhecer que o ambiente eleitoral influencia decisões públicas e que os efeitos dessas escolhas precisam ser avaliados com responsabilidade.

A democracia não é gratuita e não deve ser tratada como se fosse. Mas o financiamento público da política exige transparência, limites, fiscalização e compromisso com o interesse coletivo. O eleitor tem o direito de saber quanto custa escolher seus representantes. Tem também o direito de compreender quanto custam as decisões tomadas para influenciar essa escolha.

A verdadeira conta das eleições não termina na prestação de contas dos partidos nem no fechamento das urnas. Ela continua nos Orçamentos seguintes, na dívida pública, nos juros, na inflação e na capacidade do Estado de financiar serviços essenciais. Por isso, mais importante do que discutir apenas o tamanho do Fundo Eleitoral é avaliar o custo completo do ano eleitoral.

Afinal, o voto é secreto, mas a conta é pública — e será paga por todos.