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Editorial

O Brasil desperdiça o Norte e o Nordeste

23 de Julho de 2026 às 21:10
Cruzeiro do Sul [email protected]
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Poucos países no mundo reúnem uma diversidade natural comparável à do Brasil. Menos ainda podem ostentar um litoral capaz de rivalizar com os destinos turísticos mais disputados do planeta. Basta olhar para o mapa do Norte e, sobretudo, do Nordeste para encontrar praias de águas cristalinas, falésias, dunas, piscinas naturais, rios, manguezais, cultura rica, gastronomia reconhecida internacionalmente e um patrimônio histórico que desperta o interesse de visitantes dos cinco continentes. Não por acaso, Salvador, Fortaleza e Recife lideram a entrada de turistas estrangeiros na região, enquanto destinos como Fernando de Noronha, Maragogi, Praia dos Carneiros, Jericoacoara, Praia do Espelho e Patacho figuram constantemente entre os mais desejados do País.

É justamente por isso que o Brasil deveria se envergonhar do contraste que ajudou a construir ao longo de décadas.

As mesmas regiões que encantam visitantes também concentram alguns dos indicadores sociais mais preocupantes do País. O 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública revela que as dez cidades com as maiores taxas de mortes violentas intencionais do Brasil estão no Nordeste. Bahia, Ceará, Pernambuco e Paraíba aparecem repetidamente em um ranking dominado por disputas entre facções criminosas ligadas ao tráfico de drogas. Ao mesmo tempo, os Estados com maior dependência do Bolsa Família e onde, em alguns casos, o número de beneficiários supera o de trabalhadores com carteira assinada também se concentram, em sua maioria, no Norte e no Nordeste.

É fundamental deixar claro que esses números não dizem absolutamente nada sobre a capacidade, o caráter ou a disposição para o trabalho de sua população. Seria injusto e intelectualmente desonesto atribuir à cultura regional ou ao povo nordestino e nortista responsabilidades que pertencem ao poder público. Ao longo da história, milhões de brasileiros deixaram essas regiões para ajudar a construir a indústria, o comércio e as grandes cidades do Sudeste e do Centro-Oeste. Onde encontraram oportunidades, produziram riqueza. Isso demonstra que nunca lhes faltou talento, coragem ou disposição.

O que faltou, e continua faltando, é um projeto consistente de desenvolvimento.

O Estado brasileiro parece ter se especializado em administrar as consequências da pobreza, mas demonstra enorme dificuldade em eliminar suas causas. Programas de transferência de renda são indispensáveis para garantir dignidade a quem enfrenta a fome e a extrema vulnerabilidade. Nenhuma sociedade séria pode abandonar quem mais precisa. O problema surge quando o investimento social não é acompanhado por políticas igualmente robustas de geração de empregos, qualificação profissional, segurança pública, infraestrutura, saneamento, educação técnica, inovação e incentivo à atividade produtiva.

Combater a fome é uma obrigação moral do Estado. Combater a pobreza de forma permanente exige muito mais do que distribuir benefícios. Exige criar condições para que as famílias possam conquistar autonomia econômica, depender menos do auxílio público e construir seu próprio futuro.

É impossível ignorar que regiões dotadas de enorme potencial turístico, agrícola, energético e logístico permaneçam convivendo com baixos níveis de industrialização, infraestrutura insuficiente e elevada presença do crime organizado. A violência afasta investimentos, reduz a competitividade, encarece a atividade econômica e limita a geração de empregos. Sem oportunidades, milhares de jovens tornam-se presa fácil para organizações criminosas que ocupam justamente os espaços abandonados pelo poder público.

O Brasil insiste em desperdiçar vantagens que qualquer nação desenvolvida transformaria em riqueza. O Nordeste reúne algumas das praias mais belas do planeta, forte vocação para o turismo internacional, capacidade crescente de produção de energias renováveis, agricultura competitiva e localização estratégica para o comércio exterior. O Norte abriga a maior floresta tropical do mundo, gigantesco potencial mineral, biodiversidade incomparável e importância geopolítica crescente. Nada disso, entretanto, tem sido suficiente para romper um ciclo histórico de desigualdade.

É impossível não perceber que existe uma acomodação política em torno dessa realidade. Governos se sucedem, discursos mudam, prioridades eleitorais variam, mas a estrutura permanece praticamente intacta. Mantêm-se programas sociais - necessários e legítimos -, enquanto investimentos capazes de transformar definitivamente essas economias continuam insuficientes. Como consequência, perpetua-se uma relação de dependência que jamais deveria ser o destino de milhões de brasileiros.

O Norte e o Nordeste não precisam de compaixão nem de discursos paternalistas. Precisam de oportunidades. Precisam de estradas, portos eficientes, educação de qualidade, segurança pública eficaz, crédito para empreendedores, ambiente favorável aos investimentos e políticas que estimulem a produção de riqueza. Precisam, sobretudo, que o Estado deixe de enxergá-los apenas como regiões que demandam assistência e passe a tratá-los como protagonistas do desenvolvimento nacional.

Enquanto isso não acontecer, o Brasil continuará convivendo com um paradoxo inaceitável: possuir algumas das regiões mais belas e promissoras do planeta, mas permitir que milhões de seus habitantes permaneçam privados daquilo que realmente transforma vidas: emprego, renda, segurança e esperança. Não é o Norte nem o Nordeste que fracassaram. É o Estado brasileiro que, até hoje, desperdiça o extraordinário potencial dessas duas regiões.