Editorial
Começa o jogo que define o futuro
A Copa do Mundo terminou. Durante alguns dias, o País respirou futebol. As diferenças políticas foram parcialmente substituídas pelas discussões sobre escalações, esquemas táticos, arbitragem e desempenho da seleção brasileira. Como acontece a cada quatro anos, o esporte voltou a cumprir seu papel de reunir milhões de brasileiros em torno de uma mesma paixão, ainda que o resultado final tenha ficado distante do sonho do hexacampeonato. O Brasil encerrou sua participação apenas na 11ª colocação e agora ocupa a quinta posição no ranking da Fifa.
Ontem, com o início efetivo do calendário eleitoral, com a realização das primeiras convenções partidárias, a principal disputa nacional, agora, está marcada para as urnas. Em pouco mais de dois meses, os brasileiros decidirão quem comandará o Palácio do Planalto, os governos estaduais, além da composição do Congresso Nacional e das Assembleias Legislativas. Trata-se do maior exercício democrático do País e, ao contrário de uma competição esportiva, seus resultados produzirão efeitos concretos sobre a vida de cada cidadão durante anos.
Os números divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral ajudam a dimensionar a responsabilidade desse momento. São 158,7 milhões de brasileiros aptos a votar, crescimento de aproximadamente 2,3 milhões de eleitores em relação às eleições de 2022. É um eleitorado maior, mais diverso e também mais desafiado diante de um cenário político marcado pela polarização, pela circulação acelerada de informações - muitas delas falsas - e pelo aumento da desconfiança nas instituições.
Os dados revelam transformações importantes na composição do eleitorado brasileiro. O crescimento mais expressivo ocorreu na Região Norte, reflexo tanto da expansão demográfica quanto da regularização eleitoral. Também chama atenção o avanço superior a 30% do eleitorado residente no exterior, demonstrando uma dispersão cada vez mais conectada às decisões políticas do País. As mulheres seguem sendo maioria absoluta entre os votantes, consolidando um protagonismo que precisa ser igualmente refletido na ocupação dos espaços de representação política.
Outro aspecto relevante é o envelhecimento do eleitorado. O Brasil passa por uma transformação demográfica que também chega às urnas. A participação das pessoas com mais de 60 anos cresceu significativamente, enquanto houve redução proporcional entre os eleitores mais jovens. A principal faixa etária hoje está entre 40 e 44 anos, evidenciando que o centro das decisões eleitorais desloca-se para uma população madura, que vivenciou diferentes ciclos econômicos, alternâncias de poder e profundas mudanças sociais.
Essa mudança traz consequências importantes para o debate eleitoral. Questões relacionadas à saúde pública, aposentadoria, segurança, mobilidade urbana, qualidade dos serviços públicos e estabilidade econômica tendem a ganhar ainda mais peso. Ao mesmo tempo, a diminuição da participação dos jovens acende um sinal de alerta. Democracias sólidas dependem da renovação constante do interesse político das novas gerações. Quando parte significativa da juventude se distancia das urnas, perde-se diversidade de ideias e enfraquece-se a construção do futuro.
As eleições deste ano ocorrem em um ambiente especialmente complexo. O Brasil ainda enfrenta desafios fiscais relevantes, convive com taxas de juros elevadas, busca retomar investimentos, ampliar a geração de empregos e reduzir desigualdades históricas. No cenário internacional, persistem incertezas econômicas, tensões geopolíticas e disputas comerciais que inevitavelmente repercutem sobre a economia brasileira. Nenhum governante encontrará um caminho simples.
Por isso, talvez o maior desafio não esteja apenas nos candidatos, mas também nos próprios eleitores. É tempo de substituir o impulso emocional pela reflexão, a torcida pela análise e os slogans pelas propostas concretas. Campanhas eleitorais costumam produzir promessas generosas, discursos inflamados e narrativas cuidadosamente construídas para conquistar votos. Mas administrar um país exige muito mais do que frases de efeito. Exige preparo, capacidade de diálogo, responsabilidade fiscal, compromisso institucional e disposição para enfrentar problemas complexos sem recorrer a soluções simplistas.
Também será fundamental combater a desinformação. Nunca foi tão fácil produzir e compartilhar conteúdos capazes de manipular opiniões em poucos segundos. O voto consciente depende da disposição do cidadão em verificar informações, comparar projetos, acompanhar o histórico dos candidatos e compreender as atribuições de cada cargo em disputa. Presidente, governador, senador, deputado federal e deputado estadual exercem funções distintas, mas igualmente decisivas para o funcionamento da República.
Depois da Copa, o Brasil troca as arquibancadas pelas urnas. A paixão esportiva dá lugar ao exercício da cidadania. Diferentemente do futebol, onde sempre haverá uma próxima temporada para buscar a revanche, as escolhas feitas em outubro produzirão impactos sobre a economia, a educação, a saúde, a segurança, a infraestrutura e a qualidade de vida de milhões de brasileiros.
A democracia não exige unanimidade. Ela exige participação, responsabilidade e respeito às diferenças. O verdadeiro campeonato que começa agora não será decidido pela habilidade de quem chuta uma bola, mas pela maturidade de uma sociedade capaz de escolher, com consciência e discernimento, os caminhos que pretende seguir. Esse, sim, é o jogo cujo resultado influenciará diretamente o futuro do Brasil.