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Editorial

A realidade das famílias

08 de Julho de 2026 às 20:34
Cruzeiro do Sul [email protected]
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Há um momento em que a economia deixa de ser assunto para especialistas e passa a ser medida pela dona de casa, pelo aposentado, pelo trabalhador e pelo empresário, sobretudo o pequeno. Esse momento chega quando o salário perde a capacidade de sustentar o essencial e o brasileiro se vê obrigado a escolher entre comprar alimentos, pagar contas ou adquirir um medicamento de uso contínuo. Quando a comida e o remédio deixam de ser acessíveis, não é apenas o orçamento doméstico que entra em crise. É a própria confiança na condução da economia.

Foi exatamente essa realidade que duas reportagens recentes do jornal Cruzeiro do Sul evidenciaram em Sorocaba. A primeira revelou que um mesmo medicamento genérico pode apresentar variação superior a 200% entre farmácias da cidade. A segunda mostrou que a cesta básica sorocabana voltou a subir e já supera R$ 1,2 mil. São fatos que convergem para uma mesma conclusão: o custo de vida continua aumentando muito mais rapidamente do que a sensação de melhora propagada pelo governo.

O cenário local encontra respaldo nos indicadores nacionais. Dados divulgados pelo Dieese apontam que a cesta básica ficou mais cara em 17 capitais brasileiras no mês de junho e registrou aumento em todas as capitais pesquisadas no acumulado do primeiro semestre. São Paulo voltou a liderar o ranking nacional, com um custo próximo de R$ 1 mil apenas para alimentação básica. O próprio Dieese calcula que, para cumprir o que determina a Constituição - garantindo alimentação, moradia, saúde, educação, transporte, vestuário, higiene, lazer e previdência - o salário mínimo deveria superar R$ 8,1 mil. O valor oficial representa apenas uma fração dessa necessidade.

Esses números desmontam a narrativa de que a população já colhe os frutos de uma economia plenamente recuperada. O cidadão comum dificilmente faz suas contas com base no Produto Interno Bruto ou nas projeções divulgadas por Brasília. Seu parâmetro é muito mais simples: quanto sobra depois de pagar o supermercado, a farmácia, a energia elétrica, o aluguel e o combustível. E, para milhões de brasileiros, sobra cada vez menos.

É evidente que fatores externos influenciam os preços. Eventos climáticos reduziram a oferta de alimentos. Guerras afetam cadeias internacionais de produção. Oscilações do petróleo repercutem sobre fretes e combustíveis. Nenhum desses elementos pode ser ignorado. Mas tampouco podem servir de explicação permanente para um país que convive, há anos, com dificuldades fiscais estruturais e baixa confiança na condução da política econômica.

O Brasil continua figurando entre as economias com os maiores juros reais do mundo. Essa realidade não decorre de um capricho do Banco Central. É consequência da percepção de risco gerada por sucessivos desequilíbrios fiscais, pelo crescimento contínuo das despesas públicas e pela dificuldade de apresentar uma trajetória consistente de estabilização da dívida. Enquanto persistirem dúvidas sobre o compromisso do governo com o equilíbrio das contas públicas, o crédito permanecerá caro, os investimentos continuarão limitados e a inflação seguirá representando uma ameaça constante ao poder de compra.

O paradoxo é evidente. Nunca se arrecadou tanto em impostos. A carga tributária brasileira continua entre as mais elevadas do mundo em desenvolvimento, mas os serviços públicos permanecem aquém das necessidades da população e o contribuinte continua pagando caro por saúde, educação, segurança e transporte. O Estado arrecada mais, gasta mais e, ainda assim, entrega pouco. Quem fecha essa conta é sempre o cidadão.

À medida que o calendário eleitoral se aproxima, cresce também a tentação de ampliar despesas, anunciar novos programas e acelerar investimentos públicos. Trata-se de uma prática conhecida na política brasileira. Entretanto, medidas que produzem efeito imediato sobre a popularidade podem gerar consequências prolongadas sobre a inflação, a dívida pública e o custo do crédito. A experiência recente demonstra que responsabilidade fiscal não é uma exigência do mercado financeiro. É uma condição indispensável para preservar o poder de compra da população.

Sorocaba oferece um retrato fiel dessa realidade nacional. A enorme diferença no preço dos medicamentos genéricos evidencia o quanto o consumidor precisa se desdobrar para proteger um orçamento já comprometido. A escalada da cesta básica revela que até a alimentação essencial se tornou motivo de preocupação. São sinais claros de que o cotidiano das famílias continua muito distante do otimismo apresentado nos discursos oficiais.

Nos próximos meses, o debate eleitoral será marcado pela divulgação de indicadores econômicos, promessas e balanços de governo. Uns destacarão crescimento, emprego e programas sociais. Outros apontarão juros elevados, endividamento e inflação persistente. Mas o julgamento decisivo não será feito em Brasília nem nos mercados financeiros. Ele ocorre diante das prateleiras do supermercado e dos balcões das farmácias.

O eleitor comparará o que conseguia comprar no início deste mandato com aquilo que consegue levar para casa hoje. Recordará quantas vezes precisou trocar produtos por versões mais baratas, reduzir o consumo de alimentos ou pesquisar em diversas farmácias antes de adquirir um simples medicamento. É esse julgamento silencioso - baseado na experiência diária, e não na propaganda oficial - que definirá se a política econômica produziu prosperidade ou apenas aumentou a distância entre os discursos de Brasília e a realidade vivida pelas famílias brasileiras.