Editorial
Do dedo do meio à Noruega
O fim de semana ofereceu ao Brasil duas imagens que, embora provenientes de universos distintos, parecem retratar um mesmo estado de espírito nacional. No sábado, durante um evento do governo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) protagonizou um gesto incompatível com a liturgia do cargo ao mostrar o dedo médio durante seu discurso, atitude que rapidamente repercutiu dentro e fora do País. No domingo, a seleção brasileira foi eliminada da Copa do Mundo depois de ser amplamente dominada pela Noruega, uma nação de pouco mais de cinco milhões de habitantes que, durante praticamente toda a partida, controlou a posse de bola, ditou o ritmo do jogo e mostrou organização muito superior àquela apresentada pelo time brasileiro.
À primeira vista, trata-se de episódios sem qualquer relação entre si. Um pertence ao universo da política; o outro, ao esporte. Entretanto, ambos convidam a uma reflexão mais profunda sobre aquilo que o Brasil tem aceitado como normal. Afinal, o que explica uma nação que já foi referência mundial no futebol e que se apresenta como potência econômica emergente conviver, quase sem indignação, com demonstrações de despreparo institucional e sucessivas perdas de protagonismo?
O presidente da República ocupa o mais elevado cargo da administração pública brasileira. Independentemente das divergências ideológicas, espera-se daquele que representa mais de 200 milhões de brasileiros serenidade, equilíbrio e respeito à dignidade da função. A democracia pressupõe o confronto de ideias, mas jamais a banalização de gestos incompatíveis com a responsabilidade de um chefe de Estado. A liturgia do cargo existe justamente para lembrar que as instituições são maiores do que seus ocupantes.
Não se trata de exigir formalismos excessivos, tampouco de negar a personalidade de qualquer governante. Trata-se de reconhecer que determinadas atitudes acabam transmitindo mensagens muito além da intenção de quem as pratica. Num momento em que o País se aproxima de mais uma eleição presidencial, quando a polarização continua alimentando conflitos e radicalismos, espera-se das principais lideranças exatamente o contrário: moderação, exemplo e capacidade de elevar o nível do debate público.
No dia seguinte, outro símbolo do Brasil sofreu uma derrota igualmente reveladora. Durante décadas, a camisa amarela impunha respeito antes mesmo do apito inicial. Hoje, já não intimida adversários que outrora enxergavam a seleção como praticamente imbatível. Contra a Noruega, o Brasil correu atrás da bola durante boa parte do tempo, viu o adversário controlar as ações da partida e demonstrou dificuldades técnicas, táticas e emocionais incompatíveis com a tradição construída ao longo de gerações.
A derrota para a Noruega não deve ser interpretada como um acidente esportivo. Ela simboliza algo maior. Aquele pequeno país escandinavo, cuja população é inferior à da cidade de São Paulo, tornou-se uma das sociedades mais desenvolvidas do planeta não por acaso. Administrou com inteligência sua riqueza proveniente do petróleo, criou um dos maiores fundos soberanos do mundo, investiu em educação, inovação, planejamento e instituições sólidas. Enquanto muitos países consumiram suas riquezas pensando apenas no presente, os noruegueses decidiram transformá-las em patrimônio das futuras gerações.
O contraste inevitavelmente provoca desconforto. O Brasil possui dimensões continentais, abundância de recursos naturais, um dos maiores mercados consumidores do planeta e uma população reconhecidamente criativa. Ainda assim, permanece preso a ciclos repetitivos de improvisação, desperdício, disputas políticas permanentes e planejamento insuficiente. Nossa riqueza potencial continua sendo maior do que nossa capacidade de convertê-la em prosperidade duradoura.
Talvez o problema brasileiro nunca tenha sido a falta de talento. O que parece faltar é uma cultura permanente de excelência. Acostumamo-nos a relativizar o que deveria provocar indignação. Naturalizamos o improviso na administração pública. Toleramos a degradação do debate político. Passamos a aceitar resultados medíocres como se fossem inevitáveis. E, quando eles se repetem, buscamos explicações circunstanciais, raramente questionando as causas estruturais.
Países não se tornam grandes apenas pelo tamanho de seu território ou pela quantidade de habitantes. Tornam-se grandes quando suas lideranças compreendem o peso simbólico de cada atitude; quando suas instituições inspiram confiança; quando a educação forma cidadãos preparados; quando o planejamento supera o improviso; quando a sociedade aprende a cobrar resultados e não apenas discursos.
O gesto presidencial e a eliminação da seleção certamente serão esquecidos com o passar dos dias. O verdadeiro desafio, porém, permanecerá diante de todos nós. O Brasil precisa decidir se continuará satisfeito em viver das lembranças de um passado glorioso ou se voltará a cultivar os valores que fizeram do País uma referência em diferentes momentos de sua história.
A grandeza de uma nação não se mede apenas pelos títulos conquistados, pelas riquezas acumuladas ou pelos discursos de seus governantes. Ela se revela, sobretudo, na capacidade de seus líderes inspirarem respeito, de suas instituições produzirem confiança e de seu povo acreditar que sempre é possível fazer melhor. Enquanto não recuperarmos essa ambição coletiva, continuaremos assistindo, dentro e fora dos campos, alheias e a derrotas que insistimos em tratar como mera fatalidade.