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Editorial

A oposição diante do espelho

03 de Julho de 2026 às 21:02
Cruzeiro do Sul [email protected]
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A poucos meses da campanha eleitoral, a política brasileira apresenta um paradoxo que dificilmente passaria despercebido a qualquer observador da América Latina. Enquanto diversos países da região assistem ao fortalecimento ou ao retorno de forças identificadas com a centro-direita e a direita, o principal campo oposicionista brasileiro parece decidido a travar sua batalha mais importante não contra o governo, mas dentro de suas próprias fileiras.

A possibilidade de uma candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República, recebida com resistência por setores do próprio bolsonarismo, como a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, é apenas a face mais visível de um problema muito maior. A disputa não se resume à escolha de um candidato. Ela revela a ausência de um processo político capaz de organizar a sucessão de sua principal liderança sem transformar divergências naturais em um conflito público.

A ironia é evidente. Em boa parte da América Latina, o ambiente político parece favorecer justamente as forças que defendem menor intervenção estatal, responsabilidade fiscal, segurança pública e reformas econômicas. A Argentina inaugurou esse movimento ao promover uma ruptura com décadas de práticas econômicas tradicionais. Mais recentemente, Colômbia e Peru também produziram sinais claros de desgaste de grupos que dominaram o debate político nos últimos anos, abrindo espaço para novas composições de centro-direita. O cenário continental, evidentemente, não é uniforme nem permite generalizações simplistas. Ainda assim, há um denominador comum: o eleitor latino-americano demonstra crescente disposição para alternar projetos políticos quando considera que o ciclo anterior perdeu capacidade de responder aos desafios nacionais.

No Brasil, entretanto, a oposição parece caminhar na direção contrária. Em vez de aproveitar um ambiente regional potencialmente favorável, desperdiça tempo discutindo quem herdará o espólio político de Jair Bolsonaro. A sucessão transforma-se em disputa familiar antes mesmo que o verdadeiro embate eleitoral tenha começado.

Não se trata de diminuir a importância política de Flávio Bolsonaro nem de Michelle Bolsonaro. Ambos conquistaram espaço relevante junto ao eleitorado conservador e possuem legitimidade para participar da construção desse projeto político. O problema é outro. O problema é um movimento que, quase uma década depois de sua ascensão nacional, ainda demonstra enorme dificuldade para separar liderança de parentesco, projeto político de herança familiar e estratégia eleitoral de relações domésticas.

Essa fragilidade cobra um preço elevado. Enquanto a oposição mede forças entre seus próprios integrantes, o governo trabalha a partir de uma posição incomparavelmente mais confortável. Ocupa o Palácio do Planalto, dita boa parte da agenda política nacional, dispõe dos instrumentos administrativos previstos em lei, articula sua base no Congresso e usufrui da visibilidade permanente proporcionada pelo exercício do poder. Nenhuma dessas condições assegura vitória eleitoral. Mas ignorar essa vantagem seria desconhecer o funcionamento das democracias contemporâneas.

É justamente por isso que causa estranheza assistir à oposição desperdiçar um ativo precioso: a unidade. Quem pretende derrotar um governo em busca da reeleição precisa compreender que o tempo da campanha começa muito antes da propaganda eleitoral. Ele se inicia na construção de consensos internos, na definição clara de lideranças e na capacidade de transmitir segurança ao eleitorado. Partidos divididos dificilmente convencem a sociedade de que conseguirão governar um país naturalmente plural.

A dificuldade, aliás, não pertence exclusivamente ao bolsonarismo. Ela expõe uma doença antiga da política brasileira: o personalismo. O País continua produzindo partidos dependentes de indivíduos, quando deveria produzir indivíduos fortalecidos por partidos sólidos. Sempre que uma liderança concentra em si quase toda a identidade de um movimento, a sucessão deixa de ser um processo institucional para transformar-se em disputa por herança política. E heranças quase sempre dividem famílias, aliados e eleitores.

Há ainda um aspecto que merece reflexão. O eleitor costuma demonstrar pouca paciência com grupos incapazes de administrar os próprios conflitos. Quem não consegue construir entendimento dentro de casa transmite dificuldade ainda maior para construir consensos nacionais. A percepção pública, correta ou não, tende a ser simples: se não há acordo entre aqueles que pensam parecido, como haverá estabilidade para governar um país profundamente dividido?

As eleições de outubro poderão representar muito mais do que a escolha de um novo presidente. Serão um teste sobre a capacidade de organização das principais correntes políticas brasileiras. A esquerda chega à disputa amparada pelas vantagens institucionais de quem ocupa o governo e buscando preservar sua unidade estratégica. A direita, por sua vez, corre o risco de desperdiçar um contexto internacional potencialmente favorável porque insiste em discutir sobrenomes quando deveria discutir projetos.

A história política ensina uma lição que raramente falha. Nenhum grupo perde uma eleição apenas porque o adversário foi competente. Muitas derrotas começam muito antes, quando vaidades substituem estratégia, disputas pessoais ocupam o espaço das ideias e o espelho passa a receber mais atenção do que a janela.

Talvez esse seja o maior risco da oposição brasileira neste momento. Enquanto olha para dentro, o tempo segue correndo lá fora. E eleições, como a própria política, não costumam esperar quem demora demais para decidir quem realmente pretende ser.