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Editorial

O País não pode esperar o apito final

02 de Julho de 2026 às 21:56
Cruzeiro do Sul [email protected]
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Há uma característica curiosa no comportamento das sociedades. Algumas conseguem discutir o futuro mesmo quando o presente oferece inúmeras distrações. Outras, ao contrário, parecem sempre encontrar um motivo para adiar as decisões importantes. O Brasil, infelizmente, tem convivido há muito tempo com essa segunda realidade.

Não há nada de condenável nisso quando o assunto é futebol. A Copa do Mundo faz parte da identidade nacional. Durante algumas semanas, o cotidiano muda de ritmo, as conversas se concentram nos jogos, as ruas voltam a ostentar bandeiras e até antigos desafetos encontram um raro ponto de convergência diante da seleção brasileira. É um patrimônio cultural que ultrapassa gerações e que merece ser celebrado sem culpa ou constrangimento.

O problema começa quando essa disposição para viver intensamente o presente se transforma em hábito permanente também na vida pública. Enquanto o País acompanha cada lance do Mundial, outro cronômetro avança de forma silenciosa. Faltam apenas 91 dias para o primeiro turno das eleições gerais. Em pouco mais de três meses, os brasileiros escolherão presidente da República, governadores, senadores, deputados federais e estaduais. Serão decisões que influenciarão a economia, os investimentos, os serviços públicos, a segurança, a educação e a qualidade de vida pelos próximos quatro anos. Ainda assim, o debate nacional permanece surpreendentemente tímido.

Não se trata de defender que a Copa seja ignorada. Seria absurdo imaginar um país indiferente ao maior espetáculo do futebol mundial. A questão é outra. A democracia não funciona em compasso de espera. O calendário eleitoral continua correndo enquanto a bola rola. Os desafios nacionais não entram em recesso durante os jogos. As dificuldades fiscais permanecem. A produtividade da economia continua sendo um obstáculo ao crescimento. A infraestrutura segue exigindo investimentos. A qualidade da educação ainda desafia sucessivos governos. O envelhecimento acelerado da população impõe novas pressões sobre a saúde e a Previdência. Nenhum desses temas ficará suspenso até o encerramento do torneio.

O Brasil desenvolveu, ao longo das últimas décadas, uma preocupante cultura do adiamento. Adiam-se reformas porque são difíceis. Adiam-se investimentos porque custam caro. Adiam-se decisões estratégicas porque seus resultados aparecem apenas no longo prazo. Adia-se o enfrentamento de problemas estruturais enquanto surgem assuntos mais urgentes, mais emocionantes ou politicamente mais rentáveis. O tempo, porém, não compartilha dessa complacência. Ele continua avançando, indiferente às conveniências dos governantes e às distrações da sociedade.

Essa lógica também se manifesta nas eleições. Boa parte dos eleitores costuma despertar para o debate político apenas quando a propaganda invade a televisão, as redes sociais e as ruas. Até então, prevalece a sensação de que ainda haverá tempo suficiente para decidir. É justamente nesse espaço reduzido que prosperam slogans, promessas simplificadas, campanhas baseadas em emoções e estratégias cuidadosamente elaboradas para conquistar votos sem necessariamente produzir reflexão.

No futebol, a emoção é parte da essência do espetáculo. Torce-se sem moderação, comemora-se um gol como quem celebra uma conquista pessoal e sofre-se com cada derrota. O torcedor escolhe com o coração, e ninguém o censura por isso. A política, entretanto, exige outro tipo de comportamento. Governar não significa derrotar um adversário em noventa minutos. Significa administrar recursos escassos, estabelecer prioridades, enfrentar escolhas difíceis e construir condições para que uma sociedade prospere ao longo dos anos. O voto, por isso, deveria nascer menos da paixão e mais da razão.

Esse desafio torna-se ainda maior em uma época marcada pela velocidade da informação e, infelizmente, pela mesma velocidade da desinformação. A multiplicação de conteúdos manipulados, vídeos produzidos por inteligência artificial, discursos fragmentados e campanhas digitais cada vez mais sofisticadas exige do eleitor uma postura muito mais ativa do que em eleições anteriores. Quem deixa para conhecer candidatos e propostas apenas na reta final torna-se mais vulnerável à propaganda, aos boatos e às narrativas cuidadosamente construídas para provocar reações emocionais.

Talvez o maior equívoco da política contemporânea seja ter incorporado a lógica das torcidas. Adversários passaram a ser tratados como inimigos, divergências transformaram-se em disputas morais e a defesa de ideias foi substituída, muitas vezes, pela simples necessidade de derrotar o outro. Nessa atmosfera, discutir projetos de desenvolvimento, produtividade, inovação, equilíbrio fiscal ou qualidade dos serviços públicos tornou-se tarefa secundária. A superficialidade ocupa o espaço que deveria pertencer ao debate de longo prazo.

A democracia, contudo, cobra um preço elevado dessa superficialidade. Governos não são avaliados apenas pelo entusiasmo que despertam durante uma campanha, mas pelas consequências de suas decisões. Uma escolha feita nas urnas repercute durante anos sobre a renda das famílias, o ambiente de negócios, a confiança dos investidores, o funcionamento das escolas, dos hospitais e da própria administração pública. Ao contrário de uma partida de futebol, não existe apito final capaz de apagar um resultado ruim e permitir que tudo recomece na semana seguinte.

Dentro de alguns dias, a Copa seguirá seu curso até que um novo campeão seja conhecido. O mundo voltará à rotina, as bandeiras serão recolhidas e as discussões esportivas encontrarão naturalmente outro assunto. O calendário eleitoral, porém, continuará seu caminho sem qualquer prorrogação. Restará menos tempo para que o eleitor reflita sobre escolhas que produzirão efeitos muito além da duração de um campeonato.

O futebol merece toda a paixão que desperta. A democracia exige algo diferente. Exige atenção, memória, espírito crítico e disposição para pensar no futuro antes que ele chegue. Porque o destino de um país não pode ser decidido nos acréscimos. E o Brasil já adiou, por tempo demais, as conversas que definirão os próximos capítulos de sua própria história.