Editorial
O que o Japão tem a ensinar
A classificação do Brasil para as oitavas de final da Copa do Mundo de 2026 veio com uma vitória por 2 a 1 sobre o Japão. O resultado manteve viva a caminhada da seleção brasileira na busca por mais um título mundial, mas esteve longe de representar um passeio em campo. Ao contrário. A equipe japonesa vendeu caro a derrota, impôs dificuldades, mostrou organização, intensidade e obrigou o Brasil a buscar a virada diante de um adversário que, há poucas décadas, sequer era tratado como protagonista no cenário internacional.
O futebol brasileiro continua sendo um patrimônio nacional. Nenhum outro país produziu tantos craques capazes de transformar partidas em verdadeiros espetáculos. A criatividade, a habilidade individual e a irreverência continuam sendo marcas registradas de uma escola que conquistou cinco Copas do Mundo e influenciou gerações de jogadores em todos os continentes. O triunfo desta segunda-feira reafirma essa tradição.
Mas seria um erro limitar a análise apenas ao placar.
Quem acompanha a evolução do futebol mundial percebe que o Japão deixou de ser uma seleção simpática para tornar-se um adversário respeitado. A diferença técnica diminuiu de forma impressionante. Hoje, enfrentar os japoneses exige concentração máxima, preparação e eficiência. A camisa pesa menos do que já pesou um dia.
Essa transformação não aconteceu por acaso.
Na década de 1990, o Japão decidiu que queria deixar de ser um mero participante para tornar-se competitivo. Profissionalizou sua liga nacional, investiu pesadamente na formação de atletas, buscou referências internacionais e contou, nesse processo, com a importante participação do brasileiro Zico. Sua presença ajudou a consolidar a cultura do futebol profissional e a transmitir conceitos técnicos que contribuíram para o crescimento do esporte no país. Mas a verdadeira diferença foi outra: os japoneses transformaram conhecimento em planejamento e planejamento em política permanente.
Nada foi improvisado.
O atual treinador da seleção japonesa, que comanda a equipe há oito anos, revelou recentemente que uma das bases de seu trabalho consiste em estudar profundamente cada adversário. Não apenas o sistema tático, mas o comportamento individual de cada jogador, seus movimentos, características e decisões dentro de campo. Em outras palavras, o talento continua importante, mas a preparação tornou-se indispensável.
Talvez seja justamente essa a maior lição deixada pelo jogo desta Copa do Mundo.
Durante décadas, o Brasil ensinou o Japão a jogar futebol. Hoje, embora ainda possua uma das maiores tradições do esporte, começa a enxergar um adversário que aprendeu rapidamente, aperfeiçoou os ensinamentos recebidos e acrescentou aquilo que sempre caracterizou sua própria cultura: disciplina, organização, método e compromisso com objetivos de longo prazo.
Essa lógica ultrapassa os limites do esporte.
Enquanto o Brasil ainda convive com sucessivos escândalos envolvendo recursos públicos, desperdício e baixa confiança institucional, o Japão figura entre os países menos corruptos do planeta. No Índice de Percepção da Corrupção, elaborado pela Transparência Internacional, ocupa a 18ª posição mundial, com 71 pontos. O Brasil aparece na 107ª colocação, com 35 pontos, abaixo da média global. Não se trata apenas de um indicador estatístico. Trata-se de um retrato da confiança que uma sociedade deposita em suas instituições e da capacidade do Estado de transformar recursos públicos em serviços de qualidade.
A comparação também revela diferenças importantes na educação. O sistema japonês construiu sua reputação não apenas pela qualidade do ensino, mas pela valorização dos professores, pela formação continuada e pelo desenvolvimento do senso de responsabilidade coletiva desde os primeiros anos escolares. O Brasil avançou significativamente na ampliação do acesso à educação, mas continua enfrentando profundas desigualdades de aprendizagem, infraestrutura e gestão, que comprometem o potencial de milhões de estudantes.
Na saúde pública, o contraste segue semelhante. O Japão possui uma das maiores expectativas de vida do mundo graças a um sistema eficiente e fortemente orientado pela prevenção. O Brasil, por sua vez, dispõe do Sistema Único de Saúde, uma das maiores redes públicas universais do planeta e motivo de reconhecido orgulho nacional, mas ainda sofre com limitações financeiras, longas filas e dificuldades estruturais que reduzem sua capacidade de atendimento.
Na economia, o Japão construiu uma potência baseada em tecnologia, inovação, indústria de alto valor agregado e produtividade. O Brasil, embora seja uma potência agrícola, energética e ambiental, continua encontrando obstáculos históricos para converter seu enorme potencial em desenvolvimento sustentável, crescimento consistente e melhoria efetiva da qualidade de vida de sua população.
É evidente que não existem países perfeitos. O Japão enfrenta uma grave crise demográfica, envelhecimento acelerado da população e elevados níveis de endividamento público. O Brasil possui vantagens igualmente extraordinárias: abundância de recursos naturais, criatividade, diversidade cultural, capacidade empreendedora e um mercado interno robusto. O desafio nunca foi a falta de potencial. O desafio sempre foi transformar potencial em projeto nacional.
Talvez essa seja a maior diferença entre as duas nações.
Os japoneses aprenderam que grandes resultados são consequência de planejamento, continuidade e respeito às instituições. Não esperam soluções milagrosas nem apostam no improviso como política pública. Constroem objetivos para décadas, não apenas para o próximo ciclo eleitoral. Foi assim que reconstruíram um país devastado pela guerra e foi assim que transformaram uma seleção modesta em uma equipe capaz de enfrentar, sem receio, qualquer gigante do futebol mundial.
O Brasil venceu o jogo. E mereceu vencer. Mas o maior ensinamento desta partida talvez esteja justamente do outro lado do campo. Durante muitos anos ensinamos os japoneses a jogar futebol. Agora, sem abrir mão de nossa identidade, talvez seja hora de reconhecer que eles têm muito a nos ensinar sobre planejamento, educação, eficiência, integridade e compromisso com o futuro. Afinal, os títulos conquistados nos gramados alimentam o orgulho de uma nação. Já as vitórias construídas nas salas de aula, nas instituições públicas e na honestidade cotidiana são as que realmente transformam um país.