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Editorial

Entre o crescimento e a imprudência

26 de Junho de 2026 às 23:09
Cruzeiro do Sul [email protected]
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A reflexão a respeito dos números trazidos pelo Cruzeiro do Sul na edição de ontem, sobre as mortes no trânsito de Sorocaba, entre janeiro e maio deste ano, vão além do luto e lamento. Afinal, cada ocorrência representa uma vida interrompida, uma família atingida e evidencia uma cidade que, apesar de seu desenvolvimento econômico e demográfico, ainda convive com um sistema viário que não acompanha a velocidade de sua expansão.

O dado mais alarmante é o protagonismo das motocicletas nos acidentes fatais. A predominância de motociclistas entre as vítimas evidencia uma transformação silenciosa ocorrida nos últimos anos: a moto deixou de ser apenas um meio de transporte alternativo e tornou-se instrumento de trabalho, ferramenta de mobilidade e, em muitos casos, a única possibilidade de deslocamento para milhares de pessoas.

Sorocaba cresceu. Cresceu em população, em número de bairros, em empreendimentos imobiliários e em atividades econômicas. A cidade se consolidou como um dos principais polos do interior paulista e continua atraindo moradores de outras regiões. Entretanto, a infraestrutura viária permaneceu praticamente a mesma em diversos corredores urbanos.

A expansão urbana avançou para as zonas norte, oeste e leste, mas as principais avenidas continuam suportando volumes de tráfego muito superiores àqueles previstos quando foram projetadas. Em vários pontos da cidade, o aumento do fluxo de veículos não foi acompanhado por ampliações, readequações ou novas alternativas de circulação.

O resultado aparece diariamente nos congestionamentos, nos cruzamentos saturados e na disputa cada vez mais agressiva por espaço entre automóveis, ônibus, caminhões, bicicletas e motocicletas.

As motos, nesse cenário, assumem papel central. Seu crescimento acompanha transformações econômicas e comportamentais. A explosão dos serviços de entrega, impulsionada pelos aplicativos, criou uma nova dinâmica urbana. Milhares de profissionais passaram a depender das motocicletas para garantir renda, cumprir metas e atender prazos cada vez mais apertados.

A lógica do mercado digital, baseada na rapidez, produz consequências evidentes nas ruas. Entregas precisam ser feitas em poucos minutos. Corridas devem ser concluídas rapidamente. O tempo se converte em dinheiro. E, muitas vezes, a velocidade transforma-se em risco.

Não se trata de atribuir a responsabilidade exclusivamente aos motociclistas. O problema é mais amplo. Motoristas de automóveis frequentemente desrespeitam a presença das motos, realizam conversões sem sinalização, utilizam o celular ao volante e ignoram limites de velocidade, além do que Sorocaba continua sendo conhecida como a cidade onde os condutores ignoram o uso de setas nas conversões. Pedestres atravessam fora das faixas. Ciclistas dividem espaços inadequados. O trânsito tornou-se um ambiente de tensão permanente.

Há ainda outro fator que merece reflexão: a sensação de normalidade diante da violência viária. Mortes no trânsito acabam incorporadas à rotina das cidades como se fossem inevitáveis.

Cidades que conseguiram reduzir os índices de mortalidade adotaram políticas permanentes de segurança viária, planejamento urbano e fiscalização inteligente. A redução das mortes depende de ações integradas e contínuas.

Em Sorocaba, algumas medidas já não podem mais ser adiadas.

A primeira delas é a revisão do planejamento viário. A cidade precisa identificar seus corredores mais perigosos, reavaliar cruzamentos críticos, implantar melhorias geométricas e ampliar a sinalização horizontal e vertical em diversos pontos.

Também se faz necessária a ampliação da iluminação pública em trechos de maior risco, especialmente em avenidas periféricas e vias de ligação entre bairros, onde muitos acidentes ocorrem durante a noite.

A fiscalização deve ser fortalecida. O respeito aos limites de velocidade, o combate ao uso do celular ao volante, a verificação da embriaguez e o cumprimento das normas de circulação precisam ser permanentes. A presença dos agentes de trânsito possui caráter educativo, mas também preventivo.

Outra medida importante seria a criação de programas específicos voltados aos motociclistas profissionais. Cursos periódicos de direção defensiva, campanhas de conscientização e parcerias com empresas de entrega poderiam contribuir para reduzir comportamentos de risco.

As próprias plataformas digitais precisam participar desse debate. Sistemas que estimulam prazos excessivamente curtos acabam incentivando a pressa e, consequentemente, aumentam a exposição ao perigo. A segurança não pode ser incompatível com a produtividade.

A educação para o trânsito também precisa voltar ao centro das políticas públicas. Campanhas esporádicas durante datas comemorativas já se mostram insuficientes. Escolas, empresas, autoescolas e órgãos públicos devem atuar de forma permanente na construção de uma cultura de respeito à vida.

Há ainda a necessidade de ampliar os investimentos em transporte coletivo de qualidade. Quanto mais eficiente e atrativo for o sistema público, menor será a dependência do transporte individual, especialmente das motocicletas utilizadas por necessidade econômica.

Sorocaba orgulha-se, com razão, de seus indicadores econômicos, de sua capacidade industrial e de sua importância regional. Entretanto, uma cidade que cresce sem garantir segurança em suas ruas produz um desenvolvimento incompleto.

As mortes registradas nos primeiros meses do ano representam um alerta que não pode ser ignorado. O trânsito não é apenas uma questão de mobilidade. Trata-se de saúde pública, planejamento urbano e preservação da vida.

A expansão da cidade exige novas respostas. A multiplicação das motocicletas exige políticas específicas. O aumento da circulação exige infraestrutura adequada. E a sucessão de tragédias exige ação imediata.

Quando a rotina dos acidentes passa a ser aceita como consequência natural do crescimento urbano, a cidade corre o risco de perder aquilo que possui de mais valioso: a vida de seus cidadãos. O desafio de Sorocaba não é apenas fazer o trânsito fluir. É garantir que todos consigam voltar para casa.