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Editorial

Somos 83,5 milhões de inadimplentes

24 de Junho de 2026 às 23:08
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Os números divulgados pelo mais recente Mapa da Inadimplência e Renegociação de Dívidas no Brasil, referente ao mês de maio de 2026, deveriam provocar muito mais do que preocupação. Eles exigem perplexidade, reflexão e, sobretudo, responsabilidade política.

O Brasil alcançou a marca de 83,5 milhões de inadimplentes. Em termos práticos, mais da metade da população adulta do País possui alguma dívida em atraso. Trata-se de um contingente equivalente à população da Alemanha e superior à soma dos habitantes de dois Canadás. O dado, por si só, já expõe uma realidade que não pode ser disfarçada por discursos oficiais, estatísticas selecionadas ou narrativas otimistas sobre a economia nacional.

A inadimplência deixou de ser um problema individual para se transformar em uma questão estrutural. Quando 50,85% dos adultos brasileiros estão negativados, o problema não está apenas na administração doméstica das famílias. Há algo profundamente errado na engrenagem econômica do País.

Cada brasileiro inadimplente deve, em média, R$ 6.877. Ao todo, são R$ 574 bilhões em débitos em atraso. O crescimento é igualmente alarmante. Em janeiro de 2023, o Brasil possuía 70 milhões de inadimplentes. Em apenas quarenta meses, esse número aumentou em 13,5 milhões de pessoas, uma expansão de quase 20%.

Não se trata de um acidente estatístico. Trata-se de uma deterioração concreta das condições financeiras das famílias.

A faixa etária mais atingida encontra-se entre 41 e 60 anos, justamente o grupo economicamente mais ativo, responsável pelo sustento de milhões de lares. Homens e mulheres aparecem praticamente em igualdade na composição dos inadimplentes, demonstrando que a crise financeira atravessa todas as camadas sociais.

Os credores também ajudam a compreender o problema. Bancos e cartões de crédito respondem por mais de um quarto das dívidas. Contas de energia, água e gás aparecem logo em seguida. Em outras palavras, o brasileiro já não se endivida apenas para consumir bens supérfluos. Ele se endivida para pagar despesas essenciais.

Esse talvez seja o aspecto mais grave do quadro atual.

O avanço da inadimplência revela a perda do poder aquisitivo da população. A renda cresce em ritmo inferior ao custo de vida. Os preços dos alimentos, dos serviços, da energia e das despesas cotidianas pressionam os orçamentos familiares. Ao mesmo tempo, o crédito permanece caro e os juros continuam elevados.

É evidente que a educação financeira precisa ser ampliada. O uso inadequado do crédito, a ausência de planejamento e o endividamento impulsivo são problemas reais. Contudo, seria um equívoco atribuir a mais de 83 milhões de brasileiros a responsabilidade exclusiva pela situação.

Quando metade dos adultos do País está inadimplente, a discussão deixa de ser comportamental e passa a ser econômica.

Nesse contexto, torna-se inevitável avaliar a eficácia das políticas públicas adotadas nos últimos anos. O governo federal ampliou programas sociais, expandiu gastos e reforçou mecanismos de transferência de renda. Entretanto, os números demonstram que tais iniciativas não foram capazes de impedir o avanço do endividamento.

Os indicadores da inadimplência funcionam como um termômetro social muito mais próximo da realidade das famílias do que diversos indicadores macroeconômicos frequentemente celebrados. Afinal, pouco importa ao cidadão comum a divulgação de resultados positivos quando as contas do mês não fecham.

Isso não significa ignorar fatores externos ou as dificuldades do cenário internacional. Contudo, a condução da política econômica é, antes de tudo, uma responsabilidade dos governos nacionais. Decisões relativas a gastos públicos, tributação, crédito, juros, estímulos econômicos e prioridades orçamentárias são escolhas políticas. E escolhas produzem consequências.

O crescimento da inadimplência demonstra que a política econômica não conseguiu preservar a capacidade financeira das famílias brasileiras. O cidadão percebe essa realidade no supermercado, na conta de energia, no cartão de crédito e no limite bancário.

A elevada carga tributária, a expansão das despesas públicas, a persistência de juros elevados e a insuficiente geração de renda formam um conjunto de fatores que ajuda a explicar o agravamento do quadro.

O País necessita de medidas que ultrapassem programas emergenciais. É indispensável fortalecer a educação financeira, ampliar oportunidades de emprego, reduzir o custo do crédito, simplificar o sistema tributário e criar condições reais para o aumento da renda das famílias.

Nenhuma economia se sustenta quando metade de seus adultos está endividada.

O Brasil pode conviver com divergências ideológicas, disputas partidárias e narrativas políticas distintas. O que não pode aceitar como normal é a transformação da inadimplência em condição permanente da vida nacional.

Os 83,5 milhões de brasileiros negativados representam muito mais do que números. Representam famílias que perderam capacidade de consumo, trabalhadores pressionados pelo custo de vida e cidadãos que veem, mês após mês, o orçamento doméstico sucumbir diante das despesas.

Quando a dívida se torna regra e a estabilidade financeira vira exceção, o problema já não pertence apenas às famílias. Passa a ser, inevitavelmente, um fracasso coletivo das políticas econômicas adotadas.