Editorial
Crescer é inevitável. Planejar é obrigatório
Sorocaba vive um momento decisivo de sua história urbana. A informação de que a cidade possui 667 condomínios aprovados e outros 301 em fase de análise não deve ser recebida apenas como mais um dado do mercado imobiliário. Trata-se de um indicador poderoso sobre o rumo que o município está tomando e sobre os desafios que se acumulam no horizonte. Mais do que números, esses empreendimentos representam milhares de novos moradores, veículos, demandas por infraestrutura e pressão crescente sobre serviços públicos que já enfrentam dificuldades para acompanhar a velocidade da expansão urbana.
O crescimento de uma cidade costuma ser celebrado como sinônimo de prosperidade. E, de fato, uma cidade que atrai investimentos, gera empregos e desperta interesse imobiliário demonstra vigor econômico. O problema não está no crescimento em si. O problema surge quando a expansão acontece em ritmo superior à capacidade de planejamento do poder público.
A história recente de diversas cidades brasileiras oferece exemplos suficientes para mostrar que o preço da falta de planejamento é elevado. Congestionamentos crônicos, ocupação desordenada, escassez hídrica, enchentes recorrentes, ilhas de calor, perda de áreas verdes e aumento dos custos de manutenção urbana são algumas das consequências de decisões tomadas sem uma visão estratégica de longo prazo.
Sorocaba ainda possui vantagens que muitas cidades maiores perderam ao longo das últimas décadas. Ainda há espaço para organizar a expansão territorial, preservar áreas ambientais relevantes e estruturar redes de mobilidade antes que os problemas se tornem insolúveis. No entanto, essa janela de oportunidade não permanecerá aberta para sempre.
Quando se observa experiências frequentemente classificadas como bem-sucedidas em planejamento urbano, percebe-se um elemento comum. No Brasil, Curitiba tornou-se referência ao integrar transporte e uso do solo ainda na década de 1970. Mais recentemente, Maringá consolidou um modelo de expansão urbana com ampla arborização e preservação de áreas verdes, enquanto Joinville tem buscado associar crescimento econômico e planejamento territorial para evitar gargalos comuns em cidades médias em rápida expansão.
Cidades planejadas não impediram seu crescimento. Pelo contrário. A diferença está no fato de que conseguiram antecipar problemas. Investiram em corredores de transporte coletivo antes da saturação do trânsito, reservaram áreas para parques e drenagem antes da impermeabilização excessiva do solo, criaram mecanismos para equilibrar ocupação urbana e preservação ambiental e exigiram que o desenvolvimento privado contribuísse para a infraestrutura pública.
Em muitos desses casos, a lógica foi simples: cada novo empreendimento não poderia representar apenas lucro privado. Ele deveria também gerar contrapartidas capazes de absorver parte dos impactos produzidos pela própria expansão urbana.
Sorocaba ainda enfrenta dificuldades justamente em temas que deveriam ocupar posição central no planejamento das próximas décadas. A mobilidade urbana continua excessivamente dependente do transporte individual. As discussões sobre drenagem e combate às enchentes avançam em velocidade inferior à expansão das áreas impermeabilizadas. O debate sobre mudanças climáticas ainda aparece de forma tímida diante dos desafios que já se manifestam em eventos extremos de calor e chuvas intensas. O saneamento, embora apresente indicadores superiores aos de muitos municípios brasileiros, precisará acompanhar uma população cada vez maior.
Diante desse cenário, surge uma pergunta inevitável: seria necessário frear ou até impedir a construção de novos condomínios? A resposta é não. Proibir novos empreendimentos seria uma solução simplista para um problema complexo. Além de prejudicar a economia local, reduzir investimentos e afetar a geração de empregos, essa medida não eliminaria a demanda habitacional. Pessoas continuarão chegando à cidade em busca de oportunidades. O crescimento demográfico não desaparece por decreto.
A verdadeira questão não é quantos condomínios Sorocaba pode receber. A pergunta correta é se a cidade está preparada para absorver os impactos desse crescimento. O desafio não é impedir a expansão urbana, mas garantir que ela aconteça de forma sustentável, equilibrada e inteligente.
Isso exige uma revisão constante dos instrumentos de planejamento. Exige um Plano Diretor que dialogue com a realidade atual e futura. Exige estudos técnicos independentes sobre capacidade viária, abastecimento de água, drenagem, cobertura vegetal e equipamentos públicos. Exige também coragem política para estabelecer regras claras, capazes de harmonizar interesses econômicos legítimos com o interesse coletivo e desprezar vaidades e teimosia do poder público, afinal a cidade é de todos.
Nenhuma cidade se torna problemática da noite para o dia. Os grandes gargalos urbanos normalmente são construídos lentamente, ao longo de anos, por meio da soma de decisões que pareciam pequenas ou isoladas. Da mesma forma, as cidades mais organizadas do mundo não nasceram prontas. Elas são resultado de planejamento consistente, visão estratégica e capacidade de antecipação.
Sorocaba está diante de uma escolha histórica. Pode continuar reagindo aos problemas à medida que surgem, sempre correndo atrás dos prejuízos urbanos. Ou pode assumir uma postura mais ambiciosa, utilizando o atual ciclo de crescimento para construir uma cidade preparada para as próximas décadas.
Os quase mil condomínios entre aprovados e em análise não representam apenas um fenômeno imobiliário. Eles simbolizam uma pergunta que precisa ser respondida agora: que cidade Sorocaba pretende ser quando todo esse crescimento finalmente se materializar? O futuro ainda está em construção. E é justamente por isso que não há mais tempo para improvisos.