Editorial
No Brasil atual, idosos trabalham mais e os jovens adoecem cedo
Duas notícias divulgadas nos últimos dias, aparentemente desconectadas, ajudam a revelar um retrato inquietante do Brasil contemporâneo. De um lado, cresce rapidamente o número de pessoas com mais de 60 anos que permanecem no mercado de trabalho. De outro, aumenta de forma alarmante a incidência de infartos entre jovens com menos de 40 anos. Separadas, as duas informações chamam a atenção. Juntas, contam uma história muito maior sobre a sociedade que estamos construindo.
O estudo da Nexus mostra que, em uma década, o número de trabalhadores com 60 anos ou mais cresceu 53%, percentual superior ao próprio envelhecimento da população brasileira. Hoje, um em cada quatro idosos continua trabalhando. A princípio, alguém poderia interpretar o dado como sinal de vitalidade, experiência valorizada e envelhecimento ativo. Mas a realidade está longe de ser tão simples.
Boa parte dessas pessoas permanece na ativa não porque deseja, mas porque precisa. A aposentadoria frequentemente não é suficiente para garantir uma vida digna. O aumento do custo de vida, dos medicamentos, da alimentação e dos serviços básicos obriga muitos brasileiros a prolongar sua jornada de trabalho. E o fazem, muitas vezes, em condições precárias, sem carteira assinada, sem direitos trabalhistas e sem qualquer segurança para o futuro.
Ao mesmo tempo, uma geração que deveria estar no auge da capacidade física começa a apresentar problemas de saúde que, até pouco tempo atrás, eram associados ao envelhecimento. O crescimento de 150% nas internações por infarto entre pessoas com menos de 40 anos não é apenas um dado médico. É um sintoma social.
O coração dos jovens está adoecendo porque a própria vida moderna se tornou doente.
As jornadas de trabalho extensas, a hiperconectividade, a pressão por produtividade, a ansiedade permanente, a alimentação baseada em produtos ultraprocessados e a falta de tempo para o descanso formam uma combinação explosiva. O corpo humano, afinal, continua sendo o mesmo. O que mudou foi o ritmo imposto pela sociedade.
Nunca se falou tanto em qualidade de vida. Nunca houve tantos aplicativos de saúde, relógios inteligentes, academias, influenciadores fitness e campanhas de conscientização. Ainda assim, os indicadores apontam para uma realidade preocupante. O discurso da vida saudável cresce na mesma velocidade em que a prática se torna cada vez mais difícil.
O paradoxo é evidente. Os mais velhos trabalham como jovens. E os jovens adoecem como velhos.
Talvez este seja um dos retratos mais precisos do Brasil atual.
Vivemos em uma época que valoriza a produtividade acima de quase tudo. O cidadão é constantemente estimulado a produzir mais, trabalhar mais, estudar mais, empreender mais e consumir mais. O descanso passou a ser visto como desperdício. O lazer, como luxo. O silêncio, como improdutividade. Até mesmo os momentos de pausa são invadidos por notificações, mensagens e cobranças.
Nesse ambiente, o indivíduo torna-se refém de uma corrida que parece não ter linha de chegada.
Os idosos continuam trabalhando porque não conseguem parar. Os jovens não conseguem desacelerar porque acreditam que não podem parar.
O resultado é uma sociedade cansada.
Os números mostram avanços tecnológicos extraordinários nas últimas décadas. A comunicação é instantânea, a informação circula em velocidade recorde e inúmeras tarefas foram automatizadas. Em tese, tudo isso deveria significar mais tempo livre. Mas aconteceu exatamente o contrário. As pessoas trabalham mais, dormem menos e convivem com níveis crescentes de estresse.
O Brasil não enfrenta apenas desafios econômicos. Enfrenta também uma crise de comportamento e de prioridades.
Quando uma parcela crescente dos idosos precisa permanecer no mercado de trabalho para complementar renda, algo não está funcionando. Quando jovens começam a sofrer infartos em proporções cada vez maiores, algo também está fora do lugar. E quando esses dois fenômenos acontecem simultaneamente, talvez seja hora de questionar não apenas indicadores econômicos, mas o próprio modelo de vida que estamos adotando.
O desenvolvimento de uma nação não pode ser medido apenas pelo crescimento do PIB, pela expansão do consumo ou pelos índices de produção. Uma sociedade verdadeiramente desenvolvida é aquela que permite que seus idosos envelheçam com tranquilidade e que seus jovens construam o futuro sem adoecer no presente.
Afinal, qual é o sentido de viver mais anos se somos obrigados a trabalhar até o limite? E qual é o sentido de alcançar metas e resultados cada vez maiores se o preço cobrado é a própria saúde?
As duas notícias da semana lançam uma pergunta incômoda ao País. Talvez o problema não esteja apenas na economia, no mercado de trabalho ou no sistema de saúde. Talvez esteja na forma como estamos aprendendo a viver.
E, se for esse o caso, o Brasil precisa urgentemente refletir não apenas sobre quanto produz, mas sobre como vive.