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Editorial

O pior dos mundos

27 de Maio de 2026 às 19:48
Cruzeiro do Sul [email protected]
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Há sinais econômicos que funcionam como termômetros de um país. Quando a inflação corrente desacelera, mas as expectativas futuras seguem deterioradas, o mercado transmite uma mensagem clara: há desconfiança sobre a capacidade do governo de estabilizar a economia no médio prazo. Foi exatamente esse o cenário desenhado nesta semana no Brasil. De um lado, o IBGE divulgou a prévia da inflação de maio, o IPCA-15, com alta de 0,62%. De outro, o Boletim Focus revelou que o mercado financeiro voltou a elevar as projeções para a inflação de 2026, que já supera o teto da meta perseguida pelo Banco Central.

Isoladamente, um dado poderia ser relativizado. Juntos, porém, revelam um problema estrutural: o Brasil segue preso a um ambiente de incerteza fiscal, juros elevados e perda gradual de credibilidade econômica. E isso ocorre justamente em um ano pré-eleitoral, quando o impulso político costuma prevalecer sobre a responsabilidade fiscal.

O centro da meta de inflação brasileira é de 3%, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Na prática, portanto, o teto aceitável seria de 4,5%. O mercado, entretanto, já projeta índices próximos ou até superiores a 5% para 2026. Isso significa que investidores, empresários e agentes econômicos passaram a acreditar que o governo não conseguirá entregar estabilidade de preços nem no próximo ano.

O problema não pode mais ser explicado apenas por guerras internacionais, petróleo caro ou turbulências globais. Esses fatores existem e afetam todas as economias do mundo. A diferença está na capacidade interna de reação. E é justamente aí que o Brasil falhou.

Desde o início do atual governo, a condução econômica apostou em expansão de gastos públicos, aumento da presença estatal e flexibilização permanente das metas fiscais. O discurso político frequentemente entrou em choque com o Banco Central, criando ruídos institucionais desnecessários. Em vez de fortalecer a confiança, a equipe econômica escolheu conviver com ambiguidades: prometia responsabilidade enquanto ampliava despesas; defendia equilíbrio enquanto buscava exceções fiscais; falava em controle inflacionário enquanto estimulava consumo sem contrapartidas estruturais.

O resultado dessa combinação é conhecido. Quando o mercado percebe deterioração fiscal, exige juros mais altos para financiar a dívida pública. Juros elevados encarecem crédito, freiam investimentos e reduzem crescimento sustentável. Ao mesmo tempo, a inflação corrói renda, especialmente da população mais pobre, que depende do consumo básico e sente imediatamente o aumento de alimentos, energia e transporte.

Criou-se, assim, uma armadilha econômica típica do chamado “custo Brasil”: carga tributária elevada, baixa produtividade, insegurança regulatória, infraestrutura insuficiente e gastos públicos crescentes. O Brasil arrecada muito, mas entrega pouco em eficiência. E quando o governo tenta estimular a economia apenas pelo consumo ou pela expansão fiscal, sem atacar os gargalos estruturais, acaba produzindo exatamente o efeito contrário: inflação persistente e crescimento medíocre.

Os próprios números projetados pelo mercado mostram essa distorção. Enquanto a inflação segue pressionada, as expectativas de crescimento do PIB permanecem baixas para os próximos anos. Trata-se do pior dos mundos: o País cresce pouco e continua caro. O brasileiro perde poder de compra, enquanto empresas convivem com crédito restrito, insegurança tributária e ambiente de negócios instável.

Em anos eleitorais, esse cenário costuma se agravar. Historicamente, governos tendem a ampliar gastos sociais, acelerar investimentos de apelo político e buscar medidas de curto prazo para sustentar popularidade. O problema é que a conta não desaparece. Ela apenas é transferida para o futuro, normalmente em forma de mais dívida, inflação e juros altos.

É justamente esse o risco que começa a preocupar economistas e investidores. O próximo presidente da República, seja quem for, herdará um país pressionado por despesas obrigatórias crescentes, endividamento elevado, estrutura fiscal fragilizada e expectativas inflacionárias desancoradas. Herdará também um Banco Central provavelmente obrigado a manter juros elevados por mais tempo, dificultando retomada consistente da atividade econômica.

Além disso, haverá um desafio político ainda mais complexo: reconstruir credibilidade. Confiança econômica não nasce de discursos. Ela depende de previsibilidade, disciplina fiscal e coerência institucional. Sem isso, investidores adiam projetos, empresas reduzem expansão e consumidores perdem capacidade de planejamento.

O mais preocupante é perceber que o Brasil parece repetir ciclos históricos já conhecidos. Gasta-se mais no presente para colher crescimento artificial imediato, enquanto os custos são empurrados para o futuro. O problema é que o futuro sempre chega, geralmente acompanhado de inflação, perda de renda e desaceleração econômica.

A prévia da inflação de maio e as projeções do Focus não são apenas indicadores técnicos. Funcionam como alerta político e econômico. Revelam que o País continua convivendo com desequilíbrios profundos e que a confiança na condução econômica permanece limitada. Ignorar esses sinais seria insistir no erro que o Brasil conhece há décadas: acreditar que crescimento sustentável pode existir sem responsabilidade fiscal, produtividade e estabilidade monetária. Economia não se sustenta em marketing. E inflação, cedo ou tarde, sempre cobra a conta.