Editorial
Perversidade histórica
A corrosão diária do poder de compra do brasileiro está cada dia mais evidente. Ela está no esvaziado carrinho de supermercado, no remédio adiado para o próximo mês, na conta de luz que chega antes do salário terminar e no combustível que encarece toda a cadeia produtiva. A realidade brasileira é objetiva, dura e incontornável: a cada dia está mais difícil comprar o básico.
Os dados mais recentes do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) apenas confirmam aquilo que milhões de brasileiros sentem diariamente. Em abril, a inflação voltou a acelerar justamente para as famílias mais pobres do País, aquelas com renda mensal de até R$ 2.299. O índice saltou de 0,85% para 0,92% em apenas um mês. Não se trata de um detalhe técnico. Trata-se da camada da população que compromete praticamente toda a renda com alimentação, transporte, energia e medicamentos. Quando esses itens sobem, não há margem para adaptação. Há privação.
O discurso oficial insiste em transferir responsabilidades. Ora culpa-se a instabilidade internacional, ora as guerras em andamento, especialmente o conflito no Oriente Médio envolvendo Irã, Israel e Estados Unidos. É evidente que tensões geopolíticas afetam o preço do petróleo, pressionam combustíveis e desorganizam cadeias globais. Seria irresponsável negar esse impacto. Contudo, transformar a conjuntura internacional em escudo permanente para justificar a deterioração do poder de compra dos brasileiros é igualmente desonesto.
O problema nacional vai muito além do cenário externo. O Brasil convive há anos com uma combinação perigosa de expansão de gastos públicos, baixa produtividade, carga tributária elevada sobre o consumo e incapacidade estrutural de atacar gargalos internos que encarecem a vida do cidadão comum. O resultado aparece exatamente onde dói mais: na mesa.
Os números falam por si. Em abril, o arroz subiu 2,5%. O feijão carioca avançou 3,5%. A batata disparou 6,6%. O leite registrou impressionantes 13,7%. Carnes, ovos e combustíveis também pressionaram o orçamento familiar. Para famílias de renda elevada, essas oscilações representam desconforto. Para os mais pobres, representam substituição alimentar, perda nutricional e insegurança doméstica.
A inflação brasileira possui uma perversidade histórica: ela pesa proporcionalmente mais sobre quem menos ganha. Enquanto classes mais altas conseguem diversificar consumo, investir recursos e proteger patrimônio, os mais pobres vivem reféns dos preços administrados e dos alimentos. Energia elétrica, medicamentos e itens básicos não podem simplesmente ser retirados do orçamento. Não há alternativa para quem depende do transporte público, do botijão de gás e da farmácia popular.
Além disso, o País vive uma contradição econômica inquietante. O governo celebra indicadores pontuais de crescimento e emprego enquanto o consumo cotidiano revela outra realidade. O trabalhador pode até manter o emprego formal, mas perde capacidade de compra mês após mês. O salário permanece o mesmo; o supermercado, não. Essa erosão silenciosa do poder aquisitivo talvez seja hoje o maior termômetro da distância entre Brasília e a vida real.
A insistência política em minimizar o problema produz ainda outro efeito nocivo: paralisa reações necessárias. Ao atribuir quase exclusivamente a inflação às guerras internacionais, ignora-se o peso da política fiscal expansionista, da insegurança regulatória e da própria dificuldade do governo em construir um ambiente consistente de confiança econômica. Mercado não reage apenas a conflitos externos; reage também à percepção de risco interno, à previsibilidade fiscal e à credibilidade das decisões nacionais.
As projeções oficiais do mercado tampouco autorizam otimismo excessivo. O Boletim Focus, divulgado semanalmente pelo Banco Central, já aponta expectativa de inflação persistentemente pressionada nos próximos meses, especialmente nos setores de alimentos e energia. Há também o temor crescente de novos reajustes nos combustíveis caso o conflito no Oriente Médio se prolongue. Isso inevitavelmente pressionará fretes, produção industrial e distribuição de mercadorias.
No campo da alimentação, especialistas já alertam para um segundo semestre ainda mais sensível. Eventos climáticos extremos, oscilações cambiais e custos elevados de produção podem manter preços elevados em produtos essenciais. Some-se a isso uma taxa de juros ainda alta, que encarece crédito, reduz investimentos e limita o crescimento sustentável da economia.
O brasileiro, portanto, encontra-se encurralado entre duas forças igualmente sufocantes: de um lado, preços que continuam subindo; de outro, renda incapaz de acompanhar essa velocidade. E o mais preocupante é perceber que o debate público frequentemente prefere a narrativa política à solução concreta.
Nenhuma guerra no exterior explica sozinha décadas de fragilidade estrutural. Nenhum conflito internacional é capaz, isoladamente, de justificar por que um dos maiores produtores de alimentos do planeta convive com dificuldade crescente para alimentar sua própria população de maneira digna. A inflação atual pode ter componentes globais, mas seus efeitos devastadores encontram terreno fértil dentro das próprias fragilidades brasileiras.
Enquanto discursos procuram culpados distantes, o cidadão comum segue fazendo contas impossíveis dentro de casa. E talvez seja exatamente essa a face mais cruel da inflação: ela não explode de uma vez. Ela corrói lentamente. Tira primeiro os excessos, depois os confortos e, por fim, ameaça o essencial.