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Editorial

A impunidade alimenta a ganância

20 de Maio de 2026 às 19:51
Cruzeiro do Sul [email protected]
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Durante mais de duas décadas, o Brasil conviveu com uma sequência quase ininterrupta de escândalos que corroeram a confiança da população nas instituições públicas e drenaram cifras bilionárias dos cofres nacionais. Muitos deles atravessaram governos, partidos e estruturas do Estado, mas é impossível ignorar que os anos de predominância do PT no Palácio do Planalto — somando três mandatos de Luiz Inácio Lula da Silva e dois de Dilma Rousseff, até o impeachment — coincidiram com alguns dos maiores e mais devastadores casos de corrupção já registrados na história republicana brasileira.

O problema não é apenas político. É econômico, social e moral. A corrupção, quando institucionalizada, deixa de ser um simples desvio de dinheiro. Ela se transforma em atraso nacional.

Muito frequentemente, os brasileiros ouvem nos telejornais ou leem nos jornais impressos ou digitais expressões como “rombo bilionário”, “desvios milionários”, “superfaturamento” ou “esquema de corrupção”. Os números aparecem em sequência tão acelerada que parte da população já perdeu a dimensão concreta do que isso representa. Bilhões viraram abstração. Mas não deveriam.

Quando se fala, por exemplo, em desvios estimados em mais de R$ 42 bilhões no Petrolão, valor calculado por peritos da Polícia Federal no auge da Lava Jato, trata-se de dinheiro suficiente para construir milhares de escolas, hospitais, creches, unidades habitacionais e quilômetros de rodovias.

A cronologia dos escândalos impressiona pela repetição.

Em 2004, o Caso Waldomiro Diniz revelou gravações envolvendo cobrança de propina e favorecimento político. Era o primeiro grande abalo do recém-iniciado governo Lula. Pouco depois, em 2005, explodiu o Mensalão, o esquema de compra de apoio parlamentar abastecido por recursos desviados e operações fraudulentas, que culminou em condenações históricas no Supremo Tribunal Federal.

Naquele momento, o Brasil acreditou que havia chegado ao fundo do poço institucional. Não havia.

Vieram então os escândalos envolvendo fundos de pensão, Correios, Bancoop, dossiês, cartões corporativos e uma sequência de crises ministeriais no governo Dilma Rousseff, especialmente em 2011, quando sucessivas denúncias derrubaram integrantes da Esplanada.

Em 2012, a Operação Porto Seguro revelou um esquema de tráfico de influência dentro de órgãos federais. Mas seria em 2014 que o Brasil conheceria o maior escândalo de corrupção de sua história: o Petrolão.

A Lava Jato escancarou um modelo de saque institucionalizado da Petrobras, envolvendo cartel de empreiteiras, superfaturamento de contratos, pagamento de propinas e financiamento político clandestino. O esquema atingiu partidos diversos, empresários e agentes públicos, mas teve forte ligação com estruturas de poder montadas durante os governos petistas.

O impacto foi devastador. Empresas quebraram. Obras pararam. A Petrobras perdeu valor de mercado. O País mergulhou em recessão. Milhões de brasileiros perderam emprego enquanto bilhões evaporavam em corrupção.

Na sequência vieram as pedaladas fiscais, manobras contábeis utilizadas para maquiar as contas públicas e sustentar artificialmente programas governamentais. O episódio acabou sendo um dos fundamentos do impedimento de Dilma Rousseff em 2016.

Agora, anos depois, novos escândalos voltam a rondar o noticiário nacional. O esquema de fraudes no INSS, investigado pela Polícia Federal e pela Controladoria-Geral da União, estima prejuízos de R$ 6,3 bilhões com descontos irregulares aplicados sobre aposentadorias e pensões.

Mais grave ainda: trata-se de dinheiro retirado justamente de idosos e pensionistas, muitos deles sobrevivendo com um salário mínimo. É o retrato mais cruel da degradação ética do poder público que alimenta o mão grande e blinda os poderosos.

Somados os principais escândalos envolvendo desvios, rombos, corrupção e fraudes estruturais registrados ao longo desses anos, as cifras ultrapassam facilmente dezenas de bilhões de reais. Dependendo da metodologia utilizada e considerando prejuízos diretos, contratos superfaturados, perdas de estatais e impactos financeiros, alguns levantamentos projetam esse custo entre R$ 100 bilhões e R$ 140 bilhões.

É uma montanha de dinheiro difícil até de imaginar.

Com R$ 100 bilhões, seria possível construir milhares de escolas de tempo integral, equipar hospitais públicos em escala nacional, ampliar redes de saneamento básico, reduzir déficits habitacionais históricos e financiar programas robustos de combate à pobreza sem recorrer ao aumento de impostos.

Mas o Brasil fez outro caminho.

Enquanto bilhões desapareciam em esquemas políticos, o cidadão comum seguia enfrentando filas em hospitais, estradas destruídas, escolas precárias e carga tributária sufocante. O trabalhador pagou duas vezes: primeiro nos impostos; depois na ausência de serviços públicos dignos.

A maior tragédia não é apenas o dinheiro perdido. É a banalização da corrupção.

O brasileiro se acostumou a ouvir cifras bilionárias como quem acompanha números de loteria. Escândalos surgem, ocupam manchetes por algumas semanas e depois desaparecem sob a névoa da impunidade, da polarização política e da memória curta nacional.

Nenhuma democracia consegue prosperar quando a corrupção deixa de ser exceção e passa a integrar a paisagem cotidiana do poder.

E talvez seja justamente esse o maior prejuízo causado ao Brasil nesses anos todos: não apenas o rombo nos cofres públicos, mas a corrosão lenta da confiança da sociedade na política, nas instituições e no próprio futuro do País, afinal a história recente de desmandos não revela punição exemplar a quem se apoderou do dinheiro público. A impunidade alimenta a ganância.