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Editorial

Realidade enfraquece o discurso

16 de Maio de 2026 às 20:54
Cruzeiro do Sul [email protected]
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A economia brasileira vive hoje um dos seus maiores dilemas de credibilidade desde a estabilização do Plano Real. O governo celebra indicadores positivos, o Banco Central insiste que a inflação está “sob controle” e os números oficiais parecem confirmar um cenário relativamente estável. Ainda assim, milhões de brasileiros saem do supermercado com a sensação oposta: a de que o dinheiro desaparece antes do fim do mês, de que o salário encolheu e de que viver no Brasil ficou caro demais. Quando a percepção popular contradiz o discurso técnico, o problema deixa de ser apenas econômico. Passa a ser político, social e moral.

O governo Lula enfrenta exatamente esse paradoxo. O desemprego caiu, o PIB segue crescendo em ritmo moderado, a renda média melhorou e o salário mínimo voltou a ter reajustes reais. No papel, há avanços. Mas a vida concreta da população não é feita de planilhas do IBGE nem de gráficos apresentados em Brasília. Ela acontece no caixa do mercado, no preço dos combustíveis, na conta de luz, no aluguel e na farmácia. E é justamente nesse território do cotidiano que o discurso oficial começa a ruir.

A inflação acumulada em 12 meses até abril ficou em 4,39%. Tecnicamente, não se trata de uma inflação fora de controle. O problema é que o cidadão comum não mede inflação pela velocidade do aumento dos preços, mas pelo tamanho da pancada que recebe toda vez que vai às compras. O brasileiro não compara índices; compara o carrinho de supermercado de hoje com o de quatro anos atrás. E a diferença é brutal.

Desde janeiro de 2020, segundo o próprio Banco Central, o IPCA acumula alta de 42,78%. Os alimentos consumidos dentro de casa subiram mais de 64%. Isso significa que o básico ficou dramaticamente mais caro. Comer virou um desafio orçamentário. E nenhum discurso técnico consegue apagar esse fato. Quando o consumidor percebe que paga caro por um pacote de café, um quilo de carne ou remédios, pouco importa ouvir que “a inflação desacelerou”. O estrago já foi feito.

A verdade inconveniente é que o Brasil estabilizou a inflação, mas não estabilizou o custo de vida. Há uma diferença gigantesca entre essas duas coisas, e o governo se mostra incapaz de compreendê-la politicamente. Inflação menor não significa preços baixos. Significa apenas que eles estão subindo mais devagar. Só que continuam subindo. E, em muitos casos, jamais voltam ao patamar anterior. O brasileiro convive com aumentos permanentes em alimentação, moradia, transporte e serviços essenciais. O resultado é uma corrosão contínua da qualidade de vida.

Os números da cesta básica revelam essa tragédia silenciosa. Entre 2011 e 2025, o valor da cesta saltou mais de 205%, enquanto o salário mínimo não acompanhou essa escala. Em outras palavras: o trabalhador perdeu poder de compra mesmo com correções salariais. Em São Paulo, a cesta básica já consome mais de 60% do salário mínimo. E o próprio Dieese calcula que o salário necessário para sustentar dignamente uma família deveria ultrapassar R$ 7,6 mil. O dado é devastador porque desmonta a fantasia de prosperidade frequentemente vendida pelo discurso oficial.

O problema não está apenas nos choques internacionais, nas guerras ou na pandemia — embora todos tenham impacto relevante. O problema também está na incapacidade histórica do Brasil de produzir riqueza de maneira eficiente. O País continua preso a uma combinação tóxica de baixa produtividade, qualificação insuficiente da mão de obra e economia fechada. Trabalha-se muito para produzir pouco. E produz-se pouco para remunerar mal. O resultado inevitável é uma população que sente que corre cada vez mais apenas para permanecer no mesmo lugar.

Há ainda outro componente grave nessa crise de percepção: a desconexão entre os índices oficiais e a realidade das classes mais pobres. O IPCA, utilizado como principal termômetro econômico, abrange famílias com renda alta. Já o INPC, mais sensível aos gastos básicos das famílias de baixa renda, recebe menos atenção no debate público. Ou seja: a inflação sentida pelos mais pobres muitas vezes fica diluída na média nacional. É como se o sofrimento cotidiano da população periférica desaparecesse dentro da estatística.

O próprio presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, admitiu preocupação com a perda de credibilidade da política monetária diante dessa percepção social. E ele tem razão. Quando a população deixa de acreditar nos números oficiais, abre-se um perigoso abismo entre instituições e sociedade. Não se trata apenas de comunicação ruim. Trata-se de uma ruptura de confiança.

Governos costumam acreditar que indicadores econômicos positivos são suficientes para garantir popularidade. O presidente Lula está descobrindo que isso não funciona quando o custo de vida explode. Não basta anunciar crescimento do PIB se o cidadão não consegue encher a geladeira. Não adianta comemorar recordes de emprego quando boa parte das vagas paga salários incapazes de acompanhar os preços. E não há propaganda capaz de convencer uma dona de casa de que “a inflação caiu” quando ela percebe, diariamente, que o dinheiro acabou antes da metade do mês.

O drama brasileiro atual é justamente esse: os números podem até ter melhorado, mas a sensação de empobrecimento continua viva. E percepção, em política, vale tanto quanto realidade. Talvez até mais.