Editorial
Realidade muito mais dura
O Desenrola Brasil, relançado pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, nasce embalado pelo discurso de alívio às famílias sufocadas pelas dívidas. A promessa é sedutora: renegociar débitos, limpar nomes, devolver dignidade financeira e recolocar milhões de brasileiros no mercado de consumo. Em um país onde 82,8 milhões de pessoas estão inadimplentes e o endividamento das famílias ultrapassa 80%, qualquer iniciativa que ofereça fôlego imediato encontra terreno fértil para aplausos. O problema é que, por trás do verniz social e da propaganda oficial, esconde-se uma realidade muito mais dura: o Brasil não enfrenta apenas uma crise de inadimplência, mas um colapso estrutural de renda, produtividade e capacidade econômica. E nenhum programa de renegociação será capaz de resolver isso sozinho.
O governo vende o Desenrola como solução. Mas, na prática, ele funciona mais como anestesia temporária para uma doença crônica. Renegociar dívidas pode aliviar o presente, mas não impede o retorno do problema quando a origem da crise permanece intacta. E a origem é evidente: juros elevados, inflação persistente em itens essenciais, renda corroída, crédito caro e um ambiente econômico que asfixia tanto trabalhadores quanto empresários. O resultado é um país inteiro vivendo à prestação, financiando sobrevivência em vez de crescimento.
O retrato das famílias já é alarmante. Mais da metade da população adulta brasileira possui restrições financeiras. São milhões de pessoas sem acesso ao crédito, presas a juros abusivos, cartões estourados e empréstimos acumulados. Entretanto, há um aspecto ainda menos debatido e talvez mais preocupante: o colapso das empresas brasileiras. Enquanto os holofotes se voltam para o CPF negativado, o CNPJ afundado em dívidas cresce silenciosamente, ameaçando empregos, investimentos e a própria atividade econômica.
Os números da inadimplência empresarial são devastadores. Segundo a Serasa Experian, o Brasil alcançou em 2025 o recorde histórico de 8,9 milhões de empresas inadimplentes, acumulando mais de R$ 210 bilhões em dívidas negativadas. Trata-se do maior volume já registrado desde o início da série histórica. E o dado mais preocupante talvez nem seja o tamanho absoluto da dívida, mas o perfil dela: empresas pequenas, médias e microempresas, justamente aquelas responsáveis pela maior geração de empregos no Brasil, representam esmagadora maioria desse colapso financeiro.
Quando pequenos negócios quebram, não é apenas um CNPJ que desaparece. Fecha-se uma padaria, um salão, uma oficina, uma loja de bairro. Some renda, emprego e circulação econômica local. E é justamente nesse ponto que o debate nacional se mostra superficial. O Brasil discute o consumidor endividado, mas ignora que boa parte desse consumidor depende de empresas igualmente sufocadas para sobreviver.
Os dados revelam um círculo perverso. As empresas atrasam pagamentos porque vendem menos, pagam juros mais altos e têm menos acesso ao crédito. As famílias, por sua vez, consomem menos porque estão endividadas e sem renda suficiente. O comércio perde receita. O setor de serviços desacelera. A indústria reduz produção. E o governo responde oferecendo renegociação de dívidas, como se o problema fosse apenas contábil e não estrutural.
O mais grave é perceber que programas desse tipo podem criar uma perigosa ilusão coletiva. A falsa sensação de reorganização financeira frequentemente empurra famílias de volta ao consumo financiado sem que exista renda real para sustentar esse movimento. Limpa-se o nome hoje para voltar a sujá-lo amanhã. Troca-se uma dívida vencida por outra parcelada. O problema muda de forma, mas permanece vivo. Em muitos casos, ainda maior.
Há também um componente político impossível de ignorar. Programas de renegociação em massa costumam produzir forte impacto de popularidade porque oferecem resultado imediato e visível. O cidadão volta a comprar, recupera crédito e sente alívio psicológico. Porém, o efeito estrutural é limitado quando não há crescimento consistente da economia, geração robusta de empregos qualificados, redução do custo do crédito e aumento real da renda.
O Brasil corre o risco de institucionalizar a cultura permanente da renegociação. Como se fosse normal viver endividado, renegociar, parcelar novamente e repetir o ciclo indefinidamente. Isso não representa inclusão financeira; representa precarização financeira. Uma sociedade saudável não pode depender eternamente de programas emergenciais para manter sua população minimamente respirando economicamente.
A explosão simultânea de inadimplência entre pessoas físicas e jurídicas escancara algo ainda mais profundo: o Brasil está consumindo mais do que produz, gastando mais do que gera e sobrevivendo à base de crédito caro. É um modelo insustentável. Nenhuma economia prospera quando famílias vivem no limite e empresas operam sufocadas.
O verdadeiro desafio nacional não é limpar nomes em cadastros de proteção ao crédito. O desafio é criar condições para que brasileiros e empresas não precisem voltar para eles poucos meses depois. Sem reformas estruturais, sem produtividade, sem segurança econômica e sem um ambiente que favoreça crescimento real, o Desenrola corre o risco de ser lembrado não como solução, mas apenas como mais um paliativo em um país que aprendeu a administrar crises em vez de resolvê-las.