Editorial
Pela maturidade institucional e urbanística
A discussão sobre a chamada Marginal Direita, em Sorocaba, deixou de ser apenas um projeto viário para se tornar um teste de maturidade institucional e urbanística. Não se trata simplesmente de abrir uma nova avenida, mas de decidir qual modelo de cidade se pretende consolidar nas próximas décadas: uma que responde ao crescimento com mais asfalto ou uma que equilibra mobilidade e preservação ambiental de forma inteligente.
Ao longo dos últimos meses, o jornal Cruzeiro do Sul tem acompanhado com rigor esse embate, revelando suas múltiplas camadas. De um lado, a Prefeitura sustenta a necessidade da obra como resposta direta ao aumento do fluxo viário e à expansão urbana. Trata-se de um argumento legítimo: Sorocaba cresce, atrai investimentos e precisa, de fato, melhorar sua infraestrutura de mobilidade para evitar o colapso logístico que já se anuncia em determinados corredores.
De outro lado, ambientalistas, urbanistas e setores da sociedade civil alertam para o risco de um erro irreversível. A área prevista para a intervenção margeia o rio Sorocaba e abriga um fragmento significativo de vegetação nativa — um ativo ambiental cada vez mais raro em áreas urbanas densas. Não se trata de um detalhe paisagístico, mas de um ecossistema que cumpre funções essenciais: regulação térmica, preservação da biodiversidade, contenção de enchentes e qualidade de vida.
O impasse ganhou contornos institucionais quando o Ministério Público interveio, levando o caso à Justiça. O acordo firmado, autorizando a execução da obra, conferiu segurança jurídica ao projeto, quem tem financiamento internacional. No entanto, legalidade não encerra o debate, apenas o desloca. Uma decisão judicial pode autorizar, mas não substitui a responsabilidade política e técnica de escolher o melhor caminho.
É nesse ponto que a reportagem publicada no último domingo pelo Cruzeiro do Sul cumpre papel decisivo ao apresentar uma alternativa concreta. Ao invés de um traçado que comprometa áreas sensíveis, a proposta sugere soluções capazes de atender à demanda viária sem sacrificar o patrimônio ambiental. Trata-se de uma abordagem que dialoga com conceitos contemporâneos de planejamento urbano, nos quais mobilidade e sustentabilidade não são forças opostas, mas dimensões complementares.
Cidades que ignoraram esse princípio hoje pagam o preço. O modelo de expansão baseado exclusivamente no automóvel e na abertura de novas vias mostrou-se limitado e, muitas vezes, contraproducente. Mais vias geram mais tráfego, um fenômeno amplamente documentado. Ao mesmo tempo, a supressão de áreas verdes agrava problemas climáticos e sanitários, criando passivos que recaem sobre o poder público e a população.
Sorocaba ainda tem a oportunidade de escolher diferente. A existência de uma proposta alternativa, tecnicamente embasada e publicamente apresentada, impõe à administração municipal o dever de analisá-la com transparência e profundidade. Ignorá-la seria um equívoco técnico e um sinal de fechamento ao diálogo, algo incompatível com a complexidade do tema.
Mais do que decidir sobre uma avenida, Sorocaba decide sobre seu futuro. A cidade pode optar por uma solução rápida, que responde à pressão imediata, ou por um planejamento mais sofisticado, capaz de conciliar desenvolvimento e preservação. A segunda opção exige mais tempo, mais debate e, sobretudo, mais visão de longo prazo.
O papel do poder público, nesse contexto, não é apenas executar obras, mas liderar um projeto de cidade. Isso implica ouvir, ponderar, ajustar rotas e, quando necessário, rever decisões. A Marginal Direita não pode ser tratada como um fim em si mesma, mas como parte de um sistema maior, que inclui transporte coletivo eficiente, uso inteligente do solo e proteção ambiental.
O debate está posto e qualificado. Cabe agora à Prefeitura demonstrar que está à altura dele. Porque, no fim, o que está em jogo não é apenas o traçado de uma avenida ou o desejo de uma determinada autoridade ou segmento da sociedade, mas o desenho da Sorocaba que as próximas gerações irão herdar. Isso é o mais relevante: aliar preservação ambiental e desenvolvimento viário.