Editorial
Vacinação em baixa
Uma crise na saúde avança, silenciosa e com potencial devastador. A queda na cobertura vacinal no Brasil e em outros países vem se verificando com intensidade após a pandemia de Covid-19. As estatísticas de 2025 e início de 2026 apontam para uma falha de proteção coletiva que custa vidas.
O ressurgimento do sarampo e o aumento nas mortes por gripe e meningite. mesmo com vacinas disponíveis, evidenciam a urgência de uma mudança de postura. O cenário serve de alerta. Em março, casos de sarampo foram confirmados em São Paulo e no Rio de Janeiro e revelam a fragilidade da imunidade coletiva contra uma doença que já havia sido eliminada no País. A transmissão aérea do vírus é rápida e a baixa cobertura vacinal cria o ambiente ideal para novos surtos.
O sarampo é uma doença infecciosa altamente contagiosa e que já foi uma das principais causas de mortalidade infantil no mundo. O vírus passa de pessoa a pessoa, por via aérea, ao tossir, espirrar, falar ou respirar. A doença é contagiosa ao ponto de alguém infectado transmitir a doença para até 90% das pessoas próximas e que não estejam imunes. Os casos podem evoluir para complicações graves podendo causar diarreia intensa, infecções de ouvido, cegueira, pneumonia e encefalite (inflamação do cérebro).
A vacinação é a principal forma de prevenção e faz parte do Calendário Nacional de Vacinação. A primeira dose deve ser aplicada aos 12 meses de idade (tríplice viral —- sarampo, caxumba e rubéola) e a segunda aos 15 meses (tetra viral — sarampo, caxumba, rubéola e varicela).
Outra doença que preocupa é a febre amarela. Casos recentes foram registrados no Estado de São Paulo e há vacina disponível nos postos de saúde. Crianças devem receber uma dose aos 9 meses e, depois, um reforço aos 4 anos de idade. Quem recebeu uma dose antes dos 5 anos deve tomar reforço. Pessoas de 5 a 59 anos que não foram vacinadas também têm de receber a dose.
As baixas taxas de imunização contra Influenza em grupos prioritários — idosos e crianças — mostram as consequências mais graves, de infectados que precisam ser hospitalizados e em situações extremas resultam em morte. Dados de 2026 indicam um aumento expressivo nas internações por gripe em comparação a 2026, com grande parte dos pacientes sem histórico de vacinação contra a doença.
Entre os principais motivos para a queda nos índices de vacinação está a desinformação, alimentada por fake news e movimentos antivacina, que gera hesitação em pais e idosos, mesmo diante de imunizantes comprovadamente seguros e eficazes. Também há uma falsa sensação de segurança. Ao achar que as doenças sumiram, muitos negligenciam o reforço da carteira vacinal.
As autoridades ressaltam que a imunização não é uma escolha simplesmente individual e sim uma medida necessária e fundamental para a saúde pública. A explicação é óbvia: ao recusar a vacina, não se coloca em risco apenas a própria vida, mas a de crianças, idosos e pessoas com comorbidades, normalmente mais suscetíveis a infecções por vírus.
O ressurgimento de doenças é um sinal claro de que é preciso retomar a cultura da vacinação no Brasil, assim como existia décadas atrás, antes da propagação de ideias baseadas em fake news e teorias de conspiração, muitas delas importadas de outros países, principalmente dos Estados Unidos, e que tiveram auge durante a nefasta pandemia de Covid, que ceifou cerca de 15 milhões de vidas em todo o mundo.
Sem as campanhas antivacina durante a pandemia, as infecções e as mortes por Covid com certeza seriam menores no Brasil e em outros países.
É dever de gestores públicos em saúde e meios de comunicação reforçar junto à população a importância da imunização, combatendo a desqualificação proposital da ciência disseminada por meio das redes sociais, hoje integradas à vida dos brasileiros, e que ganham força desproporcional à realidade nas conversas familiares e em rodas de amigos.
Entre as ações que podem ser tomadas, algumas delas são os lembretes automáticos por meio de mensagens de texto e em aplicativos para notificar sobre a necessidade da primeira dose ou doses de reforço, envolvimento da comunidade a partir de lideranças locais para reforçar a importância da imunização e abordagem direta à hesitação. O acolhimento de pessoas que têm dúvidas sobre a eficácia ou eventuais efeitos das vacinas ajuda a dirimir suas preocupações. É mais eficente dissuadi-las, reconhecendo seus receios e argumentando, em vez de simplesmente negá-los.